Santa Teresa de Jesus – CASTELO INTERIOR (AUDIOBOOK)

Santa Teresa de Jesus – CASTELO INTERIOR (AUDIOBOOK)


Santa Teresa de Jesus CASTELO INTERIOR Este tratado, chamado Castelo interior, escreveu
Teresa de Jesus, freira de nossa Senhora do Carmo, para suas irmãs è filhas, as freiras
Carmelitas Descalças. – Poucas coisas, das que me tem mandado a
obediência, se tornaram tão dificultosas para mim como escrever agora coisas de oração;
primeiro, porque me parece que o Senhor não me dá nem espírito nem desejo para o fazer;
depois, por ter a cabeça, há três meses, com um zumbido e fraqueza tão grande, que,
até sobre negócios urgentes, escrevo a custo. Mas, entendendo que a força da obediência
costuma facilitar coisas que parecem impossíveis, a vontade determina-se a fazê-lo de muito
bom grado, ainda que a natureza se aflija muito; porque o Senhor não me deu tanta virtude,
para que o pelejar com a enfermidade contínua e com muitas e variadas ocupações se possa
fazer sem grande contradição sua. Faça-o Ele, que tem feito outras coisas mais
dificultosas para me fazer mercê, e em cuja misericórdia confio. – Creio bem que pouco mais hei-de saber dizer
do que já disse em outras coisas, que me mandaram escrever, antes temo que hão-de
ser quase sempre as mesmas: porque, como os pássaros a quem ensinam a falar, não sabem
mais do que lhes ensinam ou eles ouvem, e isto repetem muitas vezes, assim sou eu ao
pé da letra. Se o Senhor quiser que eu diga algo de novo,
Sua Majestade o fará ou será servido trazer-me à memória o que de outras vezes disse, e
que até com isto me contentaria, por tê-la tão má que folgaria em atinar com algumas
coisas, que dizem que estavam bem ditas, caso se tivessem perdido. Se nem mesmo isso me
der o Senhor, com me cansar e acrescentar o mal de cabeça, por obediência, ficarei
com lucro, embora do que disser, não se tire nenhum proveito? – E assim começo a cumpri-la hoje, dia da
Santíssima Trindade, ano de 1577, neste mosteiro de São José do Carmo em Toledo, onde estou
presentemente, sujeitando-me em tudo o que disser ao parecer de quem mo manda escrever,
que são pessoas de grandes letras. Se alguma coisa disser que não vá conforme ao que
ensina a Santa Igreja Católica Romana, será por ignorância e não por malícia. Isto
se pode ter por certo e que sempre estou e estarei sujeita, por bondade de Deus, e o
tenho estado, à Santa Igreja. Seja para sempre bendito e glorificado! Amen! – Disse-me quem me mandou escrever, que estas
freiras destes mosteiros de Nossa Senhora do Carmo têm necessidade de que alguém lhes
declare algumas dúvidas de oração, e lhe parecia que melhor entendem as mulheres a
linguagem umas das outras. Com o amor que me têm, lhes faria mais ao caso o que eu
lhes dissesse e, por esta razão, entendia ter alguma importância se se acertasse a
dizer alguma coisa e, por isso, irei falando com elas naquilo que escrever, porque parece
desatino pensar que pode fazer ao caso a outras pessoas. Grande mercê me fará o Senhor, se a alguma
delas aproveitar para O louvar um poucochinho mais. Bem sabe Sua Majestade que eu não pretendo
outra coisa; e é bem claro que, quando atinar a dizer alguma coisa, elas entenderão que
não é meu, pois não há razão para isso, nem tão-pouco tivera eu entendimento e habilidade
para coisas semelhantes; se o Senhor, por Sua misericórdia não mos desse. PRIMEIRAS MORADAS CAPÍTULO, 1º. Trata da formosura e dignidade
das nossas almas. Põe uma comparação para se entender e diz o lucro que há em entendê-la
e saber as mercês que recebemos de Deus, e como a porta deste castelo é a oração. – Estando eu hoje suplicando a Nosso Senhor
que falasse por mim, porque eu não atinava com coisa que dissesse, nem como começar
a cumprir a obediência, ofereceu-se-me o que agora direi para começar com algum fundamento.
É considerar a nossa alma como um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal,
onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas. Que se bem o considerarmos,
irmãs, não é outra coisa a alma do justo, senão um paraíso onde Ele disse ter Suas
delícias. Pois, não é isso que vos parece que será
o aposento onde um Rei tão poderoso, tão sábio, tão puro, tão cheio de todos os
bens se deleita? Não encontro eu outra coisa com que comparar a grande formosura de uma
alma e a sua grande capacidade; na verdade, os nossos entendimentos, por agudos que sejam,
mal podem chegar a compreendê-la, assim como não podem chegar a considerar a Deus, pois
Ele mesmo disse que nos criou à Sua imagem e semelhança. Pois, se isto assim é, como é, não há
razão para nos cansarmos a querer compreender a formosura deste castelo; porque, ainda que
haja diferença dele a Deus como do Criador à criatura, pois é criatura, basta dizer
Sua Majestade que a alma é feita à Sua imagem, para que possamos entender a grande dignidade
e formosura da alma. – Não é pequena lástima e confusão que,
por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos. Não seria
grande ignorância, minhas filhas, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem
soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez,
sem comparação é maior a que há em nós quando não procuramos saber que coisa somos
e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque
o ouvimos e porque no-lo diz a fé. Mas, que bens pode haver nesta alma ou quem
está dentro dela, ou o seu grande valor, poucas vezes o consideramos; e assim se tem
em tão pouco procurar com todo o cuidado conservar sua formosura. Tudo se nos vai na
grosseria do engaste ou cerca deste castelo; que são estes corpos. – Consideremos agora que este castelo tem,
como disse, muitas moradas: umas no alto, outras em baixo, outras aos lados; e, no centro
e meio de todas estas, tem a mais principal onde se passam as coisas mais secretas entre
Deus e a alma. É mister que fiqueis esclarecidas por esta
comparação; talvez seja Deus servido que eu possa por ela dar-vos a entender alguma
coisa das mercês que Ele faz às almas e as diferenças que há entre elas, até onde
eu tiver entendido que é possível; que, todas, será impossível entendê-las alguém,
pois são muitas, e quanto mais quem é tão ruim como eu! Pois ser-vos-á grande consolo,
quando o Senhor vos fizer essas mercês, saber que é coisa possível e, a quem Ele as não
fizer, para louvarem Sua grande bondade. Assim como não nos faz dano considerar as
coisas que há no céu e o que nele gozam os bem-aventurados, antes nos alegramos e
procuramos alcançar o que eles gozam, tão pouco nos fará dano ver que é possível,
neste desterro, comunicar-se um tão grande Deus a uns vermes tão cheios de mau odor
e amá-los com uma bondade tão boa e uma misericórdia tão sem medida. Tenho por certo que, a quem fizer dano entender
que é possível fazer Deus esta mercê neste desterro, que estará muito falha de humildade
e de amor do próximo; porque, se assim não é, como podemos deixar de nos alegrar de
que Deus faça estas mercês a um irmão nosso e de que Sua Majestade dê a entender Suas
grandezas seja a quem for, pois isso não impede que no-las faça a nós? Que algumas
vezes será só para as mostrar, como disse do cego a quem deu vista quando Lhe perguntaram
os Apóstolos se era cego por seus pecados ou de seus pais. E assim acontece fazer mercês, não por serem
mais santos do que aqueles a quem as não faz, mas para que se conheça Sua grandeza,
como vemos em São Paulo e na Madalena e para que O louvemos em Suas criaturas. – Poderá dizer-se que parecem coisas impossíveis
e que é bom não escandalizar os fracos. Menos se perde em que estes não o creiam,
do que em deixarem de aproveitar aqueles a quem Deus as faz e de se consolar e despertar
a amar mais a Quem faz tantas misericórdias, sendo tão grande Seu poder e majestade; tanto
mais que sei que falo com quem não corre este perigo, porque sabem e crêem que dá
Deus ainda muito maiores provas de amor. Eu sei que os que nisto não crerem, não
o verão por experiência; porque Deus é muito amigo de que Lhe não ponham taxa e
medida a Suas obras, e assim, irmãs, nunca isto aconteça às que o Senhor não levar
por este caminho. – Pois, voltando a nosso formoso e deleitoso
castelo, temos de ver como poderemos entrar nele. Parece que digo algum disparate; porque, se
este castelo é a alma, claro que não se trata de entrar, pois se é ele mesmo, pareceria
desatino dizer a alguém que entrasse num aposento estando já dentro. Mas haveis de
entender que vai muito de estar a estar; que há muitas almas que ficam à volta do castelo,
onde estão os que o guardam, e que se lhes não dá nada de entrar, nem sabem o que há
naquele tão precioso lugar, nem quem está dentro, nem mesmo que dependências tem. Já tereis visto, em alguns livros de oração,
aconselhar a alma a que entre dentro de si; é isto mesmo. – Dizia-me há pouco um grande letrado, que
as almas, que não têm oração são como um corpo paralítico ou tolhido que, embora
tenha pés e mãos, não os podem mexer; e são assim: há almas tão enfermas e tão
habituadas às coisas exteriores, que não há remédio nem parece que possam entrar
dentro de si mesmas; porque é tal o costume de tratarem sempre com as sevandijas e alimárias
que estão à roda do castelo, que já quase se tornaram como elas e, sendo de natureza
tão rica e podendo ter a sua conversação nada menos do que com Deus, não têm remédio. E se estas almas não procuram entender e
remediar sua grande miséria, ficarão feitas em estátuas de sal por não voltarem a cabeça
para si mesmas, assim como ficou a mulher de Lot por voltar a cabeça para trás. – Porque, tanto quanto eu posso entender,
a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal;
logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com
Quem se fala e o que se pede e quem é que pede e a Quem, não lhe chamo eu oração,
embora muito meneie os lábios. E, se algumas vezes o for, mesmo sem este
cuidado, será porque se teve em outras; mas, quem tivesse por costume falar com a Majestade
de Deus como falaria a um seu escravo, que nem repara se diz mal, mas o que lhe vem à
boca e decorou, porque já o fez outras vezes, não o tenho por oração e preza a Deus nenhum
cristão a tenha desta sorte. Que entre vós, irmãs, espero em Sua Majestade não haverá
tal oração, pelo costume que há de tratardes de coisas interiores, e que é muito bom para
não cairdes em semelhante bruteza. – Não falemos, pois, com estas almas tolhidas,
que, se não vem o mesmo Senhor mandar-lhes que se levantem – como aquele que havia 30
anos que estava junto à piscina-, têm muito má ventura e correm grande perigo; mas sim
com outras almas que, por fim, entram no castelo; porque, ainda que estejam muito metidas no
mundo, têm bons desejos e algumas vezes, ainda que de longe em longe, encomendam-se
a Nosso Senhor e consideram quem são, ainda que sem muita demora. Alguma vez ou outra, num mês, rezam cheias
de mil negócios, o pensamento quase de ordinário nisso, porque, como estão tão apegadas a
eles, o coração se lhes vai para onde está o seu tesouro. Propõem algumas vezes, para
consigo mesmos, desocuparem-se, e já é grande coisa o próprio conhecimento e o ver que
não vão bem encaminhadas para atinar com a porta. Enfim, entram nas primeiras dependências
do rés-do-chão; mas entram com elas tantas sevandijas, que não lhes deixam ver a formosura
do castelo nem sossegar: muito fazem já em ter entrado. – Parecer-vos-á, filhas, que estou impertinente,
pois, por bondade do Senhor, não sois destas. Haveis de ter paciência, porque, a não ser
assim, não saberei dar a entender, como eu as tenho entendido, algumas coisas interiores
de oração, e ainda assim preza ao Senhor que atine a dizer alguma coisa, porque é
bem dificultoso o que eu quereria dar-vos a entender, se não houver experiência. Se
a houver, vereis que o menos que se pode fazer é tocar no que, preza ao Senhor, não nos
toque a nós por Sua misericórdia. CAPÍTULO, 2º. Trata de quão feia coisa
é a alma que está em pecado mortal, e como quis Deus dar a entender algo disto a uma
pessoa. Trata também alguma coisa sobre o próprio conhecimento. Diz como se hão-de
entender estas moradas. – Antes de passar adiante, quero dizer-vos
que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso, esta pérola
oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus,
quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra
que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol,
que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro da sua alma, todavia é como se
ali não estivesse, para participar d’Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade,
como o cristal o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que
todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para
alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem
que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d’Ele, não pode a obra ser agradável a Seus
olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus,
senão dar prazer ao demónio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica
feita uma mesma treva. – Eu sei de uma pessoa a quem Nosso Senhor
quis mostrar como ficava uma alma quando pecava mortalmente. Diz aquela pessoa que lhe parece
que, se o entendessem, não seria possível que alguém pecasse, ainda que se pusesse
nos maiores trabalhos que se possam pensar para fugir das ocasiões. E assim, deu-lhe
um grande desejo de que todos o entendessem. Assim vo-lo dê a vós, filhas, de rogar a
Deus pelos que estão neste estado, todos feitos uma escuridão, e tais são suas obras;
porque, assim como duma fonte muito clara, claros são os arroiozitos que dela manam,
assim é uma alma que está em graça, pois daqui lhe vem serem suas obras tão agradáveis
aos olhos de Deus e dos homens, porque procedem desta fonte de vida, onde a alma está como
uma árvore plantada; nem ela teria frescura e fruto, se não lhe viesse dali; é isto
que a sustenta e faz com que não seque, e que dê bom fruto. Assim a alma que, por sua culpa se aparta
desta fonte e se transplanta a outra de uma negríssima água e de muito mau odor, tudo
o que dela sai é a mesma desventura e sujidade. – É de considerar aqui que a fonte e aquele
Sol resplandecente que está no centro da alma, não perde seu resplendor e formosura,
que está sempre dentro dela, e não há coisa que lhe possa tirar a sua formosura. Mas,
se sobre um cristal que está ao sol, se pusesse um pano muito negro, claro está que, embora
o sol dê nele, a sua claridade não fará o seu efeito no cristal. – Ó almas remidas pelo Sangue de Jesus Cristo!
Entendei-vos e tende dó de vós mesmas! Como é possível que, entendendo isto, não procureis
tirar este pez deste cristal? Olhai que, se a vida se vos acaba, jamais tornareis a gozar
desta luz. Ó Jesus! O que é ver uma alma apartada dela! Como ficam os pobres aposentos
do castelo! Que perturbados andam os sentidos, que é
a gente que vive neles! E as potências, que são os alcaides, mordomos e mestres-salas,
com que cegueira, com que mau governo! Enfim, como onde está plantada a árvore é o demónio,
que fruto pode dar? – Ouvi uma vez a um homem espiritual, que
não se espantava do que fazia quem está em pecado mortal, mas sim do que não fazia. Deus, por Sua misericórdia, nos livre de
tão grande mal, que não há coisa, enquanto vivemos, que mereça este nome de mal, senão
esta; pois acarreta males eternos para sempre. É disto, filhas, que devemos andar temerosas
e o que temos de pedir a Deus em nossas orações; porque, se Ele não guarda a cidade, em vão
trabalharemos, pois somos a própria vaidade. Dizia aquela pessoa que tinha aproveitado
duas coisas da mercê que Deus lhe fez: uma, um temor grandíssimo de O ofender, e assim
sempre Lhe andava suplicando não a deixasse cair, vendo tão terríveis danos; a segunda,
um espelho para a humildade, vendo que, coisa boa que façamos, não tem seu princípio
em nós mesmos, mas naquela fonte onde está plantada esta árvore das nossas almas, e
neste Sol que dá calor às nossas obras. Disse que se lhe representou isto tão claro
que, em fazendo alguma coisa boa ou vendo-a fazer, acudia ao seu princípio e entendia
como, sem esta ajuda, não podíamos nada; e daqui lhe procedia ir logo a louvar a Deus,
e, habitualmente, não se lembrava de si em coisa boa que fizesse. – Não seria tempo perdido, irmãs, o que
gastásseis a ler isto, nem eu a escrevê-lo, se ficássemos com estas duas coisas, que
os letrados e entendidos muito bem sabem; mas a nossa ignorância de mulheres de tudo
precisa; e assim, porventura, quer o Senhor que nos venham à lembrança semelhantes comparações.
Praza a Sua Majestade dar-nos graça para isso. – São tão obscuras de entender estas coisas
interiores que, a quem tão pouco sabe como eu, forçoso é dizer muitas coisas supérfluas
e até desatinadas, para que haja alguma em que acerte. É necessário terem paciência
quando isto lerem, pois eu a tenho para escrever o que não sei; e certo é algumas vezes tomar
o papel, como uma pessoa tonta, sem saber que dizer nem mesmo começar. Bem entendo
que é coisa importante para vós declarar-vos algumas coisas interiores, como puder; porque
sempre ouvimos quão boa é a oração e temos na Constituição tê-la tantas horas. Não se nos declara mais do que podemos e,
de coisas que o Senhor opera numa alma, declara-se pouco, digo de coisas sobrenaturais. Dizendo-se
e dando-se a entender de muitas maneiras, ser-nos-á grande consolação considerar
este artifício celestial interior, tão pouco entendido dos mortais, embora passem muitos
por ele. E, ainda que em outras coisas que escrevi,
o Senhor me tenha dado algo a entender, creio que algumas não as tinha entendido como de
então para cá, em especial das mais dificultosas. O trabalho é que, para as chegar a declarar
– como disse, – será preciso dizer muitas coisas muito sabidas, porque não pode ser
por menos para meu rude talento. – Pois voltemos ao nosso castelo de muitas
moradas. Não haveis de imaginar estas moradas uma após outra, como coisa alinhada; mas
ponde os olhos no centro que é a casa ou palácio onde está o Rei, e considerai-a
como um palmito, que, para chegar ao que é de comer, tem muitas coberturas que cercam
tudo quanto é saboroso. Assim aqui, em redor desta morada, há outras
muitas e também por cima. Porque as coisas da alma devem-se considerar com amplidão,
largueza e grandeza, e nisto não há demasia, pois tem maior capacidade do que nós poderemos
considerar, e a todas as partes dela se comunica este Sol que está no palácio. Isto importa
muito a qualquer alma que tenha oração, pouca ou muita: que não a tolha nem a aperte. Deixe-a andar por estas moradas, em cima,
em baixo e aos lados, pois Deus lhe deu tão grande dignidade; não se obrigue a estar
muito tempo num só aposento! Oh! mas se é no próprio conhecimento! E quão necessário
é isto, (vejam se me entendem) mesmo aquelas que o Senhor tem na mesma morada em que Ele
está, pois – por mais elevada que esteja a alma, – não lhe cumpre outra coisa, nem
poderá, ainda que queira que a humildade sempre fabrica o seu mel, como a abelha na
colmeia; sem isto, tudo vai perdido. Mas consideremos que a abelha não deixa de
sair e voar para trazer flores; assim a alma no próprio conhecimento: creia-me e voe algumas
vezes a considerar a grandeza e a majestade do seu Deus. Aqui achará a sua baixeza, melhor
que em si mesma, e mais livre das sevandijas, que entram nas primeiras moradas, que são
as do próprio conhecimento; ainda que, como digo, é grande misericórdia de Deus que
a alma se exercite nisto, pois tanto se peca por excesso como por defeito, – costuma-se
dizer E creiam-me que, com a virtude de Deus, praticaremos
muito melhor a virtude do que muito presas à nossa terra. – Não sei se fica bem dado a entender, porque
é coisa tão importante este conhecermo-nos, que não quereria que nisso houvesse nunca
relaxação, por muito subidas que estejais nos céus; pois, enquanto estamos nesta terra,
não há coisa que mais nos importe que a humildade. E assim volto a dizer que é muito
bom e muito melhor tratar de entrar primeiro no aposento onde se trata disto, que voar
aos demais, porque este é o caminho; e, se podemos ir pelo seguro e plano, para que havemos
de querer asas para voar? Mas procure-se como aproveitar mais nisto;
e a meu ver, jamais acabamos de nos conhecer se não procurarmos conhecer a Deus; olhando
à Sua grandeza, acudamos à nossa baixeza; e olhando à Sua pureza, veremos nossa sujidade;
considerando a Sua humildade, veremos como estamos longe de ser humildes. – Há dois proveitos nisto: o primeiro, está
claro que uma coisa branca parece muito mais branca ao pé duma negra e, ao contrário,
a negra ao pé da branca. O segundo é, porque o nosso entendimento e nossa vontade se tornam
mais nobres e mais dispostos para todo o bem, quando, às voltas consigo mesmos, tratam
com Deus. E se nunca saímos do nosso lodo de misérias, é coisa muito inconveniente. Assim como dizíamos dos que estão em pecado
mortal quão negras e de mau odor são seus cursos de água, assim aqui, (ainda, que não
são como aqueles, Deus nos livre, que isto é só comparação) metidos sempre na miséria
da nossa terra, nunca o curso sairá do lodo de temores, de pusilanimidade e cobardia: de olhar a se me olham, se me não olham;
se indo por este caminho, me sucederá mal; se ousarei começar aquela obra, se será
soberba; se é bom que uma pessoa tão miserável trate de coisa tão alta como a oração;
se me hão-de ter por melhor não indo pelo caminho de toda a gente; que não são bons
os extremos, mesmo em virtude; que, como sou tão pecadora, será cair de mais alto; não
irei talvez por diante e farei dano aos bons; uma como eu não precisa de singularidades. – Oh! valha-me Deus, filhas, quantas almas
deve o demónio ter feito perder muito por este meio! Tudo isto lhes parece humildade
e outras muitas coisas que pudera dizer, vem de nunca acabarmos de nos entender; rende-se
o próprio conhecimento, e, se nunca saímos de nós mesmos, não me espanto, que isto
e mais se possa temer. Por isso digo, filhas, que ponhamos os olhos
em Cristo, nosso Bem, e ali aprenderemos a verdadeira humildade, e em seus santos, e
enobrecer-se-á o entendimento – como disse, – e não ficará o próprio conhecimento rasteiro
e cobarde; pois que, embora esta seja a primeira morada, é muito rica e de tão grande preço
e, se se escapa das sevandijas que nela há, não se ficará sem passar adiante. Terríveis são os ardis e manhas do demónio
para que as almas não se conheçam a si mesmas nem entendam Seus caminhos. – Destas primeiras moradas posso eu dar sinais
muito certos, por experiência. Por isso digo que não considerem poucos aposentos, senão
um milhão deles; porque, de muitas maneiras, entram aqui almas, umas e outras com boa intenção.
Mas, como o demónio sempre a tem tão má, deve terem cada um muitas legiões de demónios
a combater para que não passem de uns a outros. Como a pobre alma não o entende, por mil
maneiras nos engana, o que não pode fazer já tanto às que estão mais perto onde está
o Rei Aqui, porém, como ainda estão embebidas no mundo e engolfadas em seus contentos e
desvanecidas com suas honras e pretensões, não têm força os vassalos da alma, (que
são os sentidos e potências naturais que Deus lhe deu) e facilmente estas almas são
vencidas, embora andem com desejos de não ofender a Deus, e façam boas obras. As que se virem neste estado precisam de recorrer
amiúde, como puderem, a Sua Majestade, tomar a Sua bendita Mãe por intercessora e a Seus
santos, para que pelejem por elas, pois os seus criados pouca força têm para se defender.
E, na verdade, em todos os estados é necessário que ela nos venha de Deus. Sua Majestade no-la
dê por Sua misericórdia, amen. – Que miserável é a vida em que vivemos!
Porque, em outra parte, disse muito do dano que nos faz, filhas, não entender bem isto
da humildade e do próprio conhecimento, nada mais vos digo aqui, ainda que seja o que mais
importa, e praza a Deus tenha dito alguma coisa que vos aproveite. – Haveis de notar que, nestas primeiras moradas,
ainda não chega quase nada da luz que sai do palácio onde está o Rei; porque, embora
não estejam obscurecidas e negras como quando a alma está em pecado, estão de alguma maneira
obscurecidas para poderem ver quem está nelas e não por culpa do aposento – não me sei
dar a entender, – mas porque entraram com a alma tantas coisas más de cobras e víboras
e coisas peçonhentas que não a deixam reparar na luz. É como se alguém entrasse em um lugar aonde
entra muito sol e levasse terra nos olhos, que quase os não pudesse abrir. O aposento está claro, mas ela não o goza
pelo impedimento destas feras e alimárias que lhe fazem cerrar os olhos para não ver
senão a elas. Assim me parece deve ser uma alma que, embora
não esteja em mau estado, está tão metida em coisas do mundo e tão embebida com sua
fazenda ou honra ou negócios – como disse – que, ainda que de facto e verdade queira
ver e gozar da Sua formosura, não a deixam nem parece que possa desembaraçar-se de tantos
impedimentos. E convém muito, para entrar nas segundas
moradas, que procure dar de mão às coisas e negócios não necessários, cada um conforme
à seu estado; é coisa que lhe importa tanto para chegar à morada principal, que, se não
começa a fazer isto, o tenho por impossível; e até mesmo o estar sem muito perigo naquela
em que está, embora já tenha entrado no castelo, porque entre coisas tão peçonhentas,
uma vez ou outra é impossível que deixem de lhe morder. – Pois que seria, filhas, se às que já estão
livres destes tropeços, como nós, e entrámos já muito mais adentro de outras moradas secretas
do castelo, se por nossa culpa tornássemos a sair para estas barafundas, como por nossos
pecados deve haver muitas pessoas a quem Deus faz mercês, e por sua culpa se lançam nesta
miséria? Aqui estamos livres quanto ao exterior; no interior, praza ao Senhor que o estejamos
e que Ele nos livre. Guardai-vos, filhas minhas, de cuidados alheios. Olhai que em poucas moradas
deste castelo deixam de combater os demónios. É verdade que em algumas têm força os guardas
para pelejar, que são as potências – como creio ter dito; – mas é muito necessário
não nos descuidarmos para entender seus ardis e não nos engane o demónio feito anjo de
luz; pois há uma multidão de coisas com que ele nos pode fazer dano, pouco a pouco,
e, até que o faça, não o entendemos. – Já vos disse de outra vez que ele é como
uma lima surda, que é preciso entendê-lo nos princípios. Quero dizer alguma coisa
para vo-lo dar melhor a entender. Dá ele a uma irmã vários ímpetos de penitência,
e a esta lhe parece que não tem descanso senão quando se está atormentando. Este
princípio é bom; mas, se a prioresa mandou que não façam penitências sem licença
e o demónio lhe faz parecer que a coisa tão boa bem se pode atrever, e às escondidas
se dá a tal vida que vem a perder a saúde e não poder fazer o que manda a sua Regra,
já vedes em que vai parar tal bem. Dá a outra um zelo de perfeição muito grande.
Isto é muito bom; mas poderá vir daqui, que qualquer faltita das irmãs lhe pareça
uma grande quebra e assim vir-lhe o cuidado de ver se as fazem, e de recorrer à prioresa;
e até, às vezes, poderá ser ela não ver as suas próprias faltas pelo grande zelo
que tem da Religião; como as outras não vêem o interior, e vêem o cuidado exterior,
poderia ser que o não tomassem tanto a bem. – O que aqui pretende o demónio não é pouco;
é esfriar a caridade e o amor de umas para com as outras, o que seria grande dano. Entendamos, minhas filhas, que a perfeição
verdadeira é amor de Deus e do próximo e, com quanto mais perfeição guardarmos estes
dois mandamentos, seremos mais perfeitas. Toda a nossa Regra e Constituições não
servem para outra coisa, senão de meios para guardar isto com mais perfeição. Deixemo-nos
de zelos indiscretos, que nos podem fazer muito dano. Cada uma olhe para si mesma. Porque noutra parte vos falei largamente sobre
isto, não me alongarei. – Importa tanto este amor de umas para com
as outras, que eu nunca quereria que dele vos esquecêsseis; porque, de andar olhando
nas outras a umas ninharias que às vezes não será imperfeição, mas, como sabemos
pouco, talvez o lançaremos à pior parte, pode a alma perder a paz e ainda inquietar
a das outras. Vede como custaria caro a perfeição! Também poderia o demónio trazer esta tentação
para com a prioresa e seria mais perigosa. Para isto é mister muita discrição: porque,
se forem coisas que vão contra a Regra e Constituição, é preciso que nem sempre
se lancem à boa parte, mas sim avisá-la; e, se não se emendar, ao Prelado: isto é
caridade. E também para com as irmãs, se fosse alguma coisa grave; deixar passar tudo
com medo de que seja tentação, seria a mesma tentação. Mas é preciso ponderar muito (não nos engane
o demónio) não o tratar umas com as outras, pois disso pode o demónio tirar grande proveito
e começar o costume da murmuração; mas apenas tratá-lo com quem há-de aproveitar,
como já disse. Aqui, glória a Deus, não há tanta ocasião
para isso, porque se guarda tão contínuo silêncio; mas é bom que estejamos de sobreaviso. SEGUNDAS MORADAS CAPÍTULO, ÚNICO. Trata do muito que importa
a perseverança para chegar às últimas moradas, e a grande guerra que dá o demónio, e quanto
convém não errar o caminho no princípio para acertar. Dá um meio que experimentou
ser muito eficaz. – Agora, vejamos quais serão as almas que
entram nas segundas moradas e o que fazem nelas. Quereria dizer-vos pouco, porque já
disse bastante em outras partes e será impossível deixar de tornar a dizer outra vez muito sobre
isso, porque não me lembra nada do que já foi dito; se o pudesse guisar de diferentes
maneiras, bem sei que não vos enfastiaríeis, como nunca nos cansamos dos livros que tratam
disto, apesar de serem muitos. – É esta morada a dos que já começaram
a ter oração e entendido quanto lhes importa não se ficarem nas primeiras moradas, mas
não têm ainda determinação para deixar de estar nela muitas vezes, porque não deixam
as ocasiões, o que é grande perigo. Mas já é grande misericórdia que, mesmo por
pouco tempo, procurem fugir das cobras e coisas peçonhentas e entendam que é bom deixá-las. Estes, em parte, têm muito mais trabalho
que os primeiros, ainda que não tenham tanto perigo; pois parece que já os entendem, e
há grande esperança que entrem mais adentro. Digo que têm mais trabalho, porque os primeiros
são como mudos que não ouvem, e assim passam melhor o trabalho de não falar; mas não
o passariam assim, senão muito maior, os que ouvissem e não pudessem falar. Mas, nem por isso é mais de desejar o trabalho
dos que não ouvem, porque enfim, grande coisa é entender o que nos dizem. Assim estes entendem os chamamentos que lhes
faz o Senhor, porque vão entrando mais perto onde está Sua Majestade, é muito bom vizinho
e tão grande a Sua misericórdia e bondade que, mesmo estando nós em nosso passatempo,
negócios, contentamentos e bagatelas do mundo, e até caindo e levantando-nos em pecados,
(porque estas alimárias são tão peçonhentas e perigosa sua companhia e buliçosas que,
só por maravilha deixarão de tropeçar nelas para cair) com tudo isto, tem em tanto este
Senhor nosso que O amemos e procuremos a Sua companhia que, uma vez ou outra, não deixa de nos chamar para que nos acerquemos
d’Ele. E é esta voz tão doce, que se desfaz a pobre alma por não fazer logo o que lhe
manda; e assim – como digo – é muito mais trabalho do que não O ouvir. – Não digo que estas vozes e chamamentos
sejam como outros que direi depois, mas são com palavras que se ouvem a gente boa, ou
sermões ou com o que se lê em bons livros e outras muitas coisas que tendes ouvido,
com as quais Deus chama; ou enfermidades, trabalhos e também com uma ou outra verdade
que Ele ensina naqueles instantes em que estamos em oração que, seja quão frouxamente quiserdes,
os tem Deus em muito. E vós, irmãs, não tenhais em pouco esta primeira mercê, nem
vos desconsoleis, ainda mesmo que não respondais logo ao Senhor. Bem sabe Sua Majestade aguardar muitos dias
e anos, em especial quando vê perseverança e bons desejos. Esta perseverança é aqui
o mais necessário, porque com ela jamais se deixa de ganhar muito. Mas é terrível a violência que aqui usam
os demónios de mil maneiras, com mais tormento da alma que na morada anterior; porque ali,
estava muda e surda, pelo menos ouvia muito pouco e resistia menos, como quem tem, em
parte, perdida a esperança de vencer; aqui está o entendimento mais vivo e as potências
mais hábeis; e são os golpes e a artilharia de tal modo, que a alma não pode deixar de
ouvir. Porque aqui é o representarem os demónios
estas cobras das coisas do mundo e fazerem os seus contentos quase eternos, a estima
em que nele se é tido, os amigos e parentes, a saúde que se pode perder nas coisas de
penitência, (pois sempre começa a alma que entra nesta morada a desejar fazer alguma)
e outras mil maneiras de impedimentos. – Ó Jesus, que barafunda a que põem aqui
os demónios e as aflições da pobre alma, que não sabe se há-de passar adiante ou
voltar ao primeiro aposento! É que a razão, por outra parte, representa-lhe o engano que
é pensar que tudo isto vale alguma coisa em comparação do que pretende. A fé ensina-lhe o que é que lhe cumpre fazer;
a memória representa-lhe em que vão parar todas estas coisas, tornando-lhe presente
a morte, e algumas súbitas, dos que muito gozaram destas coisas que viu; quão depressa
são esquecidos de todos, como viu pisar debaixo da terra alguns que conheceu em grande prosperidade
– e até mesmo ter ela passado sobre suas sepulturas muitas vezes – e pensar que naquele
corpo estão fervilhando muitos vermes e muitas outras coisas que podem ocorrer; a vontade
inclina-se a amar Aquele em quem tem visto tão inumeráveis coisas e mostras de amor,
e quereria pagar alguma; em especial, põe-se-lhe diante como nunca
se aparta dela este verdadeiro Amador, acompanhando-a, dando-lhe vida e ser. Logo o entendimento acode dando-lhe a entender
que não pode encontrar melhor amigo, ainda que viva muitos anos; que todo o mundo está
cheio de falsidade, e estes contentos que lhe representa o demónio, estão cheios de
trabalhos e cuidados e contradições; e lhe diz que está certo que, fora deste castelo,
não encontrará segurança nem paz; que se deixe de andar por casas alheias, pois a sua
está cheia de bens, se a quiser gozar; que ninguém acha tudo que há mister senão em
sua casa, em especial tendo tal Hóspede, que a fará senhora de todos os bens; se ela quiser não andará perdida, como o
filho pródigo, comendo manjar de porcos. –
Razões são estas para vencer os demónios. Mas, ó Senhor e Deus meu! Os costumes das
coisas de vaidade e o ver que toda a gente trata disso, estraga tudo! Porque está tão
morta a fé, queremos mais o que vemos do que aquilo que ela nos diz. E, na verdade,
não vemos senão excessiva má ventura nos que se deixam ir atrás destas coisas visíveis. Mas isso fizeram estas coisas peçonhentas
que tratamos; como alguém que é mordido por uma víbora se empeçonha e incha todo,
assim aqui, se não nos acautelamos; claro está que para sarar são precisas muitas
curas; e grande mercê nos faz Deus, se não morremos disso. É certo que a alma passa
aqui grandes trabalhos, em especial se o demónio entende que ela tem disposições de sua condição
e costumes para ir muito adiante: todo o inferno se juntará para fazê-la tornar a sair para
fora. – Ah! Senhor meu!, aqui é mister a Vossa
ajuda, pois, sem ela, não se pode fazer nada. Por Vossa misericórdia não consintais que
esta alma seja enganada para deixar o que começou. Dai-lhe luz para ver como está
nisto todo o seu bem e para se apartar das más companhias. Grandíssima coisa é tratar
com os que tratam disto e achegar-se, não só aos que vir nestes aposentos em que está,
mas também aos que entender que já entraram nos mais interiores; porque lhe será grande
ajuda, e tanto poderá conversar com estes, que ali a metam consigo. Esteja sempre de sobreaviso para não se deixar
vencer; porque, se o demónio a vê com uma grande determinação de que, antes perderá
a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece, do que voltar ao primeiro aposento, muito
mais depressa a deixará. Seja varão e não dos que se deitavam a beber de bruços, quando
iam para a batalha, não me lembro com quem, mas determine-se: vai pelejar com todos os
demónios e não há melhores armas do que as da Cruz. – Ainda que de outras vezes tenha dito isto,
importa tanto, que o torno a dizer aqui; é que não se lembre que há regalos nisto que
principia, porque é maneira muito baixa de começar a construir tão precioso e grande
edifício; e, se começam sobre areia, darão com tudo em terra; nunca deixarão de andar
desgostosos e tentados. Porque não são estas moradas onde chove
o maná; estão mais adiante, onde tudo sabe ao que uma alma quer, porque não quer senão
o que Deus quer. É coisa muito engraçada que ainda estejamos com mil embaraços e imperfeições
e as virtudes que ainda não sabem andar, pois só há pouco começaram a nascer, e
mesmo praza a Deus que estejam começadas; e não temos vergonha de querer gostos na
oração e de nos queixarmos de aridez? Nunca isto vos aconteça, irmãs; abraçai-vos com
a cruz que vosso Esposo tomou sobre Si e entendei que esta deve ser a vossa empresa. A que mais puder padecer, que padeça mais
por Ele e será a que melhor se liberta. O resto, como coisa acessória, se vo-lo der
o Senhor, dai-Lhe muitas graças. – Parecer-vos-á que, para os trabalhos exteriores,
estais bem determinadas, conquanto vos regale Deus no interior. Sua Majestade sabe melhor,
o que nos convém; não temos de Lhe aconselhar o que nos há-de dar, poi. pode com razão
dizer-nos que não sabemos o que pedimos. Toda a pretensão de quem começa a ter oração
(e não vos esqueça isto, pois importa muito) há-de ser trabalhar e determinar-se e dispor-se,
com quanta diligência puder, a fazer conformar a sua vontade com a de Deus; e – como direi
depois, – estai bem certas que nisto consiste toda a maior perfeição, que se pode alcançar
no caminho espiritual. Quem mais perfeitamente tiver isto, mais receberá do Senhor e mais
adiante estará neste caminho. Não penseis que há aqui muitas algaravias
nem coisas não sabidas e compreendidas: nisto consiste todo o nosso bem. Pois, se erramos no princípio, querendo logo
que o Senhor faça a nossa vontade e que nos leve como imaginamos, que firmeza pode levar
este edifício? Procuremos fazer o que está em nossa mão e guardemo-nos das sevandijas
peçonhentas; que muitas vezes quer o Senhor que haja securas e nos persigam maus pensamentos
e nos aflijam, sem os podermos afastar de nós, e até algumas vezes permite que nos
mordam, para que nós nos saibamos melhor guardar depois e para ver se nos pesa muito
de O ter ofendido. – Por isso, não vos desanimeis, se alguma
vez cairdes, para deixar de ir por diante; pois, dessa mesma queda, tirará Deus bem,
como faz aquele que vende a mezinha que, para provar se é boa, bebe o veneno primeiro.
Se não víssemos em outra coisa a nossa miséria e o grande dano que nos faz o andarmos dissipados,
só esta luta que se passa para nos tornarmos a recolher, bastava. Poderá haver maior mal do que não nos acharmos
em nossa própria casa? Que esperança podemos ter de encontrar sossego em outras coisas,
se nas próprias não podemos sossegar? Mas tão grandes e verdadeiros amigos e parentes,
com quem embora não o queiramos, sempre havemos de viver, como são as nossas potências,
parece fazerem-nos guerra, como que sentidas da que lhes fizeram os nossos vícios. Paz,
paz, minhas irmãs, disse o Senhor e admoestou os Seus Apóstolos tantas vezes. Pois, crede-me
que, se não a temos e não a procuramos em nossa casa, não a acharemos na dos estranhos. Acabe-se já esta guerra; pelo Sangue que
Ele derramou por nós o peço eu aos que não começaram a entrar em si; e os que já começaram,
que nada seja bastante para os fazer voltar atrás. Olhem que é pior a recaída que a queda;
já vêem sua perda; confiem na misericórdia de Deus e nada em si mesmas, e verão como
Sua Majestade leva a alma de umas moradas a outras e a mete naquela terra onde estas
feras não a podem tocar nem cansar; mas ela as sujeita a todas e faz troça delas, e goza
de muitos mais bens do que poderia desejar, ainda mesmo nesta vida, digo. – Porque – como disse ao principio, – escrevi
como vos haveis de comportar nestas perturbações que aqui apresenta o demónio, e como começar
a recolher-se não há-de ir à força de braços, mas sim com suavidade, para que o
possais estar mais continuamente, só direi aqui que, a meu parecer, faz muito ao caso
tratar com pessoas experimentadas; porque em coisas que é necessário fazer, podereis
pensar que há grande quebra. Contanto que não se deixe este começo de
recolhimento, tudo guiará o Senhor em nosso proveito, embora não encontremos quem nos
ensine; que para este mal de deixar a oração, não há remédio, se não se torna a começar,
senão que, pouco a pouco, a alma vai perdendo cada dia mais, e ainda praza a Deus que o
entenda. – Poderia alguma pensar que, se tão grande
mal é voltar atrás, melhor será nunca começar, mas antes iscar-se fora do castelo. Já vos
disse ao princípio, – e o mesmo Senhor o diz que, quem anda no perigo, nele perece
e que a porta para entrar neste castelo é a oração. Ora, pensar que havemos de entrar
no Céu e não entrar em nós, conhecendo-nos e considerando nossa miséria e o que devemos
a Deus e pedindo-Lhe muitas vezes misericórdia, é desatino. O mesmo Senhor diz: «Ninguém
subirá a meu Pai, senão por Mim». Não sei se disse assim, creio que sim; e
«quem Me vê a Mim vê a Meu Pai». Pois, se nunca olhamos para Ele, nem consideramos
o que Lhe devemos e a morte que sofreu por nós, não sei como O podemos conhecer nem
fazer obras em Seu serviço. Porque a fé, sem elas, e sem irem unidas
ao valor dos merecimentos de Jesus Cristo, nosso Bem, que valor pode ter? E quem nos
despertará a amar este Senhor? Praza a Sua Majestade nos dê a entender o
muito que Lhe custámos e como o servo não é mais que o Senhor; e que precisamos fazer
obras para gozar da Sua glória; para isto é necessário orar para não andar sempre
em tentação. TERCEIRAS MORADAS CAPÍTULO, 1º. Trata da pouca segurança
que podemos ter enquanto se vive neste desterro, ainda que o estado seja elevado. E como convém
andar com temor. Contém alguns temas muito bons. – Aqueles que, pela misericórdia de Deus,
venceram estes combates e com perseverança entraram nas terceiras moradas, que lhes diremos,
senão «bem-aventurado o varão que teme o Senhor»? Não foi pouco fazer Sua Majestade com que
entenda eu agora, nesta altura, em que costumo ser rude nestes casos, o que quer dizerem
vernáculo este versículo. Por certo, com razão o chamaremos bem-aventurado, pois,
se não volta atrás, ao que podemos entender, leva caminho seguro na sua salvação. Aqui
vereis, irmãs, quanto importa vencer as batalhas passadas; pois tenho por certo que nunca deixa
o Senhor de o pôr em segurança de consciência, o que não é pequeno bem. Digo em segurança, e disse mal, pois não
a há nesta vida, e por isso entendei sempre o que digo: se não voltar a deixar o caminho
começado. – Muito grande miséria é viver em vida que
sempre temos de andar como quem tem inimigos à porta, que não pode comer nem dormir sem
armas, e sempre em sobressalto, com receio de que, por alguma parte, possam arrombar
esta fortaleza. Ó meu Senhor e meu Bem! Como quereis que se deseje vida tão miserável,
se não é possível deixar de querer e pedir que nos tireis dela, se não é com esperança
de perdê-la por Vós ou gastá-la em Vosso serviço, e sobretudo entender que é Vossa
vontade? Se o é, Deus meu, morramos convosco, como disse São Tomé, porque não é outra
coisa senão morrer muitas vezes o viver sem Vós e com estes temores de que pode ser possível
perder-Vos para sempre. Por isso digo, filhas, que a bem-aventurança
que temos de pedir é estar já em segurança com os bem-aventurados; pois com estes temores,
que satisfação pode ter aquele que a tem toda em contentar a Deus? E considerai que
esta, e muito maior, tinham alguns santos que caíram em graves pecados; e não temos
a certeza de que nos dará Deus a mão para sair deles e fazer a penitência que esses
fizeram, (subentende-se o auxílio particular.) – Certo é, minhas filhas, que estou com não
pouco temor escrevendo isto, pois não sei como o escrevo nem como vivo, quando disso
me lembro muitas, muitas vezes. Pedi-Lhe, minhas filhas, que Sua Majestade viva sempre
em mim; porque, se não for assim, que segurança pode ter uma vida tão mal gasta como a minha?
E não vos pese o entender que isto é assim, como algumas vezes o tenho visto em vós,
quando vo-lo digo, e procede de que quiséreis que tivesse sido muito santa e tendes razão;
também eu o quisera. Mas, que hei-de fazer, se o perdi somente por minha culpa?! E não me queixarei de Deus que deixou de
me dar bastantes ajudas, para que se cumprissem vossos desejos. Não posso dizer isto sem
lágrimas e grande confusão de ver que escrevo para aquelas que me podem ensinar a mim. Dura
obediência tem sido! Praza ao Senhor que, pois se faz por Ele, seja para que vos aproveiteis
de alguma coisa e para que Lhe peçais que perdoe a esta miserável atrevida. Mas bem sabe Sua Majestade que só posso presumir
da Sua misericórdia; e, já que não posso deixar de ser a que tenho sido, não tenho
outro remédio, senão acolher-me a ela e confiar nos méritos de Seu Filho e da Virgem,
Sua Mãe, cujo hábito indignamente trago, e vós trazeis também. Louvai-O, minhas filhas,
pois verdadeiramente o sois desta Senhora; e assim não tendes de vos afrontar que eu
seja ruim, pois tendes tão boa Mãe. Imitai-A e considerai qual deve ser a grandeza
desta Senhora, e o bem de A ter por Padroeira, pois não bastaram meus pecados e ser a que
sou, para em nada deslustrar esta sagrada Ordem. – Mas, duma coisa vos aviso: que nem por ser
tal e ter tão boa Mãe, estais seguras, que muito santo era David, e já vedes o que foi
Salomão; nem façais caso do encerramento e penitência em que viveis, nem vos assegureis
por tratardes sempre com Deus e exercitar-vos na oração tão continuamente e estardes
tão retiradas das coisas do mundo e tê-las, a vosso parecer, aborrecidas. É bom tudo
isto, mas não basta – como disse para deixarmos de temer; e assim meditai este versículo
e trazei-o na memória muitas vezes: «Beatus vir, qui timet Dominum». – Já não sei o que dizia, pois distraí-me
muito e, em me lembrando de mim, quebram-se-me as asas para dizer coisa boa. E assim o quero
deixar por agora. Voltando ao que comecei a dizer das almas
que entraram nas terceiras moradas, e não lhes fez o Senhor pequena mercê, mas sim
muito grande em terem vencido as primeiras dificuldades. Destas, pela bondade do Senhor,
creio que há muitas no mundo; são muito desejosas de não ofender a Sua Majestade,
e até mesmo dos pecados veniais se guardam, e amigas de fazer penitência; têm suas horas
de recolhimento, gastam bem o tempo, exercitando-se em obras de caridade com os próximos, muito
concertadas no falar e vestir e governo de casa, as que a têm. Decerto que é estado para desejar, e parece
que nada há para que se lhes negue a entrada até à última morada, nem lha negará o
Senhor, se elas quiserem. Que bela disposição esta para que lhes faça toda a mercê. – Ó Jesus! e quem dirá que não quer um
tão grande bem, em especial havendo já passado pelo mais trabalhoso? Ninguém. Todas dizemos
que o queremos; mas, como ainda é mister mais para que de todo o Senhor possua a alma,
não basta dizê-lo, como não bastou ao mancebo quando o Senhor lhe perguntou se queria ser
perfeito. Desde que comecei a falar destas moradas,
trago-o diante de mim; porque somos assim ao pé da letra, e o mais normal é virem
daqui as grandes securas na oração, ainda que também haja outras causas; e deixo uns
trabalhos interiores intoleráveis que têm muitas almas boas, e muito sem culpa sua,
dos quais sempre o Senhor as tira com muito lucro, e das que têm melancolia e outras
enfermidades. Enfim, em todas as coisas temos de deixar à parte os juízos de Deus. Segundo tenho para mim, o mais habitual, é
o que disse; porque, como estas almas vêem que por coisa alguma fariam um pecado, e muitas
nem ainda venial deliberado, e que gastam bem sua vida e fazenda, não podem levar à
paciência que se lhes cerre a porta para não entrar aonde está o nosso Rei, por cujos
vassalos se têm e o são. Mas, cá na terra, ainda que tenha muitos vassalos o rei, nem
todos entram até à sua câmara. Entrai, entrai, filhas minhas, no interior;
passai adiante de vossas obrazitas, pois, por serdes cristãs, deveis tudo isso e muito
mais, e vos basta ser vassalas de Deus. Não queirais tanto, que vos fiqueis sem nada.
Vede os santos que entraram na câmara deste Rei e vereis a diferença que há deles para
nós. Não peçais o que não tendes merecido, nem havia de nos vir ao pensamento que, por
muito que sirvamos, o havemos de merecer, nós os que temos ofendido a Deus. – Ó humildade! Não sei que tentação me
vem neste caso, que não posso acabar de crer a quem tanto caso faz destas securas, senão
que é um pouco falta dela. Digo que deixo aparte os grandes trabalhos interiores que
disse, pois estes são muito mais que falta de devoção. Provemo-nos a nós mesmas, minhas
irmãs, ou antes prove-nos o Senhor, pois bem o sabe fazer, embora muitas vezes não
o queremos entender, e venhamos a estas almas tão concertadas; vejamos o que fazem por
Deus, e logo veremos como não temos razão de nos queixarmos de Sua Majestade. Porque, se lhe voltamos as costas e nos vamos
tristes como o mancebo do Evangelho, quando nos diz o que havemos de fazer para sermos
perfeitos, que quereis que faça Sua Majestade, se Ele há-de dar o prémio conforme ao amor
que Lhe temos? E este amor, filhas, não há-de ser fabricado em nossa imaginação, mas sim
provado com obras; e não penseís que olha às nossas obras, senão à determinação
da nossa vontade. – Parecer-nos-á a nós, que temos hábito
de religião, e o tomámos por nossa vontade e deixámos todas as coisas do mundo e o que
tínhamos, por amor d’Ele, (ainda que sejam as redes de São Pedro, pois parece que dá
muito quem dá o que tem) que já está tudo feito. Muito boa disposição é se persevera e não
se torna a meter nas sevandijas dos primeiros aposentos, embora só com o desejo; pois não
há dúvida que, se persevera nesta desnudez e desprendimento de tudo, alcançará o que
pretende. Mas há-de ser com a condição, e vede que vos aviso disto, que se tenha por
servo sem proveito – como disse São Paulo, ou Cristo, e não creia que obrigou assim
a Nosso Senhor a fazer-lhe semelhantes mercês; antes, como quem mais recebeu, fica mais endividado. Que poderemos fazer por um Deus tão generoso,
que morreu por nós e nos criou e nos dá o ser, que não nos tenhamos por venturosos
em que se vá descontando alguma coisa do que Lhe devemos pelo que Ele nos tem servido,
(disse esta palavra de má vontade, mas isto é assim, pois não fez outra coisa enquanto
viveu no mundo) sem que Lhe peçamos de novo mercês e regalos? – Olhai muito, filhas, a algumas coisas que
aqui vão apontadas; ainda que atabalhoadas, porque melhor não as sei declarar. O Senhor
vo-lo dará a entender, para que tireis das securas humildade e não inquietação, que
é o que pretende o demónio. E crede que onde há verdadeira humildade, ainda que Deus
nunca dê regalos, dará uma paz e conformidade com que andareis mais contentes do que outros
com regalos. E muitas vezes – como tendes lido, – os dá a Divina Majestade aos mais
fracos; embora creia que eles não os trocariam pelas fortalezas dos que andam com securas. Somos amigos de contentamentos mais do que
de cruz. Prova-nos, Tu, Senhor, que sabes a verdade, para que nos conheçamos. CAPÍTULO, 2º. Prossegue no mesmo e trata
das securas na oração e do que poderia suceder, a seu parecer, e como é mister provar-nos
e que o Senhor prova aos que estão nestas moradas. – Eu tenho conhecido algumas almas, e creio
que posso dizer bastantes, das que chegaram a este estado e vivido muitos anos nesta rectidão
e concerto, alma e corpo; ao que se pode entender. E depois disto, quando já parece haviam de
estar senhores do mundo, ao menos bem desenganados dele, prova-os Sua Majestade em coisas não
muito grandes, e andam com tanta inquietação e aperto de cotação, que a mim me trazem
tonta e até muito temerosa. Pois, dar-lhes conselho, não é remédio
porque, como há tanto que tratam de virtudes, parece-lhes que podem ensinar a outros e que
lhes sobra razão sentindo aquelas coisas. – Enfim, eu não achei remédio nem acho para
consolar semelhantes pessoas, a não ser mostrar grande sentimento da sua pena, (e na verdade,
tem-se pena de as ver sujeitas a tanta miséria) e não contradizer suas razões; porque todas
as concertam em seu pensamento, que é por Deus que as sentem e assim não vêm a entender
que é imperfeição. E é outro engano para gente tão aproveitada. Que o sintam, não
é de espantar, embora, a meu parecer, havia de passar depressa o sentimento de coisas
semelhantes. Porque muitas vezes quer Deus que Seus escolhidos
sintam essa miséria e aparta um pouco o Seu favor e não é preciso mais para que, de
verdade, nos conheçamos bem depressa. E logo se entende esta maneira de os provar: para
que eles compreendam a sua falta muito claramente; e, às vezes, dá-lhes mais pena ver que,
sem estar na sua mão, sentem as coisas da terra e não muito pesadas, do que daquilo
mesmo de que têm pena. Isto tenho-o eu por grande misericórdia de
Deus; e ainda que é falta, é muito vantajosa para a humildade. – Nas pessoas que digo, não é assim, senão
que canonizam – como disse – em seus pensamentos estas coisas, e assim quereriam que os outros
as canonizassem. Quero dizer algumas delas, para que nos entendamos e nos provemos a nós
mesmas, antes que nos prove o Senhor; pois seria bem grande coisa estarmos apercebidas
e termo-nos entendido primeiro. – A uma pessoa rica, sem filhos nem para quem
ela queira a fazenda, vem-lhe uma quebra de riqueza; mas não é de maneira que, do que
lhe fica, lhe possa faltar o necessário para si e para sua casa, e ainda de sobra. Se esta
andasse com tanto desassossego e inquietação como se não lhe ficasse um pão para comer,
como há-de pedir-lhe Nosso Senhor que deixe tudo por Ele? Aqui começa a dizer que o sente,
porque o quer para os pobres. Por mim, creio que Deus mais quer que me conforme
com o que Sua Majestade faz e, embora procure fazê-la, aquiete a minha alma e não esta
caridade. E já que o não faz, por não a ter elevado o Senhor a tanto, seja muito em
boa hora; mas entenda que lhe falta esta liberdade de espírito e com isto se disporá para que
o Senhor lha dê, porque lha pedirá. Tem uma pessoa bem de que comer, e até de
sobra; oferece-se-lhe o poder adquirir mais fortuna: tomá-la, se lha derem, seja em muito
boa hora; mas procurá-la, e depois de a ter, procurar mais e mais, tenha tão boa intenção
que quiser, (e deve ter porque, como disse, são estas pessoas de oração e virtuosas)
não haja medo que subam às moradas mais perto do Rei. – Deste modo acontece, quando se lhes oferece
alguma coisa, pela qual os desprezem ou lhes tirem um pouco na honra; pois, embora lhes
faça Deus mercê de que muitas vezes o sofram bem, (porque é muito amigo de favorecer a
virtude em público, para que não padeça a mesma virtude em que são tidos; e mesmo
será porque O têm servido, pois é muito bom este nosso Bem) lá lhes fica uma tal
inquietação, que não se podem valer, nem acaba de se acabar tão depressa. Valha-me Deus! Não são estes os que, há
tanto tempo, consideram como padeceu o Senhor e quão bom é padecer e até o desejam? Quereriam
a todos tão concertados como eles trazem suas vidas, e praza a Deus que não pensem
que a pena que têm é pela culpa alheia e a façam meritória em seu pensamento. – Parecer-vos-á, irmãs, que falo fora de
propósito e não convosco, pois estascoisas aqui não as há, porque nem temos fazenda,
nem a queremos, nem a procuramos, nem tão pouco alguém nos injuria. Por isso as comparações não aludem ao que
se passa; mas tira-se delas outras muitas coisas que podem acontecer, as quais não
seria bom assinalar, nem há para quê. Por estas entenderes se estais bem desprendidas
do que deixastes porque se oferecem coisitas, ainda que não bem desta sorte, em que vos
podereis muito bem provar e conhecer se estais senhoras das vossas paixões. E crede-me que não está o negócio em ter
hábito de religião ou não, senão em procurar exercitar as virtudes e render a nossa vontade
à de Deus em tudo e que oconcerto da nossa vida seja o que Sua Majestade dela ordenar
e não queiramos que se faça a nossa vontade mas sim a Sua. Se não tivermos chegado até
aqui, tenhamos – como disse – humildade, que é o unguento para as nossas feridas; porque,
se a temos deveras, ainda que tarde algum tempo, virá o cirurgião, que é Deus, a
sarar-nos. – As penitências que fazem estas almas são
tão concertadas como a sua vida. Querem-na muito para servir a Nosso Senhor com ela,
e tudo isto não é mau; assim têm grande discrição em fazer penitências, para não
causar dano à saúde. Não tenhais medo que se matem, porque a sua razão está muito
em si; não está ainda o amor para pôr de parte a razão. Mas queria eu que a tivéssemos
para não nos contentarmos com esta maneira de servir a Deus, sempre passo a passo, que
nunca acabamos de andar este caminho. E, como a nosso parecer sempre andamos e nos
cansamos – porque crede que é um caminho custoso, – já será bem bom que não nos
percamos. Mas, parece-vos, filhas, que se indo duma terra a outra pudéssemos chegar
em oito dias, seria bom andar um ano por ventos, neves, chuvas e maus caminhos? Não valeria
mais passá-lo de urna vez? Porque tudo isto há e perigos de serpentes. Oh! que bons sinais
poderia eu dar disto. E praza a Deus que tenha passado daqui, que bastantes vezes me parece
que não. – Como vamos com tanto senso, tudo nos ofende,
porque tudo tememos; e assim, não ousamos passar adiante, como se nós pudéssemos chegar
a estas moradas e outros estivessem a caminho. Pois, como isto não é possível, esforcemo-nos,
irmãs minhas, por amor do Senhor; deixemos nossa razão e temores em Suas mãos; esqueçamos
esta fraqueza natural que muito nos pode ocupar. O cuidado destes corpos tenham-no os prelados,
e lá se avenham; nós tenhamo-lo só de caminhar depressa para ver este Senhor; pois, embora
o regalo que possais ter é pouco ou nenhum, o cuidado da saúde nos poderia enganar, quanto
mais que não se terá mais por isso, eu o sei. E também sei que não está o negócio no
que toca ao corpo, que isto é o menos; pois o caminhar que digo, é com uma grande humildade;
porque, se bem e entendestes, creio estar aqui o mal das que não vão adiante e nos
pareça que temos andado poucos passos e assim o julguemos, e os que andam nossas irmãs
nos pareçam muito pressurosos, e não só desejemos, mas procuremos que nos tenham pela
mais ruim de todas. – E, com isto, este estado é excelentíssimo;
e, se assim não é, toda a nossa vida estaremos nele e com mil penas e misérias. Porque,
como não nos deixamos a nós mesmas, é muito trabalhoso e pesado, porque vamos muito carregadas
com esta terra da nossa miséria, que não levam os que sobem aos aposentos que faltam. Nestes, não deixa o Senhor de pagar como
justo, e ainda como misericordioso, pois dá sempre muito mais do que merecemos, dando-nos
contentamentos muito maiores que os que podemos ter nos regalos e distracções desta vida.
Mas não penso que dê muitos gostos, a não ser alguma vez, para nos convidar a ver o
que se passa nas demais moradas, para que nos disponhamos a entrar nelas. – Parecer-vos-á que contentamentos e gostos
é tudo o mesmo, para que eu faça esta diferença nos nomes. A mim parece-me que a há e muito
grande; bem me posso enganar. Direi o que nisto entender nas quartas moradas
que vêm depois destas; porque, como se há-de declarar algo dos gostos que ali dá o Senhor,
fica melhor, e ainda que pareça sem proveito, poderá ser de algum, para que, entendendo
o que é cada coisa, possais; esforçar-vos a seguir o melhor; e é de muito consolo para
as almas que Deus leva até ali, e confusão para quem lhe parece já ter tudo, e, se são;
humildes, mover-se-ão a dar graças. Se há alguma falta disto, dar-lhes-á um
desgosto interior fora de propósito; pois, não está a perfeição nos gostos, nem no
prémio, senão em quem mais ama e em quem melhor opera com justiça e verdade. – Direis: Para que serve tratar destas mercês
interiores e dar a entender como são, se isto é verdade, como é? Eu não o sei; pergunte-se
a quem mo mandou escrever que eu não estou obrigada a discutir com os superiores, mas
a obedecer; nem seria bem fazê-lo. O que vos posso dizer com verdade, é que,
quando eu não as tinha, nem ainda sabia por experiência, nem pensava sabê-lo em minha
vida, (e com razão, que grande contentamento fora para mim saber ou por conjecturas entender
que agradava a Deus em algum modo) quando lia em livros destas mercês e consolos que
faz o Senhor às almas que O servem, isso me dava grandíssimo prazer e era motivo para
minha alma dar grandes louvores a Deus. Pois, se a minha, com ser tão ruim, fazia
isto, as que são boas e humildes O louvarão muito mais; e por uma só que O louve uma
vez, está muito bem que se diga, a meu parecer, e que entendamos o contentamento e deleites
que perdemos por nossa culpa. Quanto mais que, se são de Deus, vêm carregados
de amor e fortaleza, com que se pode caminhar mais sem trabalho e ir crescendo nas obras
e virtudes. Não penseis que importa pouco que isto não
falhe da: nossa parte, pois, quando não é nossa a falta, justo é o Senhor, e Sua Majestade
vos dará, por outros caminhos, o que vos tira por este, pelo que Sua Majestade sabe,
pois são mui ocultos Seus segredos; pelo menos, será isso o que mais nos convém,
sem dúvida nenhuma. – O que me parece nos faria muito proveito
àquelas que pela bondade do Senhor estão neste estado, (que, como disse, não lhes
faz pouca misericórdia, porque estão muito perto de ir mais longe) é exercitarem-se
muito na prontidão da obediência. E mesmo que não sejam religiosos, seria grande
coisa – como o fazem muitas pessoas – ter a quem recorrer para não fazer em nada a
sua vontade, que é o que habitualmente nos causa dano; e não buscar alguém do seu humor, como dizem,
que vá sempre com muito tento em tudo, mas sim, procurar quem esteja muito desenganado
das coisas do mundo, pois, de grande modo, aproveita tratar com quem já conhece o mundo
para nos conhecermos e, porque algumas coisas que nos parecem impossíveis vendo-se em outros
tão possíveis e a suavidade com que as levam, anima muito e parece que, com seu voo, nos
atrevemos a voar, como fazem os filhos das aves quando os ensinam. Ainda que não dêem
grande voo, pouco a pouco imitam os seus pais. De grande modo aproveita isto, eu o sei. Por mais determinadas que estejam em não
ofender o Senhor, semelhantes pessoas procederão com acerto, não se metendo em ocasiões de
O ofender; porque, como estão perto das primeiras moradas, com facilidade poderão voltar a
elas, porque a sua fortaleza não está fundada em terra firme, como os que estão já exercitados
em padecer; estes conhecem as tempestades do mundo, e quão pouco têm a temer ou a
desejar seus contentamentos; e seria possível, com uma grande perseguição, voltarem de
novo a eles. O demónio bem as sabe urdir para lhes fazer
mal, e poderia suceder que, indo com bom zelo, querendo impedir pecados alheios, não pudessem
resistir ao que a isto sobreviesse. – Olhemos as nossas faltas e deixemos as alheias,
pois é muito próprio de pessoas tão concertadas espantarem-se de tudo; e porventura de quem
nos espantamos, bem poderíamos aprender no principal. Na compostura exterior e na maneira
de tratar, levamos-lhe vantagem; e não é isto o que tem mais importância, embora seja
bom, e nem há para quê querer logo que vão todos pelo nosso caminho, nem pôr-se a ensinar
o que é do espírito quem porventura não sabe o que isso é; pois com estes desejos
que Deus nos dá, irmãs, do bem das almas, podemos cometer muitos erros. E assim é melhor ater-nos ao que diz a nossa
Regra: «procurar viver sempre em silêncio e esperança», que o Senhor terá cuidado
de nossas almas. Desde que não nos descuidemos de o suplicar a Sua Majestade, faremos grande
proveito com Seu favor. Seja para sempre bendito. QUARTAS MORADAS CAPÍTULO, 1º. Trata da diferença que há
entre ternuras na oração e gostos, e diz o contento que lhe deu entender que é coisa
diferente o pensamento e o entendimento. É de grande proveito para quem se recreia muito
na oração. – Para começar a falar das quartas moradas,
bem necessário é o que fiz, que foi encomendar-me ao Espírito Santo e suplicar-Lhe que, daqui
em diante, fale por mim, para dizer alguma coisa das que ficam por dizer, de maneira
que o entendais; porque começam a ser coisas sobrenaturais, e é dificultosíssimo dá-las
a entender, se Sua Majestade não o faz, como fez,: há catorze anos, pouco mais ou menos,
quando escrevi em outra parte até onde eu havia entendido. Ainda que me parece que tenho agora um pouco
mais de luz destas mercês que o Senhor faz a algumas almas, é diferente o sabê-las
dizer. Faça-o Sua Majestade, se daí há-de seguir-se algum proveito; e se não, não. – Como estas moradas já estão mais perto
de onde está o Rei, é grande a sua formosura e há coisas tão delicadas para ver e entender,
que o entendimento não é capaz de poder achar maneira de dizer sequer alguma coisa
que venha tão ajustada, que não fique bem obscura para os que não tenham experiência;
pois, quem a tem, muito bem entenderá, em especial se já é muita. Parecerá que, para chegar a estas moradas,
se deverá ter vivido nas outras muito tempo; e embora o normal seja que se tenha estado
na que acabamos de dizer, não é regra certa, como tereis ouvido muitas vezes; porque o
dá o Senhor, quando quer e como quer e a quem quer, como bens Seus, e não faz agravo
a ninguém. – Nestas moradas, poucas vezes entram as coisas
peçonhentas e, se entram, não fazem dano, antes deixam lucro. E tenho por muito melhor
quando entram e dão guerra neste estado de oração; porque poderia o demónio enganar,
à volta dos gostos que Deus dá, se não houvesse tentações, e fazer muito mais dano
do que quando as há, e não ganhar tanto a alma, pelo menos apartando todas as coisas
que a hão-de fazer merecer, e deixando-a num embevecimento habitual. Porque, quando o embevecimento é habitual
em um ser, não o tenho por seguro nem me parece possível estar assim sempre num mesmo
ser o espírito do Senhor neste desterro. – Pois falando no que disse que diria aqui,
da diferença que há entre contentamentos na oração e gostos, contentamentos, me parece
a mim, se pode chamar aos que adquirimos com a nossa meditação e petições a Nosso Senhor,
que procedem do nosso natural, ainda que, enfim, ajuda para isso Deus, pois há-de-se
entenderem tudo quanto dissermos que nada podemos sem Ele; mas nascem da mesma obra
virtuosa que fazemos e parece que o ganhamos com nosso trabalho, e com razão nos dá contentamento
o termo-nos empregado em coisas semelhantes. Mas se o considerarmos bem, os mesmos contentos
teremos em muitas coisas que podem suceder na terra. Assim, numa grande fazenda que de
repente advém a alguém, o ver de súbito uma pessoa que muito amamos ter acertado num
negócio importante ou numa coisa grande, de que todos nos dizem bem; se a alguma pessoa
lhe disserem que morreu seu marido ou irmão ou filho e o vê chegar vivo. Eu vi derramar
lágrimas dum grande contentamento e até mesmo me tem acontecido algumas vezes. Parece-me a mim que, assim como estes contentamentos
são naturais, assim é nos que nos dão as coisas de Deus; embora de linhagem mais nobre,
ainda que aqueles também não eram de todo maus. Enfim começam no que é natural em
nós e acabam em Deus. Os gostos começam em Deus e sente-os a natureza,
e goza tanto deles como gozam os que disse e muito mais. ó Jesus!, e que desejo tenho
de saber declarar-me nisto! Porque entendo, a meu parecer, mui conhecida diferença e
não alcança o meu saber o dar-me a entender; faça-o o Senhor. – Agora me lembro dum versículo que dizemos
em Prima, ao fim do último salmo, que ao terminar o versículo diz: «Cum dilatasti
cor meum». A quem tiver muita experiência, isto lhe basta para ver a diferença que vai
de um ao outro; a quem não a tiver, é preciso mais. Os contentos que dissemos não dilatam o coração,
antes habitualmente parece que o apertam um pouco, embora com grande contentamento de
ver o que se faz por Deus; mas vêm umas lágrimas de aflição, que de alguma maneira parece
as move a paixão. Eu sei pouco destas paixões da alma – que talvez me desse a entender,
– mas, como sou muito rude, não sei o que procede da sensualidade e o que procede do
nosso natural. Saberia declará-lo se, assim como passei por isso, o entendesse. Grande
coisa é o saber e as letras para tudo. – O que tenho de experiência deste estado,
digo destes regalos e contentos na meditação, é que, se começava a chorar por causa da
Paixão, não podia acabar até que se me quebrava a cabeça; se o fazia por meus pecados,
era o mesmo. Grande mercê me fazia Nosso Senhor, e não quero agora examinar qual é
melhor, se um se outro. Apenas quereria saber dizer a diferença que
há entre um e outro. Para estas coisas vão algumas vezes estas
lágrimas e estes desejos ajudados do natural e conforme está a disposição; mas enfim,
como disse, vêm a parar em Deus, ainda que sejam naturais. E são para ter em muito,
se houver humildade, para entender que não se é melhor por isso; porque não se pode
entender se todos são efeitos do amor; e quando forem, são dados por Deus. Na maior parte têm estas devoções as almas
das moradas anteriores, porque andam quase de contínuo com trabalho do entendimento,
empregadas em discorrer com o entendimento e em meditação; e vão bem, porque não
lhes foi dado mais, ainda que acertariam em ocupar-se um pouco em fazer actos e em louvores
de Deus e em se alegrarem da Sua bondade e que seja Quem é, e em desejar Sua honra e
glória. Isto como puderem, porque desperta muito a vontade. E estejam de sobreaviso,
quando o Senhor lhes der isto; não o deixem para acabar a meditação como se tem por
costume. – Porque me alarguei muito em dizer isto em
outras partes, não o direi aqui. Só quero que estejais advertidas que, para aproveitar
muito neste caminho e subir às moradas que desejamos, não está a coisa em pensar muito,
senão em amar muito; e assim, o que mais vos despertar ao amor, isso deveis fazer. Talvez não saibamos o que é amar, e não
me espantarei muito; porque não está no maior gosto, mas sim na maior determinação
de desejar contentar a Deus em tudo e procurar, tanto quanto pudermos, não O ofender, e rogar-Lhe
que vá sempre por diante a honra e glória de Seu Filho e o aumento da Igreja Católica.
Estes são os sinais do amor, e não penseis que consiste em não pensar outra coisa, e
que, se vos distraís um pouco, vai tudo perdido. – Eu tenho andado nisto, nesta barafunda do
pensamento, bem apertada algumas vezes, e haverá pouco mais de quatro anos que vim
a entender, por experiência, que o pensamento (ou imaginação, para que melhor se entenda)
não é o entendimento. Perguntei-o a um letrado e disse-me que, efectivamente, era assim,
o que foi para mim grande contentamento. Por que, como o entendimento é uma das potências
da alma, tornava-se-me duro estar ele tão volúvel, às vezes, pois normalmente voa
o pensamento tão rápido, que só Deus o pode atar quando assim nos ata, de maneira
que parece estarmos de algum modo desatados deste corpo. Eu via, a meu parecer, as potências
da alma empregadas em Deus e estarem recolhidas com Ele e, por outra parte, o pensamento alvorotado:
trazia-me tonta. – Ó Senhor, tende em conta o muito que passamos
neste caminho por falta de saber! E o mal é que, como não pensamos ser preciso saber
mais do que pensarem Vós, nem sabemos perguntar aos que sabem, nem entendemos que haja que
perguntar, e passam-se terríveis trabalhos, porque não nos entendemos; e o que não é
mau, senão bom, pensamos que é grande culpa. Daqui procedem as aflições de muita gente
que trata de oração e o queixarem-se de trabalhos interiores, pelo menos grande parte
em gente que não tem letras, e vêm as melancolias e o perderem a saúde e até o deixarem-na
de todo, porque não consideram que há dentro um mundo interior; e assim, como não podemos
deter o movimento dos céus, que anda à pressa com toda a velocidade, tão-pouco podemos
deter o nosso pensamento, e logo metemos todas as potências da alma com ele e nos parece
que estamos perdidas e mal gasto o tempo em que estamos diante de Deus. E a alma está porventura toda unida a Ele
nas moradas muito próximas e o pensamento nos arredores do castelo, padecendo com mil
animais ferozes e peçonhentos e merecendo com este sofrimento; e assim, nem nos há-de
perturbar nem o havemos de deixar, que é o que pretende o demónio. E, na maior parte,
todas as inquietações e trabalhos vêm deste não nos entendermos. – Ao escrever isto, estou considerando o que
se passa na minha cabeça, o grande ruído que nela há, como disse ao princípio, pelo
que se me tornou quase impossível poder fazer o que me mandavam escrever. Não parece senão
que nela estão muitos rios caudalosos e, por outra parte, que estas águas se despenham;
muitos passarinhos e silvos, não nos ouvidos, mas na parte superior da cabeça, onde dizem
estar a parte superior da alma. E eu estive nisto muito tempo, por me parecer que o grande
movimento do espírito para cima subia com velocidade. Praza a Deus me lembre, nas moradas mais adiante,
de dizer a causa disto, pois aqui não fica bem, e não será muito que o Senhor haja
querido dar-me este mal de cabeça para melhor o entender, porque, com toda esta barafunda
que nela vai, não me estorvava a oração nem o que estou dizendo, mas antes a alma
está muito inteira em sua quietude e amor e desejos de claro conhecimento. – Pois, se na parte superior da cabeça está
a parte superior da alma, como não a perturba? Isso é o que não sei, mas sei que é verdade
o que digo. Dá pena quando não é oração com suspensão, pois então, até que passe,
não se sente nenhum mal; mas grande mal seria se, por este impedimento, eu deixasse tudo. E assim não é bem que nos perturbemos com
os pensamentos, nem deles nada se nos dê, porque, se vêm do demónio, cessará com
isto; e se é, como é, da miséria que nos ficou de pecado de Adão, com outras muitas,
tenhamos paciência e soframo-lo por amor de Deus, pois também estamos sujeitas a comer
e dormir, sem nos podermos escusar, o que é grande trabalho. – Reconheçamos a nossa miséria, e desejemos
ir aonde “ninguém nos menospreze”; pois algumas vezes me lembro de ter ouvido isto que dizia
a Esposa dos Cantares, e verdadeiramente não encontro em toda a vida coisa onde, com mais
razão, isto se possa dizer; porque todos os menosprezos e trabalhos que pode haver
na vida, não me parece que cheguem a estas batalhas interiores. Qualquer desassossego
e guerra se pode sofrer. achando paz onde vivemos, – como já disse;
– mas, que queiramos vir a descansar dos mil trabalhos que há no mundo, que queira o Senhor
preparar-nos o descanso e que em nós mesmas esteja o estorvo, não pode deixar de ser
muito penoso e quase insuportável. Por isso, levai-nos Senhor, aonde não nos menosprezem
estas misérias, que parecem algumas vezes estarem a fazer escárnio da alma! Ainda nesta
vida a liberta disto o Senhor, quando chegar à última morada, como diremos, se Deus for
servido. – Nem a todas darão tanta pena estas misérias,
nem as acometerão, como a mim me fizeram muitos anos por ser tão ruim, que parece
que eu mesma me queria vingar de mim. E, como coisa tão penosa para mim, penso que talvez
o seja assim para vós e não faço senão dizê-lo de um cabo ao outro, para ver se
alguma vez acerto dar-vos a entender como é coisa forçosa e não vos traga inquietas
e aflitas, mas deixemos andar esta taramela do moinho e moamos nossa farinha, não deixando
de trabalhar com a vontade e o entendimento. – Há mais e menos neste estorvo, conforme
a saúde e os tempos. Padeça a pobre alma, ainda que não tenha
culpa; pois outras teremos pelas quais é de razão que tenhamos paciência. E, porque
não basta o que lemos e nos aconselham, não façamos caso destes pensamentos; para nós,
que pouco sabemos, não me parece tempo perdido todo o que gasto em declarar mais e em consolar-vos
neste caso; mas, até que o Senhor nos queira dar luz, pouco aproveita. Mas é preciso e quer Sua Majestade que tomemos
conhecimento e entendamos do que faz a fraca imaginação, o natural, e o demónio, não
deitemos a culpa à alma. CAPÍTULO, 2º. Prossegue no mesmo e declara
por uma comparação o que são gostos e como se hão-de alcançar não os procurando. – Valha-me Deus! Onde me meti! Já tinha esquecido
o que tratava, porque os negócios e a saúde me fazem deixá-lo na melhor altura. E, como
tenho pouca memória, irá tudo desconcertado por não o poder tornar a ler. E mesmo talvez
seja tudo desconcerto quanto digo; ao menos é o que sinto. Parece-me que fica dito das consolações
espirituais, como algumas vezes vão envoltos com as nossas paixões, trazem consigo uns
alvorotos de soluços, e até ouvi a pessoas que se lhes aperta o peito e mesmo lhes vêm
movimentos exteriores, a que não podem ir à mão; e é tal a força, que lhes faz sair
sangue do nariz, e coisas assim penosas. Disto não sei dizer nada, porque não passei por
isso, mas deve ficar consolação; porque, como digo, tudo vai pararem desejar contentar
a Deus e gozar da Sua Majestade. – Os que eu chamo gostos de Deus – que em
outra parte chamei “oração de quietude” são mui de outra maneira, como entendereis
as que os tendes experimentado, pela misericórdia de Deus. Façamos de conta, para o entender melhor,
que vemos duas fontes com dois tanques que se enchem de água, que não acho coisa mais
a propósito para declarar algumas coisas de espírito que isto de água. Como sei pouco, e o engenho não ajuda e sou
tão amiga deste elemento, tenho olhado para ele com mais advertência, que para outras
coisas; pois em todas as que criou tão grande Deus, tão sábio, deve haver muitos segredos
de que nos podemos aproveitar, e assim fazem os que os entendem, embora eu creia que, em
cada coisinha que Deus criou, há mais do que se entende, ainda que seja uma formiguita. – Estas dois tanques enchem-se de água de
diferentes maneiras; para uma, vem de mais longe, por muitos aquedutos e artifícios;
a outra está feita na mesma nascente da água e vai-se enchendo sem nenhum ruído. E se
o manancial é caudaloso como este de que falamos, depois de cheio o tanque, segue um
grande arroio; não é preciso artifício; nem mesmo se acaba o edifício dos aquedutos,
que sempre está correndo dali água. A diferença está em que a água que vem
por aquedutos, a meu parecer, são os contentos que tenho dito que se tiram da meditação;
porque os trazemos com os pensamentos, ajudando-nos das criaturas na meditação e cansando o
entendimento; e como vem, afinal, com as nossas diligências, faz ruído quando houver alguma
enchente de proveitos que traz à alma, como fica dito. – A esta outra fonte, vem a água da sua mesma
nascente, que é Deus; e assim, como e quando Sua Majestade quer e é servido de fazer alguma
mercê sobrenatural, Ele produz esta água com grandíssima paz e quietação e suavidade
no mui interior de nós mesmos, eu não sei até onde, nem como, nem mesmo aquele contento
e deleite se sente como os de cá no coração – digo no seu princípio, que depois tudo
enche; – vai-se derramando esta água por todas as moradas e potências, até chegar
ao corpo; por isso disse e que começa em Deus e acaba em nós; e, é certo, como verá quem o tiver experimentado,
todo o homem interior goza deste gosto e suavidade. – Estava eu agora vendo – ao escrever isto,
– que no versículo que diz: «Dilatasti cor meum», disse que se dilatou o coração;
e – como digo – não me parece que seja coisa que nasce do coração, mas sim de outra parte
ainda mais interior, como uma coisa profunda. Penso que deve ser o centro da alma, como
depois entendi e direi no fim, que certo é, vejo segredos em nós mesmos que me trazem
espantada muitas vezes. E quantos mais deve haver! Ó Senhor meu e
Deus meu, que grandes são Vossas grandezas! E andamos por cá como uns pastorinhos tontos,
parecendo-nos que enxergamos alguma coisa de Vós e deve ser tanto como nada, pois em
nós mesmos há grandes segredos que não entendemos. Digo tanto como nada, para o muito,
muitíssimo que há em Vós; e não porque não sejam muito grandes as grandezas que
vemos, mesmo no que podemos alcançar das Vossas obras. – Voltando ao versículo, o que ele me pode
aqui aproveitar, a meu parecer, é aquela dilatação; pois parece que, assim que se
começa a produzir aquela água celestial deste manancial que digo, do profundo de nós
mesmos, parece que se vai dilatando e alargando todo o nosso interior e produzindo uns bens
que não se podem dizer, nem mesmo a alma sabe entender o que é aquilo que ali se lhe
dá. Sente uma fragrância interior – digamos agora
– como se naquela profundidade interior estivesse um braseiro onde se lançassem olorosos perfumes;
nem se vê o lume nem onde está; mas o calor e o fumo perfumado penetram toda a alma e
até bastantes vezes – como já disse, – participa o corpo. Olhai e entendei-me: nem se sente
calor nem se aspira perfume, pois isto é coisa mais delicada que estas coisas; é apenas
para vo-lo dar a entender. E entendam as pessoas que não passaram por
isto, que é verdade isto passar-se assim e que se entende, e que o entende a alma mais
claramente do que eu o digo agora. Não é isto coisa que se possa imaginar,
porque, por diligências que façamos, não o podemos adquirir e nisto mesmo se vê não
ser do nosso metal, senão daquele puríssimo oiro da sabedoria divina. Aqui não estão as potências unidas, a meu
parecer, mas embebidas e olhando como espantadas o que será aquilo. – Poderá ser que nestas coisas interiores
me contradiga um tanto do que tenho dito em outras partes, Não é maravilha, porque em
quase quinze anos desde que o escrevi, talvez me tenha dado o Senhor mais claridade nestas
coisas do que então entendia e, agora como então, posso errar em tudo mas não mentir,
que, por misericórdia de Deus, antes passaria mil mortes. Digo o que entendo. – A vontade bem me parece que deve estar unida,
de certa maneira, com a de Deus; mas, nos efeitos e obras que depois se seguem, é que
se conhecem estas verdades da oração, pois não há melhor crisol para as provar. É
bem grande mercê de Nosso Senhor, se a conhece quem a recebe, e muito grande se não volta
atrás. Logo querereis, minhas filhas, procurar ter esta oração, e tendes razão; pois – como
disse – a alma não acaba de entender as mercês que ali lhe faz o Senhor e o amor com que
a vai achegando mais a Si. De certo está, desejando saber como alcançaremos
esta mercê. Eu vos direi o que nisto tenho entendido. – Deixemos o Senhor fazê-la quando é servido,
por Sua Majestade o querer e não por mais nada. Ele sabe o porquê; não nos havemos
de meter nisso. Depois de fazermos o mesmo que fazem os das moradas anteriores, humildade,
humildade! Por ela se deixa render o Senhor a tudo quanto d’Ele queremos. E a primeira
coisa em que vereis se a tendes, é em não pensar que mereceis estas mercês e gostos
do Senhor, nem que os haveis de ter em vossa vida. Direis: desta maneira, como se hão-de alcançar
não os procurando? A isto respondo, não há outra melhor do que esta que vos, disse,
e não os procurar pelas razões seguintes: Primeiro, porque a primeira coisa, que para
isto é mister, é amar a Deus sem interesse. Segundo, porque não deixa de ser um pouco
de falta de humildade pensar que, por nossos serviços miseráveis, se há-de alcançar
coisa tão grande. Terceiro, porque a verdadeira preparação para isto é o desejo de padecer
e de imitar ao Senhor e não o ter gostos, nós que, enfim, O temos ofendido. Quarto, porque Sua Majestade não está obrigado
a dar-nos gostos, como o está a dar-nos a Glória se guardarmos os Seus mandamentos,
pois, sem isto, nos poderemos salvar, e Ele sabe melhor que nós o que nos convém e quem
O ama de verdade. Assim é coisa certa, eu sei-o, e conheço pessoas que vão, pelo caminho
do amor como se deve ir, só para servir a seu Cristo crucificado, que não só não
Lhe pedem gostos nem os desejam, mas Lhe suplicam que não lhos dê nesta vida. Isto é verdade. A quinta, porque trabalharemos debalde, pois,
como não se há-de trazer esta água por aquedutos como a precedente, se o manancial
não a quer produzir, pouco aproveita que nos cansemos. Quero dizer que, por mais meditação que
tenhamos e por mais que nos apoquentemos e tenhamos lágrimas, não é por aqui, que
esta água vem. Só se dá a quem Deus quer e, muitas vezes, quando mais descuidada está
a alma. – Suas somos, irmãs; faça de nós o que
quiser, leve-nos por onde for servido. Creio bem que, a quem de verdade se humilhar e desapegar,
(digo de verdade, porque não o há-de ser só em nosso pensamento, que muitas vezes
nos engana, senão que estejamos desapegadas de todo) não deixará o Senhor de nos fazer
esta mercê, e outras muitas que não saberemos desejar. Seja Ele para sempre bendito. Amen. CAPÍTULO, 3º. Trata do que é oração de
recolhimento. Na maior parte das vezes, a dá o Senhor antes da oração acima dita.
Diz seus efeitos e os que ficam da oração anterior em que tratou dos gostos que dá
o Senhor. – São muitos os efeitos desta oração; apenas
direi alguns. Mas direi primeiro outra maneira de oração que começa quase sempre antes
desta, e, por tê-la dito em outras partes, direi pouco. É um recolhimento que também me parece sobrenatural,
porque não é estar às escuras nem cerrar os olhos, nem consiste em coisa alguma exterior,
posto que, sem o querer, se faça isto de cerrar os olhos e desejar soledade; e sem
artifício, parece que se vai lavrando o edifício para a oração que fica dita; porque estes
sentidos e coisas exteriores parecem ir perdendo de seu direito, para que a alma vá cobrando
o seu que tinha perdido. – Dizem que a alma entra dentro de si e outras
vezes que “sobe sobre si”. Por esta linguagem não saberei eu esclarecer nada, que isto
tenho de mau: penso que por aquilo que eu sei dizer de uma coisa o haveis de entender
e talvez seja só claro para mim. Façamos de conta que estes sentidos e potências
são, como já disse, a gente deste castelo – a comparação que tomei para saber dizer
alguma coisa-, que saíram fora e andam com gente estranha, inimiga do bem deste castelo,
dias e anos; e que, vendo sua perdição, já se têm vindo acercando dele, embora não
cheguem a entrar – porque este costume é coisa dura, – mas não são já traidores
e andam ao redor. Vendo já o grande Rei que está na morada
deste castelo sua boa vontade, por Sua grande misericórdia quer trazê-los de novo a Si
e, como bom pastor, com um silvo tão suave que até quase eles mesmos o não ouvem, faz
com que conheçam Sua voz e não andem tão perdidos, mas voltem à sua morada. E tem
tanta força este silvo do pastor, que desamparam as coisas exteriores em que andavam alheados
e se metem no castelo. – Parece-me que nunca o dei a entender como
agora, porque, para buscar a Deus no interior da alma, (onde melhor O encontramos e com
mais proveito para nós que nas criaturas, como disse Santo Agostinho que aí O achou,
depois de O ter procurado em muitas partes) é grande a ajuda quando Deus faz essa mercê.
E não penseis que isto é adquirido pelo entendimento, procurando pensar que têm dentro
de si a Deus, nem pela imaginação, imaginando-O dentro de si. Bom é isto, e excelente maneira de meditação,
porque se funda sobre esta verdade: o estar Deus dentro de nós mesmos; mas não é isto,
pois cada um o pode fazer, (com o favor do Senhor, bem se entende.) Mas o que digo é
de maneira diferente, e algumas vezes, antes que se comece a pensarem Deus, já esta gente
está no castelo, que não sei por onde nem como ouviu o silvo do pastor. E não foi pelos ouvidos, que não se ouve
nada, mas sente-se notavelmente um recolhimento suave para o interior, como verá quem passa
por isto, que eu não o sei aclarar melhor. Parece-me ter lido que é como um ouriço
ou tartaruga, quando se escondem em si mesmos; e devia entendê-lo bem quem o escreveu. Mas
estes entram em si quando querem; aqui isto não está no nosso querer, senão quando
Deus nos quer fazer esta mercê. Tenho para mim que, quando Sua Majestade a faz, é a
pessoas que já vão dando de mão às coisas do mundo. Não digo que seja pondo-o por obra aqueles
que têm estado, que não podem, mas sim pelo desejo, pois chama-os particularmente para
que estejam atentos às coisas interiores; e assim creio que, se queremos dar lugar a
Sua Majestade, Ele não dará só isto a quem já começou a chamar para mais. – Louve-O muito quem reconhecer isto em si,
porque é muitíssimo justo que se entenda a mercê, e a acção de graças que se dá
por ela fará com que a alma se disponha para outras maiores. E é também disposição
para poder escutar a Deus, como se aconselha em alguns livros, procurar não discorrer,
mas estar-se atentos a ver o que o Senhor opera na alma; e, se Sua Majestade não começou
a embeber-nos, não posso acabar de entender como se possa deter o pensamento de maneira
que não faça mais dano que proveito, ainda que isto tenha sido contenda bem pleiteada
entre algumas pessoas espirituais. Eu por mim confesso a minha pouca humildade:
nunca me deram razões para que eu me renda ao que dizem. Um me alegou certo livro do
santo Frei Pedro de Alcântara – que eu creio que o é, – a quem eu me renderia, porque
sei que o sabia; e lemo-lo e diz o mesmo que eu, ainda que por outras palavras; g mas entende-se
no que disse que há-de estar já desperto o amor. Bem pode ser que eu me engane, mas vou por
estas razões: – A primeira, é que nesta obra de espírito,
quem menos pensa e quer fazer, é que faz mais. O que devemos fazer é pedir como pobres
necessitados diante dum rico imperador e logo baixar os olhos e esperar com humildade. Quando
por seus secretos caminhos parece que entendemos que nos ouve, então é bom calar, pois nos
deixou estar junto d’Ele e não será mau procurar não trabalhar com o entendimento
– se podemos, digo. – Mas, se ainda não entendemos que este Rei
nos ouviu e nos vê, não havemos de ficar pasmados, e não pouco o fica a alma quando
isto procurou; quando se escondem em si mesmos; e devia entendê-lo bem quem o escreveu. Mas
estes entram em si quando querem; aqui isto não está no nosso querer, senão quando
Deus nos quer fazer esta mercê. Tenho para mim que, quando Sua Majestade a faz, é a
pessoas que já vão dando de mão às coisas do mundo. Não digo que seja pondo-o por obra aqueles
que têm estado, que não podem, mas sim pelo desejo, pois chama-os particularmente para
que estejam atentos às coisas interiores; e assim creio que, se queremos dar lugar a
Sua Majestade, Ele não dará só isto a quem já começou a chamar para mais. – Louve-O muito quem reconhecer isto em si,
porque é muitíssimo justo que se entenda a mercê, e a acção de graças que se dá
por ela fará com que a alma se disponha para outras maiores. E é também disposição
para poder escutar a Deus, como se aconselha em alguns livros, procurar não discorrer,
mas estar-se atentos a ver o que o Senhor opera na alma; e, se Sua Majestade não começou
a embeber-nos, não posso acabar de entender como se possa deter o pensamento de maneira
que não faça mais dano que proveito, ainda que isto tenha sido contenda bem pleiteada
entre algumas pessoas espirituais. Eu por mim confesso a minha pouca humildade:
nunca me deram razões para que eu me renda ao que dizem. Um me alegou certo livro do
santo Frei Pedro de Alcântara – que eu creio que o é, – a quem eu me renderia, porque
sei que o sabia; e lemo-lo e diz o mesmo que eu, ainda que por outras palavras; g mas entende-se
no que disse que há-de estar já desperto o amor. Bem pode ser que eu me engane, mas vou por
estas razões: – A primeira, é que nesta obra de espírito,
quem menos pensa e quer fazer, é que faz mais. O que devemos fazer é pedir como pobres
necessitados diante dum rico imperador e logo baixar os olhos e esperar com humildade. Quando
por seus secretos caminhos parece que entendemos que nos ouve, então é bom calar, pois nos
deixou estar junto d’Ele e não será mau procurar não trabalhar com o entendimento
– se podemos, digo. – Mas, se ainda não entendemos que este Rei
nos ouviu e nos vê, não havemos de ficar pasmados, e não pouco o fica a alma quando
isto procurou; e fica muito mais seca e porventura mais inquieta a imaginação com a força
que se fez para não pensar nada. Mas quer o Senhor que Lhe peçamos e consideremos
estar em Sua presença, que Ele sabe o que nos convém Eu não posso persuadir-me a recorrer
a destrezas humanas em coisas a que Sua Majestade parece ter posto o limite e quis guardar para
Si, o que não fez a outras muitas, que podemos fazer com Sua ajuda, tanto de penitências,
como de obras, e de oração, até onde pode nossa miséria. – A segunda razão é que estas obras interiores
são todas suaves e pacíficas, e fazer coisa penosa mais prejudica que aproveita. Chamo
coisa penosa a qualquer esforço que se quisesse fazer, como seria o de conter o fôlego; e
não é isso o que convém, mas sim abandonar-se a alma nas mãos de Deus; faça dela o que
Ele quiser, com o maior desprendimento que puder de seu proveito e maior resignação
à vontade de Deus. A terceira é que o mesmo cuidado que se põe
em não pensar nada talvez despertará o pensamento para pensar muito. A quarta é, que o mais substancial e agradável
a Deus é que nos lembremos de Sua honra e glória e nos esqueçamos de nós mesmos e
do nosso proveito, regalo e gosto. Pois, como estará esquecido de si aquele que está com
tanto cuidado, que nem ousa bulir nem sequer deixa que seu entendimento e desejos se movam
a desejar a maior glória de Deus nem se alegrem por aquela que Deus tem? Quando Sua Majestade quer que o entendimento
cesse, ocupa-o de outra maneira e dá ao conhecimento uma luz tão acima da que podemos alcançar,
que o faz ficar absorto; e então, sem saber como, fica muito melhor ensinado do que com
todas as nossas diligências que mais o deitariam a perder. Pois, se Deus nos deu as potências
para que com elas trabalhássemos e tudo tem o seu valor, não há para que tê-las encantadas,
mas deixá-las fazer seu ofício, até que Deus as ponha noutro maior. – O que entendo que mais convém à alma a
quem o Senhor quis meter nesta morada é fazer o que fica dito, e que, sem nenhum esforço
nem ruído, procure atalhar o discorrer do entendimento, mas não suspendê-lo, nem ao
pensamento; mas sim é bom que se lembre que está diante de Deus e Quem é este Deus.
Se aquilo mesmo que sente em si o embeber, tanto melhor; mas não procure entender o
que é, porque é dom feito à vontade. Deixe-a gozar sem nenhuma indústria, além
de algumas palavras amorosas porque, embora não procuremos estar aqui sem pensar em nada,
está-se assim muitas vezes, ainda que por muito breve tempo. – Mas, – como disse noutra parte, – a causa
por que nesta maneira de oração, (falo naquela pela qual comecei esta morada, pois meti com
esta oração a de recolhimento de que devia ter falado primeiro, porque é muito menos
que a dos gostos de Deus de que falei mas que é princípio para chegar a ela; que na
de recolhimento não se há-de deixar a meditação, nem o trabalho do entendimento.) nesta fonte manancial, que não vem por alcatruzes,
o entendimento se contém ou o faz conter, ao ver que não entende o que quer, e assim
anda de um lado para outro como tonto que em nada toma assento. Quanto à vontade, ela está tão assente
em seu Deus, que lhe dá grande pesar o bulício do entendimento; e assim, não há que fazer
caso dele, pois a fará perder muito do que goza, mas deixá-lo e deixar-se a si nos braços
do amor que Sua Majestade lhe ensinará o que há-de fazer naquele ponto, que quase
tudo é achar-se indigna de tanto bem e empregar-se em acção de graças. – Por tratar da oração de recolhimento,
deixei os efeitos ou sinais que têm as almas a quem Deus Nosso Senhor dá esta oração. Assim, entende-se claramente urna dilatação
ou alargamento na alma, tal como se a água, que mana duma fonte, não tivesse para onde
correr, mas a mesma fonte fosse duma coisa que, quanto mais água manasse, maior ela
se fizesse: assim parece acontecer nesta oração, e outras muitas maravilhas que Deus faz na
alma, que a habilita e vai dispondo para que tudo caiba nela. Assim, esta suavidade e dilatação
interior se vê na liberdade que lhe fica para não estar tão atada como antes nas
coisas do serviço de Deus, mas sim com muito mais largueza de espírito. Assim, em não se tolher com temor do inferno,
porque embora lhe fique maior de ofender a Deus, o temor servil perde-se aqui, fica com
grande confiança que O há-de gozar. Já não tem o temor que costumava ter de fazer
penitência e de perder a saúde; já lhe parece que tudo poderá em Deus, tem mais
desejos de a fazer que até ali. O temor que costumava ter aos trabalhos já
vai mais moderado, porque está mais viva a fé e entende que, se os passar por Deus,
Sua Majestade lhe dará graça para os sofrer com paciência; e até mesmo algumas vezes
os deseja, porque fica também uma grande vontade de fazer alguma coisa por Deus. Como
vai conhecendo melhor Suas grandezas, tem-se já por mais miserável; como já provou dos
gostos de Deus, vê que os do mundo são lixo, vai-se apartando deles, pouco a pouco, e é
mais senhora de si para o fazer. Enfim, em todas as virtudes fica melhorada
e não deixará de ir crescendo, se não volta atrás a ofender a Deus, porque então tudo
se perde, por mais que uma alma tenha subido ao cume. Tão-pouco se deve entender que,
por uma vez ou duas que Deus faça esta mercê a uma alma, fiquem feitas todas estas que
dissemos, se ela não vai perseverando em as receber, pois nesta perseverança está
todo o nosso bem. – De uma coisa aviso muito a quem se vir neste
estado: que se guarde muito e muito de se pôr em ocasião de ofender a Deus; porque
aqui não está ainda a alma criada, senão como menino que começa a mamar; se se aparta
do peito de sua mãe, que se pode esperar dele senão a morte? Eu temo muito que, a
quem Deus tiver feito esta mercê e se aparta da oração, acontecerá assim; não sendo
por gravíssimo motivo, ou se não voltar logo a ela, porque irá de mal a pior. Eu sei que há muito que temer neste caso,
e conheço algumas pessoas que me trazem muito pesarosa e tenho visto o que digo, por se
terem apartado de Quem, com tanto amor, se lhes queria dar por Amigo, e o mostrar por
obras. E assim aviso tanto que se não metam em ocasiões, porque muito mais faz o demónio
por uma alma destas do que por muitas e muitas a quem o Senhor não fizer estas mercês;
pois lhe podem fazer grande dano com o levar outras consigo e fazer porventura grande proveito
na Igreja de Deus. E ainda que não haja outra coisa senão ver
que Sua Majestade lhes mostra amor particular, isto basta para que o demónio se desfaça
para que se percam; e assim são muito combatidas e ficam muito mais perdidas do que outras,
se se perdem. Vós, irmãs, estais livres destes perigos,
tanto quanto podemos entender. Deus vos livre da soberba e vanglória; e de que o demónio
queira contrafazer estas mercês, conhecer-se-á porque não fará estes efeitos, mas sim tudo
ao revés. – De um perigo vos quero avisar (ainda que
vo-lo disse já noutra parte) em que vi cair pessoas de oração, em especial mulheres,
porque, como somos mais fracas, há mais lugar para o que vou dizer. É que algumas, de muita
penitência, oração e vigílias e ainda sem isto, são fracas de compleição; em
tendo algum consolo, sujeita-as o natural; e, como sentem algum contento interior e quebrantamento
exterior e uma fraqueza, quando há um sono a que chamam espiritual, que é um pouco mais
do que fica dito,”parece-lhes que é igual ao outro e deixam-se embevecer. E, quanto mais a isso se entregam, mais se
embevecem, porque se enfraquece mais a natureza e, a seu juízo, lhes parece arroubamento;
e chamo-lhe eu pasmaceira, pois não é outra coisa senão estar ali perdendo tempo e gastando
a saúde. – A uma lhe acontecia estar assim oito horas,
que nem estão sem sentido nem sentem coisa alguma de Deus. Com dormir e comer e não
fazer tanta penitência, tirou-se-lhe isto a esta pessoa, porque houve quem a entendesse;
que a seu confessor trazia enganado e a outras pessoas e a si mesma, ainda que ela não queria
enganar. Creio bem que o demónio fazia alguma diligência
para tirar algum lucro e não começava a tirar pouco. – Há-de-se entender que, quando é coisa
verdadeiramente de Deus, embora haja decaimento interior e exterior, não o há na alma; antes
tem grandes sentimentos ao ver-se tão junto de Deus, e também não dura tanto, mas sim
muito pouco tempo, bem que se torne a embevecer; mas nesta oração, se não é fraqueza – como
disse, – não chega a tanto que derrube o corpo nem faça nele algum sinal exterior. Por isso, estejam de sobreaviso para que,
quando isto sentirem em si, o digam à prelada e distraiam-se quanto puderem, e ela faça
com que não tenham tantas horas de oração, senão muito pouco tempo, e procure que durmam
bem e comam até que lhes torne a vir a força natural, se se perdeu por isto. Se é de tão
fraco natural que não baste isto, creiam-me que não a quer Deus senão para a vida activa,
pois de tudo tem de haver nos mosteiros; ocupem-na em ofícios e sempre se tenha conta em que
não tenha muita soledade, porque virá a perder de todo a saúde. Grande mortificação será para ela; o Senhor
quer aqui provar o amor que ela Lhe tem, no modo como sofre esta ausência e será servido
de lhe tornar a dar as forças depois de algum tempo e, se não, com oração vocal e com
obedecer, ganhará e merecerá o que deveria merecer por aqui, ou porventura mais. – Também poderia haver algumas tão fracas
de cabeça e de imaginação, – como eu conheci, – que lhes parece ver tudo quanto pensam;
é muito perigoso. Como talvez se venha a tratar disto mais adiante, não direi aqui
mais nada, pois alonguei-me muito nesta morada, porque é nela que creio entram mais almas.
E, como também entra o natural juntamente com os sobrenatural, o demónio pode fazer
mais dano; pois, nas moradas que estão por dizer, não lhe dá o Senhor tanto lugar.
Seja Ele para sempre louvado, amen. QUINTAS MORADAS CAPÍTULO, 1º. Começa a tratar como na oração
se une a alma com Deus. Diz em que se conhecerá não ser engano. – Ó irmãs! como vos poderei eu dizer a riqueza
e tesouros e deleites que há nas quintas moradas? Creio será melhor não dizer nada
das que faltam, pois não se há-de saber dizer, nem o entendimento o sabe entender,
nem as comparações podem servir para o declarar; porque são muito baixas as coisas da terra
para este fim. Enviai do Céu, Senhor meu, a luz para que
eu possa dar alguma a estas Vossas servas, pois sois servido que gozem algumas delas
tão habitualmente destes gozos, para que não sejam enganadas, transfigurando-se o
demónio em anjo de luz, pois elas empregam todos os seus desejos em desejar contentar-Vos. – E ainda que disse “algumas”, bem poucas
há que não entrem nesta morada que agora direi. Há mais e menos, e por isso digo que
são mais as que entram nelas. Em algumas coisas das que direi que há neste aposento,
creio bem que são poucas as que entram; mas, embora não seja senão chegar à porta, é
grande a misericórdia que Deus lhes faz; porque, ainda que são muitos os chamados,
são poucos os escolhidos. Assim digo agora que, embora todas as que
trazemos este hábito sagrado do Carmo somos chamadas à oração e contemplação, (porque
este foi nosso princípio, desta casta vimos, daqueles nossos santos Padres do Monte Carmelo,
que em tão grande solidão e com tanto desprezo do mundo buscavam este tesouro, esta preciosa
margarita de que falamos) poucas nos dispomos para que o Senhor no-la faça encontrar. Porque
quanto ao exterior, vamos bem para chegar ao que é preciso nas virtudes; mas para chegar
aqui, temos muita necessidade, e não nos descuidar nem pouco nem muito. Por isso, minhas irmãs, agora é pedir ao
Senhor, já que de alguma maneira podemos gozar do Céu na terra, que nos dê Seu favor
para que não falhe por nossa culpa e nos mostre o caminho e dê forças na alma para
cavar até achar este tesouro escondido, pois é verdade que está em nós mesmas, e isto
queria eu dar a entender, se o Senhor for servido que o saiba fazer. – Disse «forças na alma», para que entendais
que não fazem falta as do corpo a quem Deus Nosso Senhor não as dá; não impossibilita
ninguém de adquirir Suas riquezas; contanto que cada um dê o que tiver, já se contenta.
Bendito seja tão grande Deus. Mas olhai, filhas, que, para isto de que tratamos, não
quer que vos fiqueis com nada: pouco ou muito, tudo o quer para Si, e conforme ao que entenderdes
que tendes dado, ser-vos-ão feitas maiores ou menores mercês. Não há maior prova para
entender se a nossa oração chega ou não à união. Não penseis que é coisa sonhada, como a
oração passada. Digo sonhada, porque assim parece que está
a alma como que adormecida, que nem parece que está bem a dormir nem se sente desperta.
Aqui, estão todas adormecidas e bem adormecidas às coisas do mundo e a nós mesmas, (porque,
na verdade, fica-se como sem sentidos durante o pouco tempo que dura, nem se pode pensar,
ainda que se queira) aqui não é preciso artifício para suspender o pensamento; – até
o amar – se o faz, – não entende como, nem o que é que ama, nem o que queria; enfim;
como quem de todo está morto ao mundo para viver mais em Deus. E assim é uma morte saborosa, um arrancar
de alma de todas as operações que pode ter, estando no corpo; deleitosa porque, ainda que de verdade pareça
que a alma se aparta dele, é para melhor estar em Deus, e de tal maneira que até não
sei se lhe fica vida para respirar, (agora o estava pensando e parece-me que não, ao
menos se o faz não se entende que o faz) todo o seu entendimento se quereria empregar
em entender algo do que sente e, como não chegam suas forças, fica-se espantado de
maneira que, se não se perde de todo, não meneia pé nem mão, como se costuma dizer
duma pessoa que está tão desmaiada, que nos parece morta. Oh! segredos de Deus! Não me cansaria de
procurar como vo-lo dar a entender, se pensasse acertar em alguma coisa, e assim direi mil
desatinos, para se alguma vez atinar, louvemos muito ao Senhor. – Disse que não era coisa sonhada, porque
na morada que fica dita, até que a experiência seja muita, fica a alma duvidosa do que foi
aquilo: se foi ilusão, se estaria sonhando, se foi dado por Deus, ou se o demónio se
transfigurou em anjo de luz. Fica com mil suspeitas e é bem que as tenha;
porque – como disse, – até a própria natureza nos pode enganar ali alguma vez; pois, embora
não haja tanto lugar para entrarem as coisas peçonhentas, umas lagartixas sim, porque
são delgadas e por onde quer que seja se metem; e conquanto não façam dano, em especial
se não fazem caso delas – como disse, – porque são pensamentos que procedem da imaginação
e do que fica dito, importunam muitas vezes. Aqui, por delgadas que sejam as lagartixas
não podem entrar nesta morada; porque nem há imaginação, nem memória nem entendimento
que possa impedir este bem. E ousarei afirmar que, se é verdadeiramente
união de Deus, não pode entrar o demónio nem fazer nenhum dano; porque está Sua Majestade
tão junto e unido com a essência da alma, que ele não ousará aproximar-se, nem mesmo
deve entender este segredo. E é claro; pois, se dizem que não entende o nosso pensamento,
menos entenderia coisa tão secreta, que Deus nem a fia do nosso pensamento. Oh! grande bem, situação onde este maldito
não nos faz mal! Assim fica a alma com tão grandes lucros, por Deus trabalhar nela sem
que ninguém O estorve, nem nós mesmos! Que vos não dará Quem é tão amigo de dar e
pode dar tudo o que quer? – Parece que vos deixo confusas dizendo se
é união de Deus e que há outras uniões. E’ – se as há! Ainda que sejam em coisas
vãs, quando cá se amam muito, também os transportará o demónio; mas não da maneira
que Deus o faz nem com o deleite e satisfação e paz e gozo da alma. É sobre todos os gozos
da terra, sobre todos os deleites e sobre todos os contentos, e mais ainda; pois, considerando
onde se engendram, nada têm que ver estes contentos com os da terra, que é muito diferente
seu sentir, como o tereis experimentado. Disse eu uma vez que é como se fosse nesta
grosseria do corpo ou na medula e atinei bem, pois não sei como dizê-lo melhor. –
Parece-me que ainda não vos vejo satisfeitas porque vos parecerá que vos podeis enganar,
que este interior é coisa difícil de examinar; e, ainda que, para quem tenha passado por
isto, basta o que fica dito, porque é grande a diferença, quero dar-vos um sinal claro,
pelo qual não vos podeis enganar nem duvidar se foi de Deus, que Sua Majestade mo trouxe
hoje à memória, e, a meu parecer, é o sinal certo. Sempre em coisas dificultosas, ainda que me
pareça que entendo e digo a verdade, uso esta linguagem de que «me parece»; porque,
se me enganar, estou bem preparada a acreditar no que disseram os que têm muitas letras.
Porque, ainda que não tenham passado por estas coisas, têm um não sei quê, os grandes
letrados, que, como Deus os tem para luz da Sua Igreja, quando é uma verdade, dá-lhes
luz para que as admitam; e se não são dissipados, mas servos de Deus, nunca se espantam de Suas
grandezas, pois bem têm entendido que Ele pode muito e muito mais. E, enfim, embora algumas coisas não sejam
tão declaradas, outras devem achar escritas, por onde vêem que estas também podem suceder. – Disto tenho grandíssima experiência, e
também a tenho de uns meios letrados espantadiços, que me custaram muito caro. Pelo menos, creio
que, quem não crer que Deus pode muito mais e que teve e tem por bem de o comunicar algumas
vezes às Suas criaturas, tem bem cerrada a porta para receber tais mercês. Por isso,
irmãs, nunca isto vos aconteça, mas crede de Deus muito mais e mais e não ponhais os
olhos em se são ruins ou bons aqueles a quem Deus as faz, pois Sua Majestade o sabe, como
vos disse. Não temos de nos meter nisso, senão com
simplicidade de coração e humildade servir a Sua Majestade e louvá-lO por suas obras
e maravilhas. – Pois, voltando ao sinal que digo ser o verdadeiro,
já vedes esta alma a quem Deus fez tonta de todo para melhor imprimir nela a verdadeira
sabedoria, que nem vê, nem ouve, nem entende o tempo em que está assim, que sempre é
breve, e até muito mais breve lhe parece a ela do que deve ser. Fixa-Se Deus a Si mesmo
no interior daquela alma de modo que, quando volta a si, de nenhuma maneira pode duvidar
que esteve em Deus e Deus nela. Com tanta firmeza lhe fica esta verdade, que,
ainda que passem anos sem Deus voltar e fazer-lhe aquela mercê, nem lhe esquece nem pode duvidar
que esteve assim. Isto, sem falar dos efeitos com que fica, dos quais falarei depois; isto
é o que faz muito ao caso. – Pois dir-me-eis: como viu e como entendeu
isto, se não se vê nem se entende? Não digo que o viu então, senão que o vê depois
claramente; e não porque seja visão, mas sim uma certeza que fica na alma, que só
Deus a pode dar. Eu sei duma pessoa que não tinha chegado
ao conhecimento que Deus estava em todas as coisas por presença e potência e essência
e, por uma mercê que Deus lhe fez desta sorte, o veio a crer de tal maneira, que embora um
meio letrado dos que tenho dito, a quem perguntou o modo como estava Deus em nós, (ele sabia
tão pouco como ela antes de Deus lho dar a entender) lhe disse que estava somente pela
graça, ela tinha já tão fixa a verdade, que não acreditou e perguntou a outros que
lhe disseram a verdade, com o que se consolou muito. – Não vos haveis de enganar parecendo-vos
que esta certeza fica em forma corporal, como o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo está
no Santíssimo Sacramento, ainda que não O vejamos; porque aqui não fica assim, mas
só a Divindade. Pois, se o que não vimos, como nos fica com essa certeza? Isso não
o sei eu, são obras Suas; mas sei que digo a verdade, e quem não ficar com esta certeza,
não diria eu que é união de toda a alma com Deus, senão de alguma potência, ou outras
muitas maneiras de mercês que Deus faz à alma. Em todas estas coisas não havemos de buscar
razões para ver como foi; pois, se não chega o nosso entendimento a entendê-lo, para que
nos queremos desvanecer? Basta ver que é todo poderoso Quem o faz, pois nada podemos,
por mais diligências que façamos para o alcançar, senão que é Deus que o faz, não
o queiramos entender. –
Agora me lembro, acerca disto que digo, de nada contribuirmos da nossa parte, do que
tendes ouvido que diz a Esposa nos Cantares: «Levou-me o Rei à adega do vinho» ou «meteu-me»,
creio que diz. E não diz que foi ela. E diz também que “andava buscando a seu Amado,
por uma e outra parte”. Esta, entendo eu é a adega onde nos quer meter o Senhor, quando
quer e como quer; mas, por mais diligências que façamos, não podemos entrar. Sua Majestade é Quem nos há-de meter e entrar
Ele no centro da nossa alma; e, para melhor mostrar Suas maravilhas, não quer; que nisto
tenhamos mais parte do que a da vontade que de todo se Lhe rendeu, nem que se Lhe abra
a porta das potências e dos sentidos, pois todos estão adormecidos; mas entrar no centro
da alma sem porta alguma, como entrou onde estavam Seus discípulos quando disse: « Pax
vobis», e saiu do sepulcro sem levantar a pedra. Adiante vereis como Sua Majestade quer
que O goze a alma em seu mesmo centro, e ainda muito mais do que aqui, na última morada. – Ó filhas! muito veremos se não quisermos
ver mais que a nossa baixeza e miséria, e entender que não somos dignas de ser servas
de um Senhor tão grande, que nem podemos alcançar Suas maravilhas! Seja Ele para sempre
louvado, amen. CAPÍTULO, 2º. Prossegue no mesmo. Declara
a oração de união por uma comparação delicada. Diz os efeitos com que fica a alma.
É muito para ter em conta. – Parecer-vos-á que já está dito tudo o
que há a ver nesta morada, mas falta muito, porque – como disse – há mais e menos. Quanto
ao que é união, não creio que saberei dizer mais; mas quando a alma a quem Deus faz estas
mercês se dispõe, há muitas coisas a dizer do que o Senhor opera nelas. Algumas direi
e do modo como ela fica. Para melhor o dar a entender, quero aproveitar-me
duma comparação que é boa para este fim; e também para vermos como, embora nesta obra
que faz o Senhor não possamos fazer nada, podemos fazer muito, dispondo-nos z para que
Sua Majestade nos faça esta mercê. – Já tereis ouvido as maravilhas de Deus
no modo corno se cria a seda, que só Ele pode fazer semelhante invenção, e como,
de uma semente, que é à maneira de pequenos grãos de pimenta, (que eu nunca vi, mas ouvi-o
dizer, e assim, se algo for torcido, não é minha a culpa) com o calor, em começando
a haver folhas nas amoreiras, começa esta semente a viver; até que haja este mantimento
de que se sustenta, está como morta. E com folhas de amoreira se criam, até que,
depois de grandes, lhes põem uns ramitos e aí, com as boquitas, vão por si mesmas
fiando a seda, e fazem uns casulos muito apertados onde se encerram e acabam esta larva, que
é grande e feia, e sai do mesmo casulo uma borboletazinha branca, muito graciosa. Mas, se isto não se visse e no-lo contassem
de outros tempos, quem o poderia crer? E com que razões poderíamos concluir que uma coisa
tão sem razão como é uma lagarta ou uma abelha, seja tão diligente em trabalhar para
nosso proveito e com tanta indústria, e a pobre lagartixa perca a vida na demanda? Para
um pouco de meditação basta isto, irmãs, ainda que não vos diga mais, pois nisto podeis
considerar as maravilhas e sabedoria do nosso Deus. Pois, que seria se conhecêssemos a propriedade
de todas as coisas? De grande proveito é ocuparmo-nos em pensar estas grandezas alegrarmo-nos
em ser esposas de Rei tão sábio e poderoso. – Tornemos ao que dizia. Então começa a
ter vida esta lagarta quando, com o calor do Espírito Santo, se começa a aproveitar
do auxilio geral que Deus nos dá a todas, e quando começa a aproveitar-se dos remédios
que deixou na Sua Igreja, assim de como continuar com as confissões, como também com boas
leituras e sermões, que são o remédio que pode ter uma alma que está morta em seu descuido
e pecados e metida em ocasiões. Então começa a viver e vai-se sustentando
nisto e em boas meditações, até estar crescida, que é o que a mim me faz ao caso, pois o
resto pouco importa. – Crescida, pois, esta lagarta – que é o
que fica dito no principio disto que escrevi, – começa a fabricar a seda e a edificar a
casa onde há-de morrer. Esta casa quereria eu dar a entender aqui, que é Cristo. Em
qualquer parte me parece ter lido ou ouvido que nossa vida está escondida em Cristo ou
em Deus, o que é tudo um, ou que nossa vida é Cristo. Que isto seja ou não, pouco faz
ao meu propósito. – Pois vedes aqui, filhas, o que podemos fazer
com o favor de Deus: que Sua Majestade mesmo seja nossa morada, como o é na oração de
união, edificando-a nós mesmas! Parece que quero dizer que podemos tirar e pôr alguma
coisa em Deus, pois digo que Ele é a morada, e que a podemos fabricar para nos metermos
nela. Oh! se o podemos! Não tirar ou acrescentar
em Deus, mas sim tirar e acrescentar em nós, como fazem estas lagartixas; que não teremos
ainda acabado de fazer nisto tudo quanto podemos, quando este trabalhito que não é nada, junte
Deus com Sua grandeza, e lhe dê tão grande valor, que o mesmo Senhor seja o prémio desta
obra. E assim como foi Ele quem fez quase tudo à Sua custa, assim também quer juntar
nossos trabalhinhos com os grandes trabalhos que padeceu Sua Majestade; e que tudo seja
uma só coisa. – Eia, pois, minhas filhas! demo-nos pressa
em fazer este trabalho e a tecer este casulo, despojando-nos do nosso amor próprio e da
nossa vontade, deixando de estar presas a qualquer coisa da terra, fazendo obras de
penitência, oração, mortificação, obediência e tudo o mais que sabeis; assim fizéssemos
como sabemos e somos ensinadas naquilo que havemos de fazer! Morra, morra este verme
tal como o da seda em acabando de fazer aquilo para que foi criado, e vereis como vemos a
Deus, e nos vemos tão metidas em Sua grandeza como está esta lagartita em seu casulo. Olhai que digo ver a Deus, assim como deixo
dito que Ele se dá a sentir nesta maneira de união. – Vejamos, pois, o que sucede a esta lagarta,
pois para isto é que tenho dito tudo o mais quando está nesta oração, bem morta está
ao mundo, sai uma borboleta branca. Oh! grandeza de Deus! E como sai daqui uma alma por haver
estado um pouquinho metida na grandeza de Deus e tão junta com Ele, que, a meu parecer,
nunca chega a meia hora! Eu vos digo de verdade, que a mesma alma não se conhece a si mesma,
porque a diferença que há de uma lagarta feia para uma borboletazinha branca, a mesma
diferença há aqui. Não sabe como pode merecer tanto bem – de
onde lhe pôde vir, quero dizer, que bem sabe que o não merece; – vê-se com um desejo
de louvar ao Senhor que queria desfazer-se e morrer por Ele mil mortes. Logo começa
a ter o de padecer grandes trabalhos, sem poder fazer outra coisa. Os desejos de penitência
grandíssimos, o de solidão, o de que todos conheçam a Deus; e daqui lhe vem uma grande
pena de ver que é ofendido. E, ainda que na morada que segue se tratará
mais destas coisas em particular, embora o que há nesta morada e na que segue depois
seja quase tudo um, é mui diferente a força dos efeitos; porque – como disse, – se depois
que Deus faz chegar uma alma até aqui, ela se esforça a ir por diante, verá grandes
coisas. – Oh! Ver o desassossego desta borboletazinha,
apesar de nunca ter estado mais quieta e sossegada em sua vida, é coisa para louvar a Deus!
Não sabe onde poisar e tomar assento. Depois de o ter tido tal, tudo, da terra a descontenta,
em especial quando são muitas as vezes que Deus lhe dá deste vinho; quase de cada vez
fica com novos. lucros. Já não tem em nada as obras que fazia sendo lagarta, que era
tecer a pouco e pouco o casulo; nasceram-lhe asas. Como se há-de contentar, podendo voar, andando
passo a passo? Tudo lhe parece pouco de quanto pode fazer por Deus, segundo os seus desejos.
Não tem por muito o que passaram os santos, entendendo já por experiência como ajuda
o Senhor e transforma uma alma que já não parece ela, nem ainda sua figura. Pois a fraqueza que antes parecia ter para
fazer penitência, já a encontra forte; o apego que tinha aos parentes, amigos ou fazenda,
(que nem lhe bastavam actos, nem determinações, nem o querer apartar-se, pois antes lhe parecia
então que se achava mais presa) já é de maneira que lhe pesa ver-se obrigada àquilo
que, para não ir contra Deus, é preciso fazer. Tudo a cansa, porque provou que o verdadeiro
descanso não o podem dar as criaturas. – Parece que me alongo, e muito mais poderia
dizer, e a quem Deus tiver feito esta mercê verá que fico aquém; e assim não é de
admirar que esta borboleta busque novo assento, assim como se acha nova e estranha às coisas
da terra. Mas, aonde irá a pobrezita? Voltar a donde saiu, não pode, que – como está
dito, – não está na nossa mão, por mais que façamos, até que Deus seja servido de
nos tornar a fazer esta mercê. Oh! Senhor, e que novos trabalhos começam para esta alma!
Quem dissera tal, depois de mercê tão subida? Enfim, de uma maneira ou de outra, há-de
haver cruz enquanto vivemos. E quem disser que, depois que chegou aqui, sempre está
com descanso e regalo, diria eu que nunca chegou, e não foi senão algum gosto, se
é que entrou na morada anterior, e ajudado pela fraqueza natural; e até, talvez, pelo
demónio, que lhe dá paz para lhe fazer depois muito maior guerra. – Não quero dizer que não tenham paz os
que chegam aqui, que atêm, e muito grande; porque os mesmos trabalhos são de tanto valor
e de tão boa raiz, que, embora muito grandes, deles mesmos sai a paz e o contentamento. Do mesmo descontentamento que dão as coisas
do mundo, nasce um desejo tão penoso de sair dele, que, se algum alívio tem, é pensar
que Deus quer que viva neste desterro; e não basta, porque ainda a alma, com todos os lucros,
não está tão rendida à vontade de Deus, como se verá adiante, conquanto não deixe
de se conformar; mas é com um grande sentimento, porque não pode mais, pois mais não lhe
foi dado, e com muitas lágrimas. Cada vez que tem oração é esta a sua pena,
que procede, talvez em certo modo, da bem grande pena que lhe dá o ver que é Deus
ofendido e pouco estimado neste mundo e as muitas almas que se perdem, tanto de hereges,
como de mouros. Conquanto as que mais a lastimam sejam as dos cristãos, pois ainda que vê
que é grande a misericórdia de Deus, e por mal que vivam se podem emendar e salvar, teme
todavia que se condenem muitos. – Oh! grandeza de Deus! Poucos anos antes,
e ainda talvez há dias, estava esta alma que não se lembrava senão de si! Quem a
meteu em tão penosos cuidados? Embora queiramos ter sobre isto muitos anos de meditação,
tão penosamente como o sente agora esta alma, não o poderemos sentir. Mas, valha-me Deus! se muitos dias e anos
eu procuro exercitar-me a pensar no grande mal que é o ser Deus ofendido e que estes
que se condenam são filhos Seus e irmãos meus, e os perigos em que vivemos, e quão
bem nos vai sair desta miserável vida, não bastará? Ai não, filhas; pois não é a
pena que se sente aqui como as de cá da terra. Esta bem a poderíamos ter com o favor do
Senhor, pensando muito nisto; mas não chega ao íntimo das entranhas, como aqui, que parece
despedaça uma alma e o mói, sem ela o procurar, e ainda às vezes sem o querer. Pois que é isto? Donde procede? Eu vo-lo
direi. – Não tendes ouvido – pois já o disse aqui
de outra vez, embora não a este propósito – da Esposa, que «a meteu Deus na adega do
vinho, e ordenou nela a caridade?». Pois assim é isto: como aquela alma já se entrega
em Suas mãos, e o grande amor a tem tão rendida, não sabe nem quer mais senão que
Deus faça dela o que quiser, (que jamais fará Deus esta mercê, penso eu, a não ser
à alma a quem já toma por muito Sua) e quer que, sem que ela entenda como, saia dali marcada
com o Seu selo. Porque verdadeiramente a alma ali não faz
mais do que a cera quando alguém lhe imprime o selo, pois a cera não o imprime em si mesma;
somente está disposta, digo, branda; e ainda, para esta disposição, tão-pouco é ela
que se abranda, mas fica quieta e o consente. Oh! bondade de Deus, que tudo há-de ser à
Vossa custa! Só quereis a nossa vontade e que não haja impedimento na cera. – Pois vede, irmãs, o que o nosso Deus faz
aqui para que esta alma já se conheça por Sua; dá-lhe do que tem, que é o que teve
Seu Filho nesta vida: não nos pode fazer maior mercê. Quem, mais do que Ele, devia
querer sair desta vida? E assim o disse Sua Majestade na Ceia: «Com desejo desejei». – Pois como, Senhor, não se Vos pôs diante
a trabalhosa morte de que havíeis de morrer, tão penosa e espantosa? – Não, porque o
grande amor que tenho e o desejo de que se salvem as almas sobrepuja, sem comparação,
essas penas; e as grandíssimas que padeci e padeço, desde que estou no mundo, são
bastantes para ter as outras em nada, em sua comparação. – É assim que muitas vezes tenho meditado
nisto, e sabendo eu o tormento que passa e tem passado certa alma que conheço de ver
ofender a Nosso Senhor, tormento que lhe é tão insofrível, que muito mais quisera ela
morrer que sofrê-lo, e pensa, se uma alma com tão pouquíssima caridade, comparada
com a de Cristo, que se podia dizer quase nenhuma em comparação, sentia este tormento
tão insofrível, qual não seria o sentimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que vida não
deveria Ele passar, pois todas as coisas Lhe eram presentes e
estava sempre vendo as grandes ofensas que se faziam a Seu Pai? Sem dúvida alguma, eu creio que foram muito
maiores que as da Sua Sacratíssima Paixão, porque então já via o fim destes trabalhos,
e com isto, e com o contento de ver o nosso remédio com Sua morte e mostrar o amor que
tinha a Seu Pai em padecer tanto por Ele; se moderariam as dores, tal como acontece
cá na terra aos que, com a força do amor, fazem grandes penitências, que quase não
as sentem, antes quereriam fazer mais e mais, e tudo lhes parece pouco. Pois, que seria este sentimento em Sua Majestade,
vendo-se em tão grande ocasião de mostrar a Seu Pai quão perfeitamente cumpria em obedecer-Lhe,
e com o amor do próximo? Oh! grande deleite, padecer em fazer a vontade de Deus! Mas, o
ver tão de contínuo tantas ofensas feitas a Sua Majestade, e tantas almas irem ao inferno,
tenho-o por coisa tão dura que, creio, se não fora mais que homem, um dia daquela pena
bastava para acabar muitas vidas, quanto mais uma. CAPÍTULO, 3º. Continua a mesma matéria.
Fala de outra maneira de união que pode alcançar a alma com o favor de Deus e quanto importa
para isto o amor do próximo. É muito proveitoso. – Pois voltemos à nossa pombinha e vejamos
alguma coisa do que Deus dá neste estado. Sempre se entende que há-de procurar ir adiante
no serviço de Nosso Senhor e no conhecimento próprio; porque, se não faz mais do que
receber esta mercê e, como coisa já segura, se descuida em sua vida e torce o caminho
do Céu, que são os Mandamentos, acontecer-lhe-á como à borboleta que sai do bicho da seda:
que deita a semente para que se produzam outras e ela fica morta para sempre. Digo que deita a semente, porque tenho para
mim que Deus quer que uma mercê tão grande não seja dada debalde; mas, já que a alma
não se aproveita dela para si, aproveite a outros. Porque, como fica com estes desejos
e virtudes todo o tempo em que perdura no bem, faz aproveitar a outras almas e de seu
calor lhes comunica calor; e ainda quando o tem já perdido, acontece ficar com essa
ânsia de que aproveitem outros, e gosta de dar a entender as mercês que Deus faz a quem
O ama e serve. – Eu conheci uma pessoa a quem lhe acontecia
assim; que estando muito perdida, gostava de que se aproveitassem outras com as mercês
que Deus lhe tinha feito e mostrar o caminho de oração às que não o entendiam, e fez-lhes
muito e muito proveito. Depois voltou o Senhor a dar luz. Verdade é que ainda não tinha
os efeitos que ficam ditos. Mas, quantos deve haver, que os chama o Senhor ao apostolado,
como a Judas, comunicando com eles, e os chama para os fazer reis, como a Saul e depois,
por sua culpa se perdem! Donde tiraremos, irmãs, que, para ir merecendo
mais e mais e não nos perdermos como estes, a segurança que podemos ter é a obediência
e não se desviar da lei de Deus; digo, aqueles a quem Ele fizer semelhantes mercês, e mesmo
a todos. –
Parece-me que fica um tanto obscuro, apesar de tudo quanto tenho dito desta morada. Pois
há tanto lucro em entrar nela, bom será que não pareça ficarem sem esperança aqueles
a quem o Senhor não dá coisas tão sobrenaturais; pois a verdadeira união se pode muito bem
alcançar, com o favor de Nosso Senhor, se nós nos esforçamos em procurá-la, não
tendo a vontade senão atada com o que for a vontade de Deus. Oh! Quantos haverá que digamos isto e nos
pareça que não queremos outra coisa e morreríamos por esta verdade, como creio já ter dito!
Pois, eu vos digo e di-lo-ei muitas vezes, que, quando assim for, haveis alcançado esta
mercê do Senhor e nada se vos dê desta outra união regalada que fica dita; pois o que
há de maior preço nela, é o proceder desta que agora digo; nem tenhais pena por não
poder chegar à que fica dita, se não é muito certa a união da nossa vontade estar
resignada na de Deus. Oh! que união esta para desejar! Venturosa
a alma que a tiver alcançado, pois viverá nesta vida com descanso e na outra também;
porque nenhuma coisa dos sucessos da terra a afligirá, a não ser que se veja em algum
perigo de perder a Deus ou ver que Ele é ofendido: nem enfermidade, nem pobreza, nem
mortes, a não ser de quem há-de fazer falta na Igreja de Deus, pois bem vê esta alma
que Ele sabe melhor o que faz, do que ela o deseja. – Deveis notar que há penas e penas; porque
há algumas penas produzidas de súbito pela natureza, e do mesmo modo os contentamentos,
e até da caridade apiedando-se dos próximos, como fez Nosso Senhor quando ressuscitou a
Lázaro; e estas não impedem a união com a vontade de Deus, nem tão-pouco perturbam
a alma com uma paixão inquieta, desassossegada, que dura muito. Estas penas passam depressa; pois, como disse
dos gozos na oração, parece que não chegam ao fundo da alma, senão a estes sentidos
e potências. Andam por estas moradas anteriores, mas não entram na que está por dizer em
último lugar, pois, para isto é preciso o que fica dito A da suspensão das potências.
Poderoso é o Senhor para enriquecer as almas por muitos caminhos e trazê-las a estas moradas,
e sem ser pelo atalho que fica dito. – Mas adverti bem nisto, filhas: é necessário
que morra a lagarta, e mais à vossa custa; porque ali ajuda muito para morrer o ver-se
em vida tão nova; aqui é mister que, vivendo nesta, a matemos nós mesmas. Eu vos confesso
que será com muito mais trabalho, mas tem-se o seu preço, e assim será maior o galardão,
se sairdes com vitória; quanto a ser possível, não há que duvidar, logo que haja união
verdadeira com a vontade de Deus. Esta é a união que toda a minha vida tenho
desejado; esta é a que peço sempre a Nosso Senhor e a mais clara e segura. – Mas, ai de nós, que poucos devemos chegar
a ela!, embora quem se guarda de ofender ao Senhor e entrou em religião lhe pareça que
tudo está feito. Oh! ainda ficam umas lagartas que não se
dão a conhecer, até que, como a que roeu a hera de Jonas, nos roam as virtudes com
um amor próprio, uma própria estimação, um julgar os próximos, embora seja em poucas
coisas, uma falta de caridade com eles não lhes querendo como a nós mesmos: ainda que,
arrastando-nos, cumprimos com a obrigação, para não ser pecado, não chegamos nem de
longe ao que deve ser para estarmos de todo unidas com a vontade de Deus. – O que pensais, filhas, que é a Sua vontade?
Que sejamos perfeitas, para sermos um com Ele e com o Pai, como Sua Majestade o pediu.
Olhai quanto nos falta para chegarmos a isto! Digo-vos que estou escrevendo isto com grande
pena de me ver tão longe e tudo por minha culpa. E não é preciso o Senhor fazer-nos
grandes regalos para isso; basta o que nos deu, dando-nos o Seu Filho, para nos ensinar
o caminho. Não penseis que está a coisa em que, se
morre meu pai ou irmão, eu me conforme tanto com a vontade de Deus que o não sinta; e
se me vierem trabalhos e enfermidades, sofrê-los com contentamento. Bom é, e às vezes consiste
em discrição, Iporque mais não podemos e fazemos da necessidade virtude. Quantas
coisas destas faziam os filósofos, ou ainda que não seja destas, outras, por terem muito
saber! Aqui, só estas duas nos pede o Senhor: amor de Sua Majestade e do próximo; é no
que temos de trabalhar. Guardando-as com perfeição, fazemos a Sua vontade, e assim estaremos unidas
com Ele. Mas, quão longe estamos de fazer como devemos
a tão grande Deus estas duas coisas, como disse! Praza a Sua Majestade nos dê graça,
para que mereçamos chegar a este estado, que em nossa mão está, se quisermos. – O sinal mais certo que há, a meu parecer,
para ver se guardamos estas duas coisas, é guardar bem a do amor ao próximo; porque,
se amamos a Deus não se pode saber, embora haja grandes indícios para entender que O
amamos, mas o amor do próximo, sim. E estai certas que, quanto mais neste vos virdes aproveitadas,
mais o estais no amor de Deus; porque é tão grande o que Sua Majestade nos tem, que em
paga do que temos ao próximo, fará crescer o que temos a Sua Majestade por mil maneiras.
Disto não posso eu duvidar. – Importa-nos muito andar com grande advertência,
vendo como andamos nisto, que, se é com muita perfeição, temos tudo feito; porque eu creio
que, segundo é mau o nosso natural, não chegaremos a ter com perfeição o amor do
próximo, se não nascer de raiz do amor de Deus. Pois tanto nos importa isto, irmãs, procuremos
ir entendendo como vamos neste ponto, mesmo em coisas pequenas, não fazendo caso de umas
muito grandes, que assim por junto nos vêm na oração, parecendo-nos que faremos e aconteceremos
por amor dos próximos e por uma só alma que se salve; porque, se as obras não correspondem,
não é de crer que o faremos. Assim digo também da humildade e de todas as virtudes. São grandes os ardis do demónio que, para
nos fazer crer que temos alguma, não a tendo, dará mil voltas ao inferno. E tem razão,
porque fará muito dano, pois estas virtudes fingidas nunca vêm sem alguma vanglória,
como são de tal raiz; assim como as que Deus dá, estão livres dela e de soberba. – Eu gosto, algumas vezes, de ver umas almas
que, quando estão em oração, lhes parece que quereriam ser abatidas e publicamente
afrontadas por Deus, e depois encobririam uma falta pequena, se pudessem, ou, se não
a fizeram, lha atribuem; Deus nos livre! Pois veja bem quem isto não sofre, para não
fazer caso do que, a sós determinou a seu parecer; que de verdade não foi determinação
de vontade, pois quando esta é verdadeira, é outra coisa; mas sim alguma imaginação,
pois nesta faz o demónio seus assaltos e enganos; e a mulheres, ou gente sem letras,
poderá fazer muitos, porque não sabemos entender as diferenças entre as potências
e a imaginação e outras mil coisas que há interiores. Ó irmãs, como se vê claramente onde está
deveras o amor do próximo, em algumas de vós, e naquelas em que não está com esta
perfeição! Se entendêsseis o que nos importa esta virtude, não faríeis outro estudo. – Quando vejo algumas muito diligentes em
entender a oração que têm e muito encapotadas quando estão nela, que parece não ousam
bulir nem menear o pensamento, para que não se lhes vá um pouquito do gosto e devoção
que tiveram, faz-me ver quão pouco entendem do caminho por onde se alcança a união.
E pensam que ali está todo o negócio. Mas não, irmãs, não; obras quer o Senhor;
e, se vês uma enferma a quem podes dar algum alívio, não se te dê nada de perder essa
devoção e te compadeças dela; e se tem alguma dor, te doa a ti também; e se for
preciso, jejua, para que ela coma, não tanto por ela, mas porque sabes que teu Senhor quer
isso. Esta é a verdadeira união com Sua vontade; e se vires louvar muito a uma pessoa,
te alegres muito mais do que se te louvassem a ti. Isto, na verdade, fácil é; pois se
há humildade, antes terá pena de se ver louvada. E esta alegria por se conhecerem as virtudes
das irmãs é grande coisa, e quando virmos alguma falta em alguma, senti-la como se fosse
em nós e encobri-la. – Muito disse noutras partes sobre isto, porque
vejo, irmãs, que, se nisto houver quebra, estamos perdidas. Praza ao Senhor nunca a
haja; logo que assim seja, eu vos digo que não deixareis de alcançar de Sua Majestade
a união que fica dita. Quanto vos virdes carecidas nisto, ainda que
tenhais devoção e regalos e alguma suspensãozita na oração de quietude, e vos pareça que
já haveis chegado, (que a algumas logo lhes parecerá que está tudo feito) crede-me que
não chegastes à união e pedi a Nosso Senhor que vos dê com perfeição este amor do próximo
e deixai fazer a Sua Majestade, que Ele vos dará mais do que sabeis desejar, desde que
vos esforceis e procureis isto em tudo o que puderdes; e forçar vossa vontade para que se faça
em tudo a das irmãs, embora percais do vosso direito, ou esquecer o vosso bem pelo delas,
por mais contradições que vos faça o vosso natural; e procurar tomar para vós o trabalho
para o tirar ao próximo, quando se oferecer. Não penseis que isto não vos há-de custar
e que o haveis de achar já feito. Olhai o que custou a nosso Esposo o amor que nos teve:
para nos livrar da morte, a padeceu tão penosa como a morte na Cruz. CAPÍTULO, 4º. Prossegue o mesmo, declarando
mais esta maneira de oração. Diz o muito que importa andar de sobreaviso, pois o demónio
anda bem avisado para fazer voltar atrás no caminho começado. – Parece-me que estais com o desejo de ver
o que faz esta pombinha e onde poisa, pois fica entendido que não é em gostos espirituais,
nem em contentos da terra; mais alto é o seu voo. E não vos posso satisfazer este
desejo até à última morada e praza a Deus me lembre ou tenha ocasião de o escrever;
porque já passaram quase cinco meses desde que comecei até agora; e, como a cabeça
não está para o tornar a ler, tudo deve ir desconcertado, e talvez diga algumas coisas
duas vezes. Como é para minhas irmãs, pouco vai nisso. – Todavia quero declarar-vos melhor o que
me parece que é esta oração de união. Conforme ao meu engenho, farei uma comparação. Depois, diremos ainda mais desta borboletazinha,
que não pára, (ainda que sempre frutifica fazendo bem a si e a outras almas) porque
não acha o seu verdadeiro repouso. – Já tereis ouvido dizer muitas vezes que
se desposa Deus com as almas espiritualmente. Bendita seja Sua misericórdia que tanto se
quer humilhar! E ainda que seja comparação grosseira, eu não acho outra que melhor possa
dar a entender o que pretendo, que o sacramento do matrimónio. Conquanto seja de diferente maneira, porque
nisto que tratamos jamais há coisa que não seja espiritual, (e o que é corpóreo fica
muito aquém, e os contentos espirituais que dá o Senhor, comparados com os gostos que
devem ter os que se desposam, vão mil léguas de uns a outros) porque tudo é amor com amor,
e suas operações limpidíssimas e tão delicadas e suaves, que não há palavras para as dizer;
mas sabe o Senhor dá-las muito bem a sentir. –
Parece-me a mim que esta união ainda não chega a desposório espiritual; mas, tal como
aqui no mundo, quando dois se hão de desposar, trata-se de saber se são conformes e que
um e outro o queiram, e até que se vejam, para que mais se satisfaçam um do outro,
assim aqui. Pressupondo que o contrato está já feito
e esta alma muito bem informada, quão bem lhe vai e determinada a fazer em tudo a vontade
de seu Esposo, de tantas quantas maneiras ela vir que Lhe dará gosto, e Sua Majestade,
como quem bem entende se de facto é assim, está contente com ela, e faz-lhe esta misericórdia
de querer que O conheça melhor e que – como dizem, – venham à fala, e a junta consigo.
Podemos dizer que isto é assim, porque assim se passa, ainda que em brevíssimo tempo. Ali já não há dar e tomar, mas sim o ver
a alma, de uma maneira secreta, quem é Este a quem há-de tomar por Esposo; porque, pelos
sentidos e potências, de nenhuma-maneira poderia entenderem mil anos o que entende
aqui em brevíssimo tempo. Mas, como é tal o Esposo, só com aquela
vista a deixa mais digna de que se venham a dar as mãos, como dizem; porque fica a
alma tão enamorada, que faz da sua parte o que pode para que não se desconcerte este
divino desposório. Mas, se esta alma se descuida e coloca sua afeição em coisa que não seja
Ele, perderá tudo; e é tão grandíssima a perda, como o são ás mercês que Ele vai
fazendo, e muito maior do que se pode encarecer. – Por isso, almas cristãs, aquelas a quem
o Senhor fez chegar a estes termos, por amor d’Ele vos peço que não vos descuideis, mas
que vos aparteis das ocasiões, que ainda mesmo neste estado não está a alma tão,
forte que se possa meter nelas, como o está depois de feito o desposório,. que é na
morada que diremos após esta. Porque, a comunicação não foi mais do que
uma vista de olhos, – como dizem, – e o demónio andará com grande cuidado a combatê-la e
a desviar este desposório. Depois, como já a vê de todo rendida ao Esposo, não ousa
tanto, porque lhe tem medo, e tem experiência que, se alguma vez o faz, fica ele com grande
perda e ela com maior lucro. – Eu vos digo, filhas, que tenho conhecido
pessoas muito alevantadas e chegarem a este estado e o demónio, com a sua grande subtileza
e ardil, as tornar a ganhar para si. Deve juntar-se todo o inferno para isso, pois,
como digo muitas vezes, não perdem só a uma alma, mas uma grande multidão. Já ele tem experiência neste caso; porque,
se olharmos à multidão de almas que Deus traz a Si por meio de uma, é para Loa muito
pelos milhares que convertiam os mártires, por exemplo uma donzela como Santa Úrsula!
Pois, quantas terão sido arrancadas ao demónio por São Domingos e São Francisco e outros
fundadores de Ordens, e perde agora por causa do padre Inácio, o que fundou a Companhia!
que todos, está claro, segundo lemos, recebiam mercês semelhantes de Deus! Que foi isto,
senão que se esforçaram em não perder, por sua culpa, tão divino desposório? Oh!
minhas filhas! que tão disposto está este Senhor a fazer-nos
mercês agora como então, e até em parte mais necessitado de que as queiramos receber,
porque há poucos que olhem por Sua honra, como então havia. Queremo-nos muito; há
muita prudência para não perder nada dos nossos direitos. Oh! que engano tão grande!
O Senhor nos ilumine para não cairmos em semelhantes trevas, por Sua misericórdia. – Podereis perguntar-me ou estar em dúvida
sobre duas coisas: A primeira, se a alma está tão unida com a vontade de Deus, como fica
dito, como se pode enganar, pois ela em nada quer fazer a sua vontade? A segunda, por que
vias pode entrar o demónio tão perigosamente, que se perca vossa alma, estando tão apartadas
do mundo e tão chegadas aos sacramentos e em companhia – podemos dizer – de anjos? Pois, pela bondade do Senhor, todas elas não
trazem outros desejos senão de O servir e de Lhe agradarem tudo; que, para os que estão
metidos nas ocasiões do mundo, já não é muito de admirar que se percam. Eu digo que
nisto tendes razão, pois grande misericórdia nos fez Deus; mas, quando vejo – como já
disse – que estava Judas em companhia dos Apóstolos, e tratando sempre com o mesmo
Deus, e ouvindo Suas palavras, entendo que nisto não há segurança. Respondendo ao primeiro, digo que, se esta
alma estivesse sempre unida à vontade de Deus, está claro que não se perderia; mas
vem o demónio com umas subtilezas grandes, e debaixo da cor do bem vai-a apartando da
vontade divina em coisitas de nada e metendo-a em algumas que ele lhe faz entender que não
são más e, pouco a pouco, vai-lhe obscurecendo o entendimento e entibiando a vontade e fazendo
crescer nela o amor próprio, até que, de uma em outra coisa, a vai apartando da vontade
de Deus e chegando-a à sua. Com isto fica respondido ao segundo; porque
não há encerramento tão encerrado aonde ele não possa entrar, nem deserto tão apartado
aonde deixe de ir. E ainda outra coisa vos digo, que talvez o permita o Senhor para ver
como se porta aquela alma a quem escolheu para que seja luz de outras, que, se há-de
ser ruim, mais vale que o seja nos princípios do que depois, quando possa causar dano a
muitas. – Depois de pedir sempre a Deus na oração
que nos tenha de Sua mão e pensarmos muito de contínuo que, se Ele nos deixa, cairemos
logo no abismo, como é verdade, e nunca estarmos confiadas em nós mesmas, pois seria desatino,
a diligência que a mim se me oferece por mais certa é andar com particular cuidado
e atenção, olhando como vamos nas virtudes: se vamos melhorando ou diminuindo em alguma
delas, em especial no amor de umas para com as outras e no desejo de sermos tidas cada
uma pela menor, e em coisas normais. Se olhamos bem a isso e pedimos ao Senhor
que nos ilumine, logo veremos o lucro ou a perda. E não penseis que a alma, a quem Deus
fez chegar a tanto, Ele a deixe tão depressa de Sua mão, que o demónio não tenha muito
a trabalhar; e Sua Majestade sente tanto que ela se Lhe venha a perder, que lhe dá mil
avisos interiores de muitas maneiras; assim ela não poderá esconder o dano a si própria. – Enfim, seja a conclusão disto: que procuremos
ir sempre adiante. Se não há isto, andemos com grande temor porque, sem dúvida, algum
assalto nos quer fazer o demónio; pois não é possível que, tendo chegado a tanto, deixe
de ir crescendo, porque o amor jamais está ocioso e assim será muito mau sinal o não
ir adiante. Uma alma que pretendeu ser esposa do próprio
Deus, e tem tratado já com Sua Majestade, e chegou ao termo que fica dito, rnão se
há-de deitar a dormir. E para que vejais, filhas, o que Ele faz com as que já tem por
esposas, comecemos a tratar das sextas moradas, e vereis como é pouco tudo em que poderemos
servir e padecer e fazer para nos dispormos a tão grandes mercês. E poderá ser que Nosso Senhor tenha ordenado
que mo mandassem escrever para que, postos os olhos no prémio e vendo quão sem medida
é Sua misericórdia, pois com uns vermes assim se quer comunicar e mostrar, esqueçamos
nossos contentozinhos da terra e, postos os olhos em Sua grandeza, corramos inflamadas
em Seu amor. – Praza a Deus que eu acerte a declarar um
pouco de coisas tão dificultosas; porque, se Sua Majestade e o Espírito Santo não
moverem a minha pena, bem sei que será impossível. E se não há-de ser para vosso proveito,
suplico-Lhe que não acerte a dizer nada; pois sabe Sua Majestade que não é outro
o meu desejo, tanto quanto posso entender de mim mesma, senão que seja louvado Seu
nome, e que nos esforcemos a servir a um Senhor que assim paga ainda cá na terra. Por aqui podemos entender alguma coisa do
que nos há-de dar no Céu, sem os intervalos, trabalhos e perigos que há neste mar de tempestades.
Porque, se não fora o perigo de O perder e ofender, seria um descanso que não se acabasse
a vida até ao fim do mundo, a fim de trabalhar por tão grande Deus e Senhor e Esposo. Praza
a Sua Majestade mereçamos fazer-Lhe algum serviço sem tantas faltas como sempre temos,
ainda mesmo nas obras boas, amen. SEXTAS MORADAS CAPÍTULO, 1º. Trata de como, em começando
o Senhor afazer maiores mercês, há maiores trabalhos. Diz alguns e como se comportam
neles os que estão nesta morada. É bom para quem tem trabalhos interiores. – Venhamos, pois, com o favor do Espírito
Santo, a falar das sextas moradas, onde a alma já fica ferida do amor do Esposo e procura
mais ocasiões para estar a sós e deixar tudo quanto pode, conforme a seu estado, e
a pode estorvar nesta soledade. Está tão esculpida na alma aquela vista,
que todo o seu desejo é torna-la a gozar. Já disse que, nesta oração, não se vê
nada, que se possa dizer ver, nem com a imaginação; digo vista, pela comparação que usei. A
alma já está bem determinada a não tomar outro esposo; mas o Esposo não, olha aos
grandes desejos que ela tem de que se façam já os desposórios,. pois ainda quer que
o deseje mais e lhe custe alguma coisa um bem que é o, maior dos bens. E, embora tudo seja pouco para tão grandíssimo
lucro digo-vos desde já, filhas, que não deixa de ser necessária aquela amostra e
sinal que já se tem dele, para se poder levar esse trabalho. Oh! valha-me. Deus! e quantos
não são os trabalhos interiores e exteriores que padece até entrar nas sétimas moradas! – Certo é que penso nisto algumas vezes e
temo que, se o entendessem antes, seria dificultosíssimo determinar-se a fraqueza natural para o poder
sofrer, nem se resolvesse a passar por isso, por maiores bens que se lhe representassem,
salvo se tivesse chegado à sétima morada; pois aí já nada se teme que seja de molde
a impedir a alma de se arrojar deveras a sofrer tudo por Deus. E a causa é porque está quase
sempre tão junto a Sua Majestade, que daí lhe vem a fortaleza. Creio que será bom contar-vos
alguns dos trabalhos que eu sei passarem-se com certeza. Nem todas as almas serão, talvez, levadas
por este caminho, ainda que duvido que vivam livres de trabalhos cá da terra, de uma maneira
ou doutra, as almas que, de tempos a tempos, gozam tão deveras de coisas do céu. – Embora eu por mim não tivesse em vista
tratar disto, pensei que a alguma alma, que se veja nestes trabalhos, lhe será grande
consolo saber o que se passa nas almas a quem Deus faz semelhantes mercês, porque então
parece verdadeiramente estar tudo perdido. Não os levarei pela ordem como sucedem, mas
sim como se me oferecerem à memória. E quero começar pelos mais pequenos, que é uma gritaria
das pessoas com quem se trata, e até mesmo daquelas com quem não se trata, e que nunca
na vida pareceu que se podiam vir a lembrar dela: «que se faz santa», «que faz extremos
para enganar o mundo, e para fazer aos outros ruins, que são melhores cristãos sem essas
cerimónias». E deve-se notar que não há aqui cerimónia nenhuma, a não ser procurar
guardar bem o seu estado. Os que tinha por amigos, apartam-se dela e
são os que lhe dão pior bocado, e são dos que muito se sentem: «que anda perdida aquela
alma» dizem, «e notavelmente enganada»; «que são coisas de demónio», «que há-de
ser como aquela e aqueloutra pessoa que se perdeu, e ocasião de que decaia a virtude»;
«que traz enganados os confessores», e vão ter com eles a dizer-lho, trazendo-lhes exemplos
do que acontece a alguns que por aqui se perdem; mil maneiras de mofas e ditos deste teor. – Sei duma pessoa que teve muito medo de não
haver quem a confessasse, segundo andavam as coisas; mas, por serem muitas, não há
para que deter-me. E o pior é não passarem depressa, mas ser toda a vida, e o avisarem-se
uns aos outros que se guardem de tratar com pessoas semelhantes. Dir-me-eis que também há quem diga bem.
Oh! filhas, e como são poucos os que acreditam nesse bem, em comparação dos muitos que
abominam isso! Tanto mais que esse é outro trabalho maior que os ditos! Porque, como
a alma vê claramente que, se tem algum bem, é dado por Deus e não seu de maneira nenhuma,
pois pouco antes se viu muito pobre e metida em grandes pecados, é-lhe isto um tormento
intolerável, pelo menos ao princípio; que depois não é tanto, por algumas razões. A primeira, porque a experiência lhe faz
ver claramente que tão depressa dizem bem como mal, e assim não faz mais caso de uma
coisa que de outra. A segunda, porque o Senhor lhe tem dado maior entendimento para ver que
nenhuma coisa boa é sua, mas dada por Sua Majestade; e assim, como se a visse em terceira
pessoa, esquecida de que tem aí alguma parte, volve-se a Deus para O louvar. A terceira, se já tem visto algumas almas
aproveitadas por verem as mercês que Deus lhe faz, pensa que Sua Majestade tomou este
meio de a terem por boa, não o sendo, para que, a elas, lhes adviesse bem. A quarta,
porque, como tem diante de si a honra e a glória de Deus mais de que a sua, já não
lhe vem uma tentação que dá nos princípios, de que esses louvores hão-de servir para
a sua ruína, como tem visto em algumas, e pouco se lhe dá de ser desacreditada, a troco
de que, sequer uma vez, seja Deus louvado, por seu intermédio; venha depois o que vier! – Estas razões e outras aplacam a muita pena
que dão estes louvores, embora, quase sempre, se sinta alguma; a não ser quando não se
adverte nisso nem pouco nem muito. Mas maior trabalho que os ditos é, sem comparação,
o ver-se assim em público tida por boa, sem razão. E quando chega a já não ter muito
trabalho com os louvores, muitíssimo menos o tem com os ditos; antes folga e é para
ela como uma música muito suave. Isto é grande verdade, e antes fortalece
a alma que a acobarda; porque já a experiência lhe tem ensinado o grande ganho que lhe advém
por este caminho, e parece-lhe que não ofendem a Deus os que a perseguem; antes o permite
Sua Majestade para seu maior lucro; e como sente isto claramente, ganha por eles um particular
amor muito terno, pois lhe parece que aqueles são mais seus amigos e lhe dão mais a ganhar
que os que dizem bem. – Também costuma o Senhor dar enfermidades
grandíssimas. Este é muito maior trabalho, em especial
quando são dores agudas, porque, se são violentas, parece-me de certo modo o maior
trabalho que há na terra – digo exterior – embora entrem na conta quantos quiserem;
se é de muito fortes dores, digo, porque descompõe o interior e o exterior, e aperta
uma alma de tal maneira, que ela não sabe que fazer de si, e de muito boa vontade tomaria
qualquer martírio rápido, de preferência a estas dores; ainda que em grandíssimo extremo
não duram tanto, que, enfim, Deus não dá mais do que se pode sofrer, e Sua Majestade
dá primeiro a paciência; mas ter outras grandes dores é o costume,
e enfermidades de muitos géneros; – eu conheço uma pessoa que, desde que o Senhor lhe começou
a fazer esta mercê que fica dita, há uns quarenta anos, não pode dizer com verdade
que tenha estado um dia sem ter dores e outras maneiras de padecer, de falta de saúde corporal,
digo, sem falar de outros grandes trabalhos. Verdade é que tinha sido muito ruim, e, para
o inferno que merecia, tudo lhe parece pouco. Outras, que não tenham ofendido tanto a Nosso
Senhor, Ele as levará por outro caminho; mas eu sempre escolheria o de padecer, ao
menos para imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que não houvesse outro lucro; em especial,
porque sempre há muitos. Oh! e se tratamos dos sofrimentos interiores!…
Estoutros pareceriam pequenos se se acertasse em dizer estes, pois é impossível dar a
entender de que maneira se passam. – Comecemos pelo tormento que é encontrar
um confessor tão prudente e pouco experimentado, que não há coisa que tenha por segura: tudo
teme, em tudo põe dúvida, pois vê coisas não habituais. Em especial, se na alma que
as tem, vê alguma imperfeição, (pois lhe parece que devem ser anjos aqueles a quem
Deus fizer estas mercês, e é impossível enquanto estiverem neste corpo) logo tudo
é condenado à conta do demónio ou da melancolia. E desta está o mundo tão cheio, que não
me espanto; pois há tanta agora no mundo, e faz o demónio tantos males por este caminho,
que têm muitíssima razão os confessores de o temer e de olhar a isto muito bem. Mas
a pobre alma que anda com o mesmo temor e vai ao confessor como a juiz e este a condena,
não pode deixar de receber tão grande tormento e perturbação, que só entenderá como é
grande este trabalho quem tiver passado por ele. Porque este é outro dos grandes trabalhos
que estas almas padecem, em especial se foram ruins: pensar que, por seus pecados, há-de
permitir Deus que sejam enganadas; e ainda que, quando Sua Majestade lhes faz a mercê,
estão seguras e não podem crer ser aquilo de outro espírito senão de Deus, como é
coisa que passa depressa e a lembrança dos pecados está sempre viva, e vêem em si faltas
– porquanto estas nunca faltam, – logo vem este tormento. Quando o confessor lhe dá
segurança, aplaca-se o tormento, ainda que volta depois. Mas, quando ele ajuda com mais temor, é coisa
quase insofrível, em especial quando, atrás disto, vem uma tal aridez, que parece que
nunca se lembrou de Deus nem se há-de lembrar e, quando ouve falar de Sua Majestade, é
como quem ouve falar de uma pessoa que está longe. – Tudo é nada se, além disto, não lhe vem
a parecer que não sabe informar bem os confessores e que os traz enganados; e, por mais que pense
e veja que não há primeiro movimento que não o diga, não lhe aproveita; porque está
o entendimento tão obscuro que não é capaz de ver a verdade, e só crê o que lhe representa
a imaginação, (que então é ela a senhora) e os desatinos que o demónio lhe quer apresentar,
ao qual Nosso Senhor deve ter dado licença para que prove a alma, e até para lhe fazer
crer que está reprovada por Deus. Porque são muitas as coisas que a combatem
com um aperto interior, de maneira tão sensível e intolerável, que eu não sei a que se possa
comparar, se não é aos tormentos que se padecem no inferno; porque não se admite
nenhum consolo nesta tempestade. Se o quer tomar do confessor, parece que acodem
a ele todos os demónios para que mais a atormente. E assim, tratando um confessor com uma alma
que estava neste tormento, (que parece perigoso aperto por ser de tantas coisas juntas) depois
de passado, ele dizia-lhe que o avisasse quando assim estivesse atribulada; mas sempre era
muito pior até que ele veio a entender que o remédio já não estava em sua mão. Pois, se quisesse tomar um livro em língua
vulgar, e é pessoa que sabia ler muito bem, acontecia-lhe não entender mais do que se
não conhecesse uma letra, porque o entendimento não estava capaz de entender. – Enfim, nenhum remédio há nesta tempestade,
senão aguardar a misericórdia de Deus que, em hora não esperada, só com uma palavra
Sua, ou por meio de uma ocasião que se proporciona, tira tudo tão depressa, que nem parece ter
havido uma névoa naquela alma pois fica cheia de sol e de muito maior consolação. E, como
quem escapou duma batalha perigosa e tenha ganho a vitória, fica louvando a Nosso Senhor,
pois foi Ele quem pelejou para o triunfo, e a alma reconhece muito claramente não ter
pelejado. Pois todas as armas com que se podia defender,
parece-lhe que as vê nas mãos de seu contrário, e assim conhece claramente a sua miséria
e o pouquíssimo que podemos por nós mesmos, se o Senhor nos desamparar. – Parece que já não tem necessidade de consideração
para entendê-lo, porque a experiência de ter passado por isto, tendo-se visto de todo
incapacitada, fez-lhe entender o nosso nada, e quão miseráveis somos; porque a graça,
(conquanto não deve estar sem ela, pois em toda esta tormenta não ofende a Deus, nem
O ofenderia por coisa nenhuma da terra) está tão! escondida, que nem mesmo lhe parece ver em
si uma centelha muito pequena de amor de Deus, nem mesmo que o teve algum dia; porque, se
fez algum bem, ou se Sua Majestade lhe fez alguma mercê, tudo lhe parece coisa sonhada
e que foi uma fantasia. Os pecados, esses, sim, vê com certeza que os fez. – Ó Jesus, o que é ver uma alma desamparada
desta sorte, e – como disse – quão pouco lhe aproveita qualquer consolação da terra!
Por isso, irmãs, se alguma de vós se vir assim, não penseis que os ricos e os que
estão com liberdade terão para estes momentos melhor remédio. Não, não; pois me parece
a mim seria como se aos condenados lhes pusessem na frente quantos deleites há no mundo, nada
disso bastaria para lhes dar alívio, antes lhes acrescentaria o tormento. Assim aqui,
tudo isto vem do alto, e não valem nada as coisas da terra. Quer este grande Deus que O conheçamos a
Ele como Rei e a nossa miséria; e isto importa muito para o que adiante se dirá. – Pois, que fará esta pobre alma, quando
isto lhe durar assim muitos dias? Porque, se reza, é como se não rezasse, para sua
consolação, digo; porque não penetra no interior, nem ela mesma entende o que reza
para si, embora seja vocalmente, pois, para oração mental, não é este o tempo de maneira
alguma, porque as potências não estão para isso; antes causa maior dano a solidão, ainda
que seja outro tormento o estar com alguém ou que lhe falem. E assim, por muito que se esforce, anda com
um desabrimento e má disposição exterior que muito se deixa ver. E saberá ela na verdade dizer o que tem?
É indizível porque são aflições e penas espirituais a que não se sabe dar nome. O
melhor remédio – não digo para tirar este tormento, que eu não o encontro, mas para
que se possa sofrer – é atender a obras de caridade e exteriores, e esperar na misericórdia
de Deus, que nunca falta aos que n’Ele esperam. Seja para sempre bendito, amen. – Outros trabalhos exteriores que dão os
demónios, não devem ser tão habituais, e assim não há para que falar neles, nem
são tão penosos em grande parte; porque, por muito que os demónios façam, não chegam
a inabilitar assim as potências, a meu parecer, nem a perturbar a alma desta maneira; porque,
enfim, fica ainda a razão para pensar que eles não podem fazer mais do que o Senhor
lhes der licença; e, quando esta não está perdida, tudo é pouco em comparação do
que fica dito. – Outras penas interiores iremos dizendo nestas
moradas, tratando das diferenças que há na oração e nas mercês do Senhor. Porque, ainda que algumas são ainda de mais
duro padecer que o já dito, como se verá pelo estado em que deixam o corpo, não merecem,
no entanto, o nome de trabalhos, nem é razão que lho ponhamos, por serem tão grandes mercês
do Senhor, e, porque, no meio deles, a alma bem entende serem mercês e muito acima de
seus merecimentos. Esta pena tão grande vem já para entrar
na sétima morada, com outros muitos trabalhos, dos quais direi alguns, porque todos seria
impossível, nem mesmo declarar como são, porque vêm de outra linhagem muito mais alta
que os outros que disse; e se destes, sendo de casta mais baixa, não pude declarar mais
que o dito, menos poderei ainda nestes outros. O Senhor nos dê para tudo o Seu favor, pelos
méritos de Seu Filho, amen. CAPÍTULO, 2º. Trata de algumas maneiras
com que Nosso Senhor desperta a alma, nas quais parece não há que temer, embora seja
coisa muito subida, e sejam grandes mercês. – Parece que temos deixado muito a pombazita,
mas não; porque estes trabalhos são os que a fazem levantar ainda mais alto voo. Comecemos, pois, agora a tratar da maneira
como se avém com ela o Esposo, e como, antes que de todo o seja, lho faz bem desejar, por
uns meios tão delicados, que a própria alma não os entende, nem eu creio acertarei a
dizê-lo de modo a que o entenda, a não ser as que passaram por isto; porque são uns
impulsos tão delicados e subtis, que procedem do mais interior da alma, que não sei que
comparação dar e que lhes quadre. – É bem diferente de tudo o que cá na terra
podemos procurar, e até mesmo dos gostos que ficam ditos, pois muitas vezes, estando
a própria pessoa descuidada e sem ter a memória em Deus, Sua Majestade a desperta, à maneira
de um cometa que passa depressa, ou de um trovão, ainda que não se ouça ruído; mas
entende muito bem a alma que foi chamamento de Deus, e tão bem entendido, que algumas
vezes, em especial ao princípio, a faz estremecer e até queixar-se, sem ser coisa que lhe doa. Sente-se ferida saborosissimamente, mas não
atina como nem quem a feriu; mas bem conhece ser coisa preciosa e jamais quereria sarar
daquela ferida. Queixa-se a seu Esposo com palavras de amor, mesmo exteriores, sem poder
fazer outra coisa; porque entende que Ele está presente, mas não Se quer manifestar
de maneira a deixar-Se gozar. E é grande pena, ainda que saborosa e doce;
e embora não a queira ter, não pode; mas isto não o quereria jamais. Esta pena muito
mais a satisfaz que o embevecimento saboroso, que carece de pena, da oração de quietude. – Estou-me desfazendo, irmãs, para vos dar
a entender esta operação de amor, e não sei como o fazer. Porque parece coisa contraditória dar o Amado
claramente a entender que está com a alma e, ao mesmo tempo, parecer que a chama com
um sinal tão certo, que não se pode duvidar, e com um silvo tão penetrante para a alma
o entender, que não pode deixar de o ouvir; pois não parece senão que, em falando o
Esposo, que está na sétima morada, por este modo, (que não é fala formada) toda a gente
que está nas outras moradas não ousa mexer-se: nem sentidos nem imagi, nações, nem potências. Oh! meu poderoso Deus, como são grandes os
Vossos segredos, e que diferentes são as coisas do Espírito de tudo quanto por cá
se pode ver e entender, pois com nenhuma coisa se pode declarar esta tão pequena, para as
muito grandes que operais com as almas! – Faz nela tão grande operação, que se
está desfazendo em desejos, e não sabe. o que pedir, porque claramente lhe parece
que está com ela o seu Deus. Dir-me-eis: Pois, se isto entende, que deseja
ela, ou que é que lhe dá pena? e que maior bem quer? Não sei; sei que lhe parece chegar
às entranhas esta pena, e quando delas lhe arranca a seta Aquele que a fere, verdadeiramente
parece que lhas leva atrás de si, tal é o sentimento de amor que sente. Estava eu pensando agora se seria que deste
fogo do braseiro incendido, que é o meu Deus, saltava alguma centelha e dava na alma, de
maneira a deixar-lhe sentir aquele incendido fogo, e como ainda não era bastante para
a queimar, e é tão deleitoso, ficava com aquela pena e ao tocar nela fazia aquela operação;
parece-me ser a melhor comparação que acertei a dizer. Porque esta dor saborosa – e não é dor – não
está em um ser; ainda que, às vezes, dura um grande bocado, outras depressa se acaba:
é como o Senhor o quer comunicar, pois não é coisa que se possa procurar por nenhuma
via humana. Mas, ainda que está algumas vezes um bom
bocado, desaparece e torna de novo; enfim, esta dor nunca está fixa, e por isso não
acaba de abrasar a alma, pois mal se vai a acender, morre a centelha e a alma fica com
o desejo de tornar a padecer aquela dor amorosa que ela lhe causa. – Aqui não há que pensar se é coisa movida
pelo mesmo natural, ou causada pela melancolia, nem tão-pouco se é engano do demónio, ou
se é coisa que se lhe afigurou; porque se deixa muito bem entender vir este movimento
de onde está o Senhor que é imutável; e as operações não são como as de outras
devoções, nas quais o muito embevecimento do gosto nos pode fazer duvidar. Aqui estão
todos os sentidos e potências sem embevecimento, olhando ao que poderá ser, sem estorvar em
nada, nem poderem acrescentar aquela pena deleitosa, nem tirá-la, a meu parecer. A quem Nosso Senhor fizer esta mercê, (que,
se lha tem feito, em lendo isto o entenderá) dê-Lhe muitas e muitas graças, pois não
tem que temer se é ou não engano; tema muito se há-de vir a ser ingrato a tão grande
mercê, e procure esforçar-se em servir e a melhorar em tudo a sua vida, e verá no
que pára, e como recebe mais e mais. Uma pessoa que teve isto, passou alguns anos assim,
e só com aquela mercê estava bem satisfeita, pois, se servisse ao Senhor uma multidão
de anos, com grandes trabalhos, ficava com ela muito bem paga. Bendito seja Ele para sempre, amen. – Poderá ser que repareis como nisto há
mais segurança do que noutras coisas. A meu parecer, é por estas razões: a primeira,
porque jamais o demónio pode dar uma pena saborosa como esta. Poderá dar sabor e deleite que pareça espiritual;
mas juntar pena, e tanta, com quietude e gosto da alma, não é da sua faculdade, pois todos
os seus poderes estão por fora, e as suas penas, quando ele as dá, nunca são, a meu
parecer, saborosas nem com paz, senão inquietas e com guerra. A segunda razão é porque esta
tempestade saborosa vem de outra região, sem ser das que ele pode senhorear. A terceira, pelos grandes proveitos que ficam
na alma, os quais são, muito habitualmente, determinar-se a padecer por Deus e desejar
ter muitos trabalhos e ficar muito mais determinada a apartar-se dos contentos e conversações
da terra, e outras coisas semelhantes. – O não ser ilusão, está muito claro; porque,
ainda que outras vezes o procure, não poderá contra-fazer aquilo. E é coisa tão notória,
que de nenhuma maneira isso se pode afigurar, digo parecer que é, não sendo, nem duvidar
de que é verdade; e se alguma dúvida ficar, saibam que esses ímpetos não são verdadeiros;
digo, se duvidar se os teve ou não; porque assim se dá a sentir, como aos ouvidos uma
grande voz. E ser melancolia não leva nenhum caminho, pois a melancolia não faz nem fabrica
seus antolhos senão na imaginação; isto, ao contrário, procede do interior da alma. Bem pode ser que eu me engane, mas até ouvir
outras razões a quem o entenda, sempre estarei nesta opinião; assim sei de uma pessoa muito
cheia de temor destes enganos, que desta oração nunca o pode ter. – Também costuma Nosso Senhor ter outras
maneiras de despertar a alma: a qualquer hora, estando a rezar vocalmente e descuidada de
coisa interior, parece que lhe vem uma inflamação deleitosa, como se de repente viesse um olor
tão grande, que se comunicasse por todos os sentidos, (não digo que é olor, mas ponho
esta comparação) ou coisa de este género, só para dar a sentir que está ali o Esposo;
e move um desejo saboroso de a alma gozar d’Ele, e com isto fica disposta para fazer
grandes actos e louvores a Nosso Senhor. Esta mercê nasce de onde já ficou dito;
mas aqui não há coisa que dê pena, nem mesmo os desejos de gozar de Deus são penosos:
isto é o mais habitual senti-lo a alma. Tão-pouco me parece haver que temer, por algumas das
razões já ditas, senão procurar admitir esta mercê com acção de graças. CAPÍTULO, 3º. Trata da mesma matéria e
diz a maneira como Deus fala à alma, quando é servido, e avisa como se hão-de haver
nisto, e não seguir o seu próprio parecer. Dá alguns sinais para se conhecer quando
não é engano, e quando o é. É muito proveitoso. – Outra maneira tem Deus de despertar a alma;
embora, de algum modo, pareça maior mercê que as já ditas, poderá ser mais perigosa
e por isso me deterei um tanto nela. São umas falas com a alma, de muitas maneiras:
umas, parece que vêm de fora; outras, do muito interior da alma; outras, da parte superior
dela e outras, tão do exterior, que se ouvem com os ouvidos, porque parece que é voz formada.
Algumas vezes, e muitas, pode ser ilusão, em especial em pessoas de imaginação fraca
ou melancólicas, digo de melancolia notável. – Destas duas maneiras de ser das pessoas
não há que fazer caso, a meu parecer, ainda que digam que vêem e ouvem e entendem, nem
inquietá-las com dizer-lhes que é demónio; mas ouvi-las como pessoas enfermas, dizendo
a prioresa ou o confessor, a quem lho disser, que não faça caso disso; não está aí
o essencial para servir a Deus e que muitos têm sido enganados pelo demónio, ainda que
não será talvez assim com ela, e isto para não a afligir mais do que já está com o
seu humor doentio; porque, se lhe dizem que é melancolia, é um não acabar: jurará que o vê e ouve, porque assim lhe
parece. – Verdade é que é preciso ter cuidado de
lhes tirar a oração, e procurar o mais que se puder que não façam caso disso; porque
o demónio costuma aproveitar-se destas almas assim enfermas, embora não seja para seu
dano, mas para o de outros; e tanto em enfermas como em sãs, sempre há que temer destas
coisas, até ir entendendo o espírito que é. E digo que o melhor é sempre desfazer-lho
nos princípios; porque, se é de Deus, é maior ajuda para ir adiante, e antes cresce
quando é contrariado. Isto é assim, mas que não seja apertando
muito a alma e inquietando-a, porque verdadeiramente ela não pode mais. – Pois, voltando ao que dizia das falas com
a alma, de todas as maneiras que disse, podem ser de Deus e também do demónio e da própria
imaginação. Direi, se acertar, com o favor do Senhor, os sinais que há nestas diferenças
e quando estas falas serão perigosas. Porque há muitas almas que as ouvem entre gente
de oração, e eu não quereria, irmãs, que pensásseis que fazeis mal em não lhes dar
crédito, nem tão-pouco em dar-lho, quando são somente para vós mesmas, isto é: de
consolação, ou aviso de faltas vossas; diga-as quem as disser, ou seja ilusão ou não, pouco
vai nisso. De uma coisa vos aviso: não penseis, embora
sejam de Deus, que por isso sereis melhores pois muito falou Ele aos fariseus, e todo
o bem está em como se aproveitam destas palavras. E de nenhuma que não vá muito conforme à
Sagrada Escritura não façais mais caso delas do que se as ouvísseis ao mesmo demónio;
porque, ainda mesmo que sejam só da vossa fraca imaginação, é preciso tomarem-se
como sendo uma tentação contra. coisas de fé, e assim resistir-lhes sempre,
para que se vão afastando; e; de. facto, virão a desaparecer porque trazem consigo
pouca força. – Pois, voltando ao primeiro, quer venha do
interior, quer da parte superior, quer do exterior, isso não importa para deixar de
ser de Deus. Os sinais mais certos que se podem ter, a meu parecer, são estes: o primeiro
e mais verdadeiro, é o poderio e senhorio que trazem consigo, que é falando e operando.
Declaro mais. Está uma alma em toda a tribulação e alvoroto interior que fica dito, e escuridão
do entendimento e aridez. E, com uma palavra destas, que diga somente:
«não tenhas pena», fica sossegada e sem nenhuma pena, e com grande luz, desaparecendo
toda aquela pena, em que lhe parecia que, se todo o mundo e os letrados se juntassem
a dar-lhe razões para que não a tivesse, não poderiam, por muito que trabalhassem,
tirá-la daquela aflição. Está aflita por lhe ter dito o seu confessor,
ou outros, que é espírito do demónio o que ela tem, e toda ela está cheia de temor;
e, com uma só palavra destas que se lhe diga: «Sou Eu, não tenhas medo», desaparece todo
o medo e fica consoladíssima, parecendo-lhe que ninguém conseguirá fazer-lhe crer outra
coisa. Está com muita pena de alguns negócios graves, pois não sabe que resultado irão
ter. Mas, entendendo que lhe dizem que «sossegue, que tudo sucederá bem», fica com uma grande
certeza e sem pena. E deste modo, outras muitas coisas. – A segunda razão ou sinal é uma grande
quietude que fica na alma, e um recolhimento devoto e pacífico, ficando ela assim disposta
para os louvores de Deus. Oh! Senhor, se uma palavra mandada dizer por meio de um Vosso
pajem, (pois segundo dizem, estas ao menos nesta morada, não as diz o mesmo Senhor,
mas sim algum anjo) tem tanta força, a que ponto a deixareis na alma que está ligada
por amor conVosco, e Vós com ela? – O terceiro sinal é não se apagarem estas
palavras da memória durante muito tempo, e algumas nunca, como se apagam as que ouvimos
cá na terra, digo as que ouvimos aos homens; pois, ainda que sejam muito graves e letrados,
não nos ficam tão esculpidas na memória, nem mesmo se são de coisas por vir, as acreditamos
como a estas; é que fica uma grandíssima certeza, embora
algumas vezes em coisas muito impossíveis ao parecer, não deixe de lhe vir a dúvida
se será ou não será, e o entendimento ande com algumas vacilações, na mesma alma há,
no entanto, uma segurança que não se pode render, ainda mesmo que lhe pareça que vai
tudo ao contrário do que entendeu; e passam anos, e não se lhe tira aquele pensar que
Deus buscará outros meios que os homens não entendem, mas que, enfim, se há-de fazer
e assim se faz por fim; ainda que, como digo, não se deixa de padecer
quando se vêem muitos desvios, porque, como já há tempos que o entendeu, e os sinais
e a certeza que ao presente ficam de ser aquilo de Deus é já de coisas do passado, dá lugar
a estas hesitações, pensando se foi do demónio, se foi da imaginação; contudo nenhuma destas
dúvidas lhe fica ao presente, e até morreria por aquela verdade. Mas, como digo, com todas estas imaginações
que o demónio levanta para perturbar e acobardar a alma, em especial se é em negócio que
em fazer-se tal qual se entendeu há de advir muito bem às almas, e são obras de grande
honra e serviço de Deus, e nelas há grande dificuldade, o que não fará ele? Ao menos
enfraquece a fé, pois é grande dano não crer que Deus é poderoso para fazer obras
que não alcançam os nossos entendimentos. – Apesar de todos estes combates, ainda que
haja quem diga à mesma pessoa que são disparates, (digo os confessores com quem se tratam estas
coisas) e apesar dos maus sucessos que pode haver para dar a entender que essas coisas
não se podem cumprir, sempre fica – não sei onde, – uma centelha tão viva, de que
assim será que, embora todas as demais esperanças estejam mortas, não poderia, ainda mesmo
que quisesse, deixar de estar viva aquela centelha de segurança. E por fim – como já disse, – cumpre-se a
palavra do Senhor e a alma fica tão contente e alegre, que não quereria senão louvar
sempre a Sua Majestade, por ver cumprido o que se lhe tinha dito, muito mais do que pela
própria obra, ainda que nela se empenhasse muito, muito. – Não sei de que vem isto, que a alma tenha
em tanto apreço que saiam verdadeiras estas palavras de Deus, pois, se a mesma pessoa
fosse apanhada em algumas mentiras, creio que não o sentiria tanto; como se ela nisto
pudesse mais do que dizer o que lhe dizem. Infinitas vezes se lembrava acerca disto certa
pessoa do profeta Jonas, quando temia que não se houvesse de perder Nínive. Enfim;
como é espírito de Deus, é razão que se lhe tenha esta fidelidade em desejar que não
O tenham por falso, pois é a suma Verdade. E assim é grande a alegria quando, depois
de mil rodeios, e em coisas dificultosíssimas, vê aquilo cumprido; e ainda que daí hajam
de sobrevir grandes trabalhos à mesma pessoa, ela antes os quer sofrer, do que deixar-se
de cumprir o que tem por certo ter-lhe dito o Senhor. Talvez nem todas as pessoas terão esta fraqueza,
se o é, que eu isto não posso condenar por mau. – Se são da imaginação, não há nenhum
destes sinais, nem certeza, nem paz e gosto interior; salvo que poderia acontecer, e até eu sei
de algumas pessoas a quem tem acontecido, estando muito embebidas em oração de quietude
e sono espiritual, pois algumas são fracas de compleição ou imaginação, ou não sei
a causa, neste grande recolhimento estão verdadeiramente tão fora de si, que não
se sentem no exterior e ficam tão adormentados todos os sentidos, que, como uma pessoa que
dorme e até talvez seja assim e estejam adormecidas, a modo de sonho lhes parece que lhes falam,
e até vêem coisas e pensam que é de Deus, e que deixam na alma seus efeitos, enfim,
como de sonho. E também poderia ser, pedindo uma coisa afectuosamente
a Nosso Senhor, parecer-lhes que lhes dizem o que querem e isto acontece algumas vezes.
Mas quem tiver muita experiência das falas de Deus, não se poderá enganar – a meu parecer
– nisto da imaginação. – Do demónio há mais que temer. Mas, se há os sinais que ficam ditos, muito
se pode assegurar ser de Deus, embora não de maneira que, se é coisa grave o que se
lhe diz, e se se há-de pôr por obra em coisa sua ou em negócios de terceiras pessoas,
nunca faça nada, nem lhe passe pelo pensamento fazê-lo sem a opinião de confessor letrado
e avisado e servo de Deus; e isto, ainda mesmo que o entenda muito bem
e lhe pareça claramente ser coisa de Deus, porque é o que Sua Majestade quer, e não
é deixar de fazer o que Ele manda, pois nos tem dito que tenhamos ao confessor em Seu
lugar, e aqui não se pode duvidar serem palavras Suas; e estas ajudam a ter ânimo, se é negócio
dificultoso, e Nosso Senhor o dará ao confessor e fará que ele creia que é espírito Seu,
quando Ele o quiser, e se não, não estão a mais obrigados. E fazer outra coisa sem ser o que fica dito,
e alguém guiar-se nisto pelo seu próprio parecer, tenho-o por coisa muito perigosa;
e assim admoesto-vos, irmãs, da parte de Nosso Senhor, que nunca isto vos aconteça. – Tem o Senhor outra maneira de falar à alma,
que eu tenho para mim por muito certo ser de Sua parte: por meio de alguma visão intelectual,
que adiante direi como é. É tão no íntimo da alma, e parece-lhe ouvir tão claro do
mesmo Senhor aquelas palavras com os ouvidos da alma, e tão em segredo, que a mesma maneira
de as entender, com as operações que produz a mesma visão, assegura e dá certeza de
que ali o demónio não pode ter parte. Deixa grandes efeitos para se crer isto; pelo
menos, há segurança de que não procede da imaginação, e também, se há advertência,
sempre disto a pode ter, por estas razões: A primeira, porque deve ser diferente na clareza
da fala, que é tão clara que, se falta uma silaba daquilo que entendeu, se lembra, e
se foi dito por um estilo ou por outro, embora seja tudo a mesma sentença; e naquilo que
se afigure pela imaginação, não será fala tão clara, nem palavras tão distintas, senão
como coisa meio sonhada. – A segunda é porque não se pensava aqui
muitas vezes no que se entendeu – digo que é a desoras e até algumas vezes estando
em conversação, – embora em muitas se responda ao que passa num pronto pelo pensamento ou
ao que antes se tinha pensado; mas muitas vezes é em coisas que nunca teve ideia de
que poderiam ser nem seriam; e assim não as poderia ter fabricado a imaginação para
que a alma se enganasse em se lhe afigurar o que não tinha desejado, nem querido, nem
tinha vindo ao seu conhecimento. – A terceira razão é porque isto é como
quem ouve; e o da imaginação é como quem vai compondo, pouco a pouco, o que ele mesmo
quer que lhe digam. – A quarta, porque as palavras são muito
diferentes, e com uma só se compreende muito, o que o nosso entendimento não poderia compor
tão depressa. – A quinta, porque muitas vezes, juntamente
com as palavras, por um modo que eu não saberei dizer, dá-se a entender, sem palavras, muito
mais do que elas soam. Deste modo de entender, falarei mais noutra
parte, pois é coisa muito delicada e para louvar a Nosso Senhor. É que, nesta maneira
e nestas diferenças tem havido pessoas que ficam muito duvidosas, (em especial uma por
quem isto passou, e assim haverá outras) que não chegam a entender-se. Sei, pois,
que essa pessoa tem olhado a isto com muito cuidado, porque têm sido muitas as vezes
que o Senhor lhe faz esta mercê, e a maior dúvida que tinha a princípio era nisto:
se era ilusão. O ser do demónio, mais depressa se pode entender,
ainda que são tantas as suas subtilezas que bem sabe contrafazer o espírito de luz; mas
será – a meu parecer – só nas palavras, dizendo-as muito claras, para que também
não fique dúvida se se entenderam tal como quando são do Espírito de Verdade; mas não
poderá contrafazer os efeitos que ficam ditos, nem deixar essa paz e essa claridade na alma;
antes, inquietação e alvoroto. Mas pode fazer pouco dano, ou nenhum, se a
alma é humilde e faz o que tenho dito de não se mover a fazer nada, por mais coisas
que oiça. – Se são favores e regalos do Senhor, veja
com atenção se, por causa disto, se tem por melhor; c se, quando for maior a palavra
de regalo, não ficar mais confundida, creia que não é espírito de Deus. Porque é coisa muito certa que, quando o
é, quanto maior mercê lhe faz, em tanto menos se tem a mesma alma, e maior lembrança
lhe traz de seus pecados, e mais olvidada anda de seu próprio lucro, e mais emprega
sua vontade e memória em só querer a honra de Deus; nem se recorda do seu próprio proveito,
e anda com maior temor de torcer em alguma coisa a Sua divina vontade, e com maior certeza
de nunca ter merecido aquelas mercês, mas sim o inferno. Logo que façam estes efeitos todas as coisas
e mercês que tiver na oração, não ande a alma assustada, mas confiada na misericórdia
do Senhor, que é fiel, e não deixará que o demónio a engane, ainda que é bom andar
sempre com temor. – Poderá ser que, àquelas que o Senhor não
leva por este caminho, lhes pareça que estas almas poderiam não escutar estas palavras
que lhes dizem e, se são falas interiores, distrair-se de maneira a não as admitirem,
e com isto andariam sem estes perigos. A isto respondo que é impossível: não falo
das que se lhes afigura que ouvem, pois não estando a apetecer tanto alguma coisa, nem
querendo fazer caso das imaginações, têm remédio. Aqui não há nenhum, porque o mesmo
espírito que fala, de tal maneira faz parar todos os outros pensamentos e advertir ao
que se diz que, em certo modo, seria mais possível, me parece e creio ser assim, uma
pessoa que ouvisse muito bem não entender a outra que falasse em altas vozes. Poderia
não advertir, e pôr o pensamento e o entendimento em outra coisa. Mas nisto de que tratamos não se pode fazer
assim. Não há ouvidos que se tapem, nem poder para
pensar, a não ser no que se lhe diz; porque O que fez parar o sol – a pedido de Josué
creio que era – pode fazer parar as potências e todo o interior. De maneira que a alma vê bem que outro maior
Senhor do que ela governa aquele castelo, e isto faz-lhe muita devoção e ter muita
humildade. Assim é que, para se escusar a isto, não há nenhum remédio. No-lo dê
a divina Majestade para pormos os olhos só em O contentar e nos esqueçamos de nós mesmos,
como tenho dito, amen. Praza-Lhe que eu tenha acertado em dar a entender o que nisto, – pretendia,
e seja um aviso para quem tiver estas coisas. CAPÍTULO, 4º. Trata de quando Deus suspende
a alma na oração com arroubamento, ou êxtase, ou rapto, que tudo é uma mesma coisa, a meu
parecer e como é mister grande ânimo para receber grandes mercês de Sua Majestade. – Com estas ditas coisas de trabalhos e as
demais, que sossego pode trazer a pobre borboletazinha? Tudo é para mais desejar gozar do Esposo;
e Sua Majestade, como quem conhece a nossa fraqueza, vai-a habilitando com estas coisas
e outras muitas, para que tenha ânimo de se unir a tão grande Senhor e tomá-Lo por
Esposo? – Rir-vos-eis de que diga isto, e parecer-vos-á
desatino; porque a qualquer de vós vos parecerá que não é preciso tê-lo e não haverá
nenhuma mulher de tão humilde condição, que o não tenha para desposar-se com o rei.
Assim o creio eu comum da terra; mas com O do Céu, eu vos digo ser preciso mais ânimo
do que pensais; porque o nosso natural é muito tímido e baixo para tão grande coisa,
e tenho por certo que, se Deus não lho desse, apesar de quanto vedes e de quanto nos convém,
seria impossível tê-lo. E assim vereis o que faz Sua Majestade para
concluir este desposório, que eu entendo deve ser quando dá arroubamentos, que a tira
de seus sentidos; porque se estando neles se visse tão perto desta grande Majestade,
não seria possível porventura ficar com vida…
Entende-se arroubamentos que o sejam, e não fraquezas de mulheres, como por cá temos,
que tudo nos parece arroubamento e êxtase, e, – como creio já ter dito, – há compleições
tão fracas que, com uma oração de quietude, quase que morrem. Quero deixar aqui algumas maneiras que tenho
entendido haver de arroubamentos (por ter trato com tantas pessoas espirituais) embora
não sei se acertarei a dizê-lo como disse em outra parte onde escrevi sobre isto e algumas
coisas das que vão aqui que, por algumas razões, me pareceu que nada se perde em as
tornar a dizer, ainda mesmo quando não seja senão para que as moradas fiquem todas aqui
por junto. – Uma das maneiras é que, estando a alma,
ainda mesmo que não seja em oração, tocada de alguma palavra de que se lembrou, ou que
então ouve de Deus, parece que Sua Majestade desde o interior da alma faz crescer a centelha
que já dissemos, movido de piedade de a ter visto padecer tanto tempo com desejo d’Ele
e, abrasada toda ela como uma ave Fénix, fica renovada e, piedosamente se pode crer,
perdoadas as suas culpas, (há-de-se entender, com a disposição e os meios que esta alma
terá tido, como a Igreja o ensina.) E assim limpa, o Senhor a une consigo, sem
ainda ninguém o entender, a não ser os dois, nem ainda a mesma alma o entende de modo a
podê-lo depois dizer, conquanto não esteja sem sentidos interiores; porque não é como
quem é tomado de desmaio ou paroxismo em que não entende nenhuma coisa interior nem
exterior. – O que eu entendo neste caso é que a alma
nunca esteve tão desperta para as coisas de Deus, nem com tão grande luz e conhecimento
de Sua Majestade. Parecerá impossível, porque, se as potências estão tão absortas, que
podemos até dizer que estão mortas, e os sentidos na mesma, como se pode entender que
entende esse segredo? Eu não sei, nem talvez nenhuma criatura, senão o mesmo Criador,
assim como outras muitas coisas que se passam neste estado, digo nestas duas moradas; pois
esta e a última poder-se-iam juntar muito bem, porque, de uma à outra, não há porta
cerrada. Mas, porque na última há coisas que ainda
se não manifestaram aos que não chegaram a ela, pareceu-me bem separá-las. – Quando, estando a alma nesta suspensão,
o Senhor tem por bem mostrar-lhe alguns segredos, como de coisas do Céu e visões imaginárias,
isto sabe dizê-lo depois e de tal maneira fica impresso na memória, que nunca jamais
se esquece; mas, quando são visões intelectuais, estas tão-pouco as sabe dizer; porque deve
haver a este tempo algumas tão subidas, que não convém que as entendam os que vivem
nesta terra para as poderem dizer, embora estando a alma sã e em seus sentidos, se
possam por cá dizer muitas destas visões intelectuais. Poderá ser que algumas de vós não entendais
que coisa sejam visões, em especial intelectuais. Eu o direi a seu tempo, porque mo mandou quem
pode; e, ainda que, pareça coisa impertinente, talvez para algumas almas seja de proveito. – Mas dir-me-eis: se depois não há-de haver
lembrança dessas mercês tão subidas que o Senhor aí faz à alma, que proveito lhe
trazem? Oh! filhas, é tão grande que nem se pode encarecer; porque, embora não se
saibam dizer, lá no muito interior da alma ficam bem escritas e jamais se esquecem. Pois, se não têm imagem, nem as entendem
as potências, como se podem lembrar? Tão-pouco entendo eu isso; mas entendo que ficam nesta
alma umas verdades tão fixas da grandeza de Deus, que, ainda que não tivera fé que
lhe diga quem Ele é, e que está obrigada a tê-Lo por Deus, adorá-Lo-ia como tal,
desde aquele momento, como fez Jacob, quando viu a escada; porque com ela devia ter entendido
outros segredos que não soube dizer, pois só com ver uma escada por onde desciam e
subiam anjos, se não tivesse tido mais luz interior, não teria entendido tão grandes
mistérios. – Não sei se atino no que digo, porque embora
o tenha ouvido, não sei se me recordo bem. Nem tão-pouco Moisés soube dizer tudo o
que viu na sarça, senão o que Deus quis que dissesse: Mas, se Deus não mostrasse
à alma alguns segredos, certamente para que visse e cresse que era Deus, não se meteria
em tantos e tão grandes trabalhos. Mas deve ter entendido tão grandes coisas dentro dos
espinhos daquela sarça, que lhe deram ânimo para fazer o que fez pelo povo de Israel. Assim, irmãs, nas coisas ocultas de Deus
não havemos de buscar razões para as entender, mas, assim como cremos que é poderoso, está
claro que havemos de crer que um vermezinho de tão limitado poder como nós, não pode
entender Suas grandezas. Louvemo-l’O muito, porque é servido que entendamos algumas. – Estou desejando acertar com uma comparação
para ver se posso dar a entender alguma coisa disto que vou dizendo e creio não haver nenhuma
que quadre, mas digamos esta: entrais num aposento de um rei ou grande senhor, creio
lhe chamam câmara, onde tem infinitos géneros de vidros e loiças e muitas coisas, postas
em tal ordem, que quase todas se vêem logo ao entrar. Uma vez me levaram a um destes aposentos em
casa da duquesa de Alba, (onde, vindo de caminho, me mandou estar a obediência, por esta senhora
ter importunado os superiores com pedidos) e fiquei espantada logo ao entrar e considerava
para que podia aproveitar aquela barafunda de coisas, e via que se podia louvar ao Senhor
ao ver tamanha diversidade. Agora acho graça como me aproveita para isto que digo. E, ainda que estive ali algum tempo, era tanto
o que havia para ver, que logo me esqueci de tudo, de maneira que de nenhuma daquelas
peças, me ficou mais memória como se nunca as tivesse visto, nem saberia dizer de que
feitura eram; (mas, assim em conjunto, lembro-me de o ter visto.) Assim aqui; está a alma tão unida com Deus,
metida neste aposento do céu empíreo, que devemos ter no interior das nossa almas; (porque
está claro que, visto Deus estar nelas, está nalguma destas moradas) e ainda que, quando
a alma está assim em êxtase, nem sempre o Senhor deve querer que veja estes segredos,
(porque está tão embebida em gozá-Lo, que lhe basta tão grande bem) algumas vezes gosta,
no entanto, que ela se desembeveça e veja de repente o que está naquele aposento; e
assim fica, depois de voltar a si, com aquela representação das grandezas que viu; mas não pode dizer nenhuma, nem o seu natural
chega a mais do que ao sobrenatural que Deus quis que ela visse. – Logo já confesso o que foi ver, e o que
é visão imaginária. Não quero dizer tal, pois não é disto que trato, senão de visão
intelectual; mas, como não tenho letras, a minha rudeza não sabe dizer nada; pois,
o que tenho dito até aqui, nesta oração, entendo claramente que, se vai bem, não fui
eu que o disse. Eu tenho para mim que, se algumas vezes a
alma, a quem Deus deu arroubamento, não entende neles destes segredos; não são arroubamentos,
senão alguma fraqueza natural, que pode dar a pessoas de fraca compleição, como somos
nós as mulheres, juntamente com alguma força de espírito que sobrepuje o natural, e ficam-se
assim embevecidas, como creio ter dito na oração de quietude. Isto nada tem a ver com arroubamentos, porque,
quando é arroubamento, crede que Deus rouba toda a alma para Si, e que, como a coisa própria
Sua e já Sua esposa, lhe vai mostrando alguma partezinha do reino que já ganhou por ser
Sua esposa; e, por pouco que seja, é tudo muito o que há neste grande Deus, e não
quer estorvo de ninguém, nem das potências, nem dos sentidos; senão, depressa manda fechar
as portas de todas estas moradas, e só aquela em que Ele está fica aberta, para nós entrarmos. Bendita seja tão grande misericórdia; e
com razão serão malditos os que não quiserem aproveitar-se dela, e perderem este Senhor. – Oh! irmãs minhas, que não é nada o que
deixámos, nem nada o que fazemos, nem quanto pudermos fazer por um Deus que assim se comunica
a um vermezinho! E, se temos esperança de ainda nesta vida gozar deste bem, que fazemos
e em que nos detemos? Que coisa é bastante para que deixemos um
só momento de buscar a este Senhor, como o fazia a Esposa, por bairros e praças? Oh!
e que farsa é tudo o que há no mundo, se não nos leva e ajuda a isto, ainda mesmo
que durassem para sempre os seus deleites, riquezas e gozos, todos quantos se puderem
imaginar, que tudo é asco e lixo, comparado a estes tesouros que se hão-de gozar sem
fim! Mesmo estes são nada em comparação de ter por nosso ao Senhor de todos os tesouros
do Céu e da terra. – Oh cegueira humana! Até quando, até quando
estaremos até que nos caia esta terra de nossos olhos? Pois, embora entre nós não
parece ser tanta que nos cegue de todo, vejo uns argueirinhos, umas manchazinhas que, se
os deixamos crescer, bastarão para nos fazer grande dano; senão que, por amor de Deus,
irmãs, aproveitemo-nos destas faltas para conhecer a nossa miséria e elas nos dêem
melhor vista, como a deu o lodo ao cego a quem sarou o nosso Esposo. E assim, vendo-nos tão imperfeitas, cresça
mais em nós o suplicar-Lhe que tire bens das nossas misérias, para em tudo contentarmos
a Sua Majestade. – Muito me tenho desviado do assunto sem o
perceber. Perdoai-me, irmãs, e crede que, chegada a estas grandezas de Deus, digo a
falar delas, não pode deixar de me dar muita lástima ver o que perdemos por nossa culpa.
Porque, embora seja verdade que são coisas que o Senhor dá a quem Ele quer, se quiséssemos
a Sua Majestade como Ele nos quer, dá-las-ia a todos. Não está desejando outra coisa
senão ter a quem dar, que por isso não se diminuem Suas riquezas. – Tornando, pois, ao que dizia, manda o Esposo
cerrar as portas das moradas e até as do castelo e da cerca; porque, em querendo arrebatar
a esta alma, tira-se-lhe o fôlego de maneira que, embora dure algumas vezes um pouquinho
mais na posse dos outros sentidos, de nenhum modo pode falar; ainda que de outras vezes
tudo se lhe tira de repente e resfriam-se as mãos e o corpo, de modo que não parece
ter alma, nem se percebe algumas vezes se respira. Isto dura pouco tempo, digo, para estar num
mesmo ser; porque, atenuando-se um pouco esta grande suspensão, parece que o corpo volta
um tanto a si e toma alento para tornar a morrer e dar maior vida à alma, e, no entanto,
isto não dura muito neste tão grande êxtase; – mas, ainda que se tira a suspensão, acontece
ficar a vontade tão embevecida e o entendimento tão alheio, que dura assim o dia e até dias,
que parece não é capaz de atender a coisa que não seja para despertar a vontade a amar
e ela ali se fica muito desperta para isto e adormecida para se lançar a apegar-se a
alguma criatura. – Oh! quando a alma torna já de todo a si,
quanta não é a confusão que lhe fica, e que desejos tão grandes de se empregar em
Deus, de todas as maneiras que Ele se quiser servir dela! Se das orações passadas já
ficam tais efeitos como os que ficam ditos, que será de uma mercê tão grande corno
esta? Quereria ter mil vidas para as empregar todas em Deus, e que todas quantas coisas
há na terra fossem línguas para O louvar por ela. Desejos de fazer penitência, grandíssimos;
e não faz muito em a fazer, porque, com a força do amor, sente pouco quanto faz, e
vê claramente que os mártires não faziam muito nos tormentos que padeciam, porque,
com esta ajuda da parte de Nosso Senhor, é fácil, e assim se queixam estas almas a Sua
Majestade quando não se lhes oferece em que padecer. – Quando esta mercê lhes é feita em segredo,
têm-na por muito grande; porque, quando é diante de algumas pessoas, é tão grande
a vergonha e afronta que lhes fica, que de algum modo embevece a alma do, que gozou,
com a pena e cuidado que lhe dá o pensar no que pensarão os que isto viram. Porque
conhecem a malícia do mundo, e entendem que não o lançarão porventura à conta do que
é, mas antes aquilo por que haviam de louvar ao Senhor, talvez seja ocasião para eles
fazerem maus juízos. Esta pena e vergonha parece-me de certo modo
falta de humildade; mas isto já não está em sua mão; porque, se esta pessoa deseja
ser vituperada, que lhe importa? Como entendeu alguém, que estava nesta aflição,
da parte de Nosso Senhor: «Não tenhas pena, porque, ou eles Me hão-de louvar a Mim, ou
murmurar de ti; e em qualquer destas coisas ganhas tu». Soube depois que esta pessoa
se tinha animado muito e consolado com estas palavras; e assim, para o caso de alguma se
vir nesta aflição, as deixo aqui. Parece que Nosso Senhor quer que todos entendam
que aquela alma é já Sua, e que ninguém há-de tocar nela; no corpo, na honra, na
fazenda, seja em muito boa hora, pois de tudo se tirará honra para Sua Majestade; mas na
alma, isso não; pois se ela, com muito culpável atrevimento, não se aparta de Seu Esposo,
Ele lhe será amparo contra todo o mundo e até contra todo o, inferno. – Não sei se fica dado a entender algo do
que seja o arroubamento, porque tudo é impossível, como disse; e creio não se ter perdido nada
em o dizer, para se poder entender o que é, porque há efeitos muito diferentes nos fingidos
arroubamentos. Não digo fingidos, porque quem os tem queira enganar, mas porque o está
ela própria; e como os sinais e efeitos não são conformes a tão grande mercê, fica
desacreditada de tal maneira que, com razão, não se dá depois crédito a quem o Senhor
fizer esta mercê. Seja Ele para sempre bendito e louvado, amen, amen. CAPÍTULO, 5º. Prossegue no mesmo assunto,
e declara uma maneira como Deus levanta a alma com um voo de espírito, de modo diferente
ao que fica dito. Diz algumas das razões porque é mister ânimo. Declara alguma coisa
desta mercê que o Senhor faz por saborosa maneira. É muito proveitoso. – Há outra maneira de arroubamento, voo de
espírito lhe chamo eu; pois, ainda que tudo seja um na substância, no interior sente-se
muito diferentemente; porque, algumas vezes, sente-se muito repentinamente um movimento
tão acelerado da alma, que parece que o espírito é arrebatado com uma velocidade que deixa
grande temor, em especial nos princípios. Por isso vos dizia que é preciso ânimo grande
z a quem Deus há-de fazer estas mercês, e ainda grande fé e confiança e resignação
para que Nosso Senhor faça da alma o que quiser. Pensais que é pouca turbação estar uma
pessoa muito em seus sentidos e ver-se arrebatar a alma? E até de alguns temos lido que o
corpo vai com ela, sem saber para onde, ou, quem a leva ou como; porque no princípio
deste momentâneo movimento não há tanta certeza de que é Deus. – Haverá, pois, algum remédio para se poder
resistir? De nenhum modo; antes é pior. E eu sei isto por uma pessoa, que parece querer
Deus dar a entender à alma, pois já tantas vezes e tão deveras se tem colocado em Suas
mãos, e com tão inteira vontade se Lhe ofereceu toda para que entenda que já não tem parte
em si mesma e com um movimento notavelmente mais impetuoso, é arrebatada; e por si tomava
a resolução de não fazer mais do que faz uma palha, quando a levanta o âmbar, se já
o tendes visto, e deixar-se ir nas mãos de Quem tão poderoso é, pois vê que o mais
acertado é fazer da necessidade virtude. E, como falei da palha, é certo que é mesmo
assim, pois com a facilidade com que um grande mocetão pode arrebatar uma palha, este nosso
grande e poderoso gigante arrebata o espírito. – Não parece senão que aquele tanque de
água que dissemos – creio na quarta morada, pois não me recordo bem ? que com tanta suavidade
e mansidão, digo sem nenhum movimento, se enchia, aqui, este grande Deus, que detém
os mananciais das águas e não deixa sair o mar de seus limites, abriu os mananciais
donde vinha a água a este tanque; e com um grande ímpeto se levanta uma onda tão poderosa,
que sobe ao alto esta barquinha da nossa alma. E assim, como uma nau não pode conservar-se
quieta nem o piloto, nem todos os que a governam têm poder para que as ondas, se vêm com
fúria; a deixem estar onde eles querem, muito menos pode o interior da alma deter-se onde
quer, nem fazer com que seus sentidos e potências façam mais do que lhes têm mandado, porque
do exterior aqui não se faz caso dele. – É certo, irmãs, que só de o ir escrevendo,
me vou enchendo de espanto ao ver como se mostra aqui o grande poder deste grande Rei
e Imperador; o que fará pois quem passa por isso! Tenho para mim que, se aos que andam
muito perdidos pelo mundo, se lhes descobrisse Sua Majestade como o faz a estas almas, ainda
que não fosse por amor, por medo não O ousariam ofender. Oh! quão obrigadas estarão, pois, as que
foram avisadas, por caminho tão subido, a procurar com todas as suas forças não desgostar
a este Senhor! Por Ele vos suplico, irmãs, àquelas a quem Sua Majestade tiver feito
estas mercês ou outras semelhantes, que não vos descuideis com não fazer mais do que
receber; olhai que, quem muito deve, muito há-de pagar. – Para isto também é preciso grande ânimo,
pois é uma coisa que acobarda de grande modo; e se Nosso Senhor não lho desse, andaria
sempre com grande aflição; porque, olhando ao que Sua Majestade faz com
ela, e tornando a olhar para si, vê quão pouco serve para o que está obrigada, e esse
poucochinho que faz, tão cheio de faltas e quebras e frouxidão, tem por melhor, a
fim de não se lembrar de quão imperfeitamente faz qualquer obra, se a faz, procurar que
ela se lhe esqueça e trazer diante dos olhos seus pecados e esconder-se na misericórdia
de Deus, pois, já que não tem com que pagar, supra a piedade e misericórdia que Ele sempre
tem com os pecadores. – Talvez o Senhor lhe responda como a uma
pessoa que estava muito aflita neste ponto diante de um crucifixo, considerando que nunca
tinha tido nada que dar a Deus, nem que deixar por Ele. Disse-lhe o mesmo Crucificado consolando-a:
que Ele lhe dava todas as dores e trabalhos que tinha passado em Sua Paixão, que os tivesse
por próprios para os oferecer a Seu Pai. Ficou aquela alma tão consolada e tão rica,
segundo entendi dela mesma, que não o pôde esquecer; antes, cada vez que se vê tão
miserável, recordando-se disto, fica animada e consolada. Algumas coisas destas poderia eu dizer aqui,
porque, como tenho tratado com tantas pessoas santas e de oração, sei muitas; para que
não penseis que sou eu, não o faço. Esta parece-me de grande proveito, para que
entendais como se contenta o Senhor em nos conhecermos, e procuremos sempre mirar e remirar
a nossa pobreza e miséria, e que não temos nada que não o tenhamos recebido.” Assim,
pois, minhas irmãs, para isto e outras muitas coisas que se oferecem a uma alma a quem o
Senhor já trouxe a este ponto, é preciso ânimo; e a meu parecer, para esta última
mais ainda que para tudo o mais, se há humildade. O Senhor no-la dê por quem é. – Pois, voltando a este apressurado arrebatamento
do espírito, é de tal maneira, que verdadeiramente parece que sai do corpo, e, por outro lado,
é claro que esta pessoa não fica morta; pelo menos ela não pode dizer se está no
corpo ou não, por uns instantes. Parece-lhe que toda inteira esteve em outra região muito
diferente desta em que vivemos, onde se lhe mostra outra luz tão diferente desta de cá,
que, se toda a sua vida a estivesse a fabricar, juntamente com outras coisas que então vê,
seria impossível alcançá-las. E acontece ensinarem-lhe num instante tantas
coisas juntas, que em muitos anos que trabalhasse em as ordenar com a imaginação e o pensamento,
de mil partes não poderia ordenar uma só. Isto não é visão intelectual, senão imaginária
vê-se com os olhos da alma muito melhor do que vemos aqui com os do corpo, e sem palavras
se lhe dão a entender algumas coisas; digo, como se vê alguns santos, conhece-os, como
se tivesse tratado muito com eles. – Outras vezes, juntamente com as coisas que
vê com os olhos da alma, representam-se-lhe outras por visão intelectual, em especial
multidões de anjos com o Senhor deles, e sem ver nada com os olhos do corpo nem da
alma. Por um conhecimento admirável que eu não saberia dizer, representa-se-lhe o que
digo e outras muitas coisas que não são para dizer. Quem passar por elas, e tenha
mais habilidade do que eu, talvez as saiba dar a entender, ainda que me parece bem dificultoso. Se tudo isto se passa, estando a alma no corpo
ou não, eu não o sei dizer; pelo menos não juraria que está no corpo, nem tão-pouco
que está o corpo sem alma. – Muitas vezes tenho pensado, se assim como
o sol estando no céu, seus raios têm tanta força que, não se mudando ele de ali, num
pronto chegam até nós, assim a alma e o espírito, que são uma mesma coisa, como
o é o sol e os seus raios, ficando ela no seu posto, com a força do calor que lhe vem
do verdadeiro Sol de Justiça, pode alguma parte superior sair sobre si mesma. Enfim,
eu não sei o que digo. O que é verdade é que, com a mesma presteza
com que sai a bala dum arcabuz quando lhe põem fogo, levanta-se no interior um voo,
(eu não sei que outro nome lhe dê) o qual, ainda que não faça ruído, faz um movimento
tão claro que não pode ser imaginação de maneira alguma; e já muito fora de si
mesma, para tudo quanto ela pode entender, se lhe mostram grandes coisas; e, quando torna
a sentir-se em si, é com tão grandes lucros e tendo em tão pouco todas as coisas da terra,
que, em comparação das que viu, lhe parecem lixo; e de aí em diante vive nela com muita pena,
e não vê coisa das que lhe costumavam parecer bem, que delas agora já nada se lhe dê.
Parece que o Senhor quis mostrar-lhe algo da terra aonde há-de ir, tal como levaram
sinais da terra de Promissão os que lá enviaram do povo de Israel,` para que passe os trabalhos
deste caminho tão trabalhoso, sabendo onde há-de ir descansar. Embora coisa que passa tão depressa não
vos pareça de muito proveito, são tão grandes os que deixa na alma que, a não ser quem
por isto passa, ninguém saberá entender o seu valor. – Por aqui se vê bem não ser coisa do demónio;
pois da própria imaginação é impossível, nem o demónio poderia representar coisa que
tanto efeito, paz, sossego e aproveitamento deixe na alma, em especial três coisas em
muito subido grau: o conhecimento da grandeza de Deus, porque, quantas mais coisas virmos
dela, mais se nos dá a conhecer. Segunda razão: o próprio conhecimento e
humildade, ao ver como coisa tão baixa, em comparação do Criador de tantas grandezas,
tem ousado ofendê-l’O, nem como ousa olhar para Ele; terceira, terem muito pouco todas
as coisas da terra, se não forem das que pode aplicar ao serviço de tão grande Deus. – Estas são as jóias que o Esposo começa
a dar à Sua Esposa, e são de tanto valor que não as porá em mau recato; porque ficam
tão esculpidas na memória estas vistas, que creio é impossível esquecê-las até
que as goze para sempre e, se assim não fora, seria para seu grandíssimo mal; mas o Esposo
que lhas dá, é poderoso para lhe dar graças a fim de que não as perca. – Pois, voltando ao ânimo que é preciso,
parecer-vos-á que é tão leve coisa? É que verdadeiramente parece que a alma se aparta
do corpo, porque se vê a perder os sentidos, e não entende para quê. Mister é, pois, que lho dê Aquele que dá
tudo o mais. Direis que bem pago vai este temor; assim digo eu também. Seja para sempre
louvado Aquele que tanto pode dar. Praza a Sua Majestade que nos dê com que possamos
servi-l’O, amen. CAPÍTULO, 6º. Diz um efeito da oração
que fica dita no capítulo passado, com o qual se entendera que é verdadeira e não
engano. Trata de outra mercê que o Senhor faz à alma para a empregar em seus louvores. – Destas mercês tão grandes fica a alma
tão desejosa de gozar de todo de Quem lhas faz, que vive com grande tormento, embora
saboroso; umas ânsias grandíssimas de morrer, e assim, com lágrimas constantes, pede a
Deus que a tire deste desterro. Tudo, quanto vê nele, a cansa; em vendo-se a sós, tem
algum alívio, mas logo surge esta pena e, em estando sem ela, já não se acostuma. Enfim, não acaba esta borboletazinha por
achar assento que perdure; antes, como anda a alma tão terna de amor, qualquer ocasião
que sirva para mais incender este fogo, a faz voar. E assim, nesta morada, são muito
contínuos os arroubamentos, sem haver meio de os evitar, ainda que seja em público;
e logo são as perseguições e murmurações, que ainda que ela queira estar sem temores,
não a deixam, porque são muitas as pessoas que lhos metem, em especial os confessores. – E, ainda que no interior da alma parece
que tem, por um lado, grande segurança, em especial quando está a sós com Deus, por
outro anda muito aflita, porque teme ser enganada pelo demónio de maneira que ofenda a Quem
tanto ama, que das murmurações sente pouca pena, a não ser quando o próprio confessor
aperta com ela, como se ela pudesse mais. Não faz senão pedir orações a todos, e
suplicar a Sua Majestade que a leve por outro caminho, porque lhe dizem que o faça, que
este é muito perigoso; mas, como ela achou por ele tão grande aproveitamento, que não
pode deixar de ver que o tem, como lê e ouve e sabe pelos mandamentos de Deus o que leva
ao Céu, não consegue desejar outro, embora queira, mas entrega-se em Suas mãos. E até o não poder desejar isto lhe dá pena,
por lhe parecer que não obedece ao confessor; pois em obedecer e não ofender a Nosso Senhor
lhe parece estar todo o seu remédio para não ser enganada; e assim não faria um pecado
venial com advertência, segundo lhe parece, ainda que a fizessem em pedaços; e aflige-se
muito de ver que não pode deixar de fazer muitos sem dar por isso. – Dá Deus a estas almas um desejo tão imensamente
grande de não O descontentar em coisa alguma, por pouquito que seja, nem fazer uma imperfeição,
se pudesse, que só por isto, embora não fosse por mais nada, quereria fugir das gentes
e tem grande inveja dos que vivem e têm vivido nos desertos. Por outro lado, quereria meter-se no meio
do mundo, para ver se pode contribuir para que uma alma louve mais a Deus; e, se é mulher,
aflige-se de se ver atada pelo seu natural, porque não pode fazer isto, e tem grande
inveja dos que têm liberdade para dar vozes, publicando quem é este grande Deus dos Exércitos. – Oh! pobre borboletazinha, atada com tantas
cadeias, que não te deixam voar como quererias! Tende compaixão dela, meu Deus; ordenai já
de modo a ela poder cumprir em alguma coisa os desejos para Vossa honra e glória. Não
vos recordeis do pouco que merece e da baixeza do seu natural. Poderoso sois Vós, Senhor,
para que se retire o grande mar e o grande Jordão, e deixem passar os filhos de Israel.
Não lhe tenhais lástima, que, ajudada com a Vossa fortaleza, pode passar muitos trabalhos;
está determinada a isso e deseja-os padecer. Estendei, Senhor, o Vosso poderoso braço;
não se lhe passe a vida em coisas tão baixas. Resplandeça a Vossa grandeza em coisa tão
feminil e baixa, para que, entendendo o mundo que nada é dela, Vos louvem a Vós, custe-lhe
o que lhe custar, pois isso quer, e dar mil vidas, se tantas tivera, para que uma só
alma, por meio dela, Vos louve um poucochinho mais; dá-as por muito bem empregadas e entende
com toda a verdade que nem merece padecer por Vós um trabalho muito pequeno, quanto
mais morrer. – Não sei a que propósito disse isto, irmãs,
nem para quê, que não me entendi a mim mesma. Entendamos que são estes os efeitos que ficam
destas suspensões ou êxtases, sem dúvida nenhuma; porque não são desejos que passam,
mas que estão em um ser, e quando se oferece alguma coisa em que o mostrar, vê-se que
não eram fingidos. Para que digo que permanecem em um ser? Algumas vezes se sente a alma cobarde,
até nas coisas mais baixas, e atemorizada com tão pouco ânimo que nem lhe parece possível
tê-lo para coisa alguma. Entendo eu que o Senhor a deixa então ao
seu natural, para muito maior bem seu; porque vê então que, se teve ânimo para alguma
coisa, foi dado por Sua Majestade, e isto com uma claridade que a deixa aniquilada a
si mesma e com maior conhecimento da glória de Deus e da Sua grandeza, pois, em coisa
tão baixa, a quis mostrar. Mas o mais habitual é estar como antes dissemos. – Mas adverti uma coisa, irmãs, nestes grandes
desejos de ver a Nosso Senhor: oprimem tanto algumas vezes, que é mister não ajudar a
isso, senão distrair-vos, se podeis, digo; porque em outros casos, que direi adiante,
não se pode, de maneira nenhuma, como vereis. Nestes princípios, alguma vez sim se poderá,
porque a razão está inteira para se conformar com a vontade de Deus, e dizer o que dizia
São Martinho, e poder-se-á volver o pensamento a considerar outra coisa se muito apertam
estes desejos; porque, como a nosso parecer, é desejo que já parece de pessoas muito
aproveitadas, bem o poderia mover o demónio para que pensássemos que o estamos, e sempre
é bem andar com temor. Mas tenho para mim que ele nunca poderá dar a quietude e a paz
que esta pena dá à alma, mas será movendo com isso alguma paixão, tal como se tem quando,
por coisas do século, sentimos alguma pena. Mas, quem não tiver experiência de uma e
outra coisa, não o entenderá; e pensando que é uma grande coisa, ajudará esses desejos
quanto puder, e far-lhe-á muito dano à saúde; porque é contínua esta pena ou pelo menos
muito frequente. –
Adverti também que a compleição fraca costuma causar destas penas, em especial se é em
pessoas ternas, que choram por qualquer coisita: mil vezes lhes fará pensar que choram por
Deus, não sendo assim. E até mesmo pode acontecer, (quando vêm
lágrimas por atacado digo, que em certas ocasiões, a cada palavrinha que oiçam ou
pensem de Deus, já lhes não podem resistir) ter-se achegado algum humor ao coração,
o qual ajuda mais a isto do que o amor que se tem a Deus, e parece que não hão-de acabar
de chorar; e, como já entenderam que as lágrimas são boas, não se vão à mão, nem quereriam
fazer outra coisa, e ajudam quanto podem a elas. Pretende aqui o demónio que se enfraqueçam
de tal maneira, que depois nem possam ter oração nem guardar a Regra. – Parece-me que vos estou vendo perguntar
que devereis fazer, se em tudo vejo perigo, pois numa coisa tão boa como as lágrimas,
me parece poder haver engano; que sou eu a enganada; e, bem pode ser, mas crede que não
falo sem ter visto que o pode haver em algumas pessoas, embora não em mim; porque não sou
nada terna, antes tenho um coração tão duro, que algumas vezes me dá pena; ainda
que, quando o fogo lá dentro é grande, por duro que seja o coração, destila como faz
um alambique; e bem entendereis quando vêm daqui as lágrimas,
pois são muito confortadoras e pacificam, e não alvorotadoras, e poucas vezes fazem
mal. O bem é que neste engano, – quando o for, – será dano do corpo (digo, se há humildade)
e não dano da alma; e mesmo quando não há engano, não será mau ter esta suspeita. – Não pensemos que está tudo feito em chorando
muito, mas deitemos mão ao trabalhar muito, e adquirir virtudes, porque é o que nos há-de
fazer ao caso, e venham as lágrimas quando Deus as enviar, não fazendo nós diligências
para as ter. Estas deixarão regada esta terra seca, e
são uma grande ajuda para ela dar fruto; e tanto mais, quanto menos caso delas fizermos,
porque é água que cai do céu; a que tiramos, cansando-nos a cavar para a tirar, nada tem
que ver com esta, pois muitas vezes cavaremos e ficaremos moídas, e não acharemos nem
uma poça de água, quanto mais um poço manancial. Por isso, irmãs, tenho por melhor que nos
ponhamos diante do Senhor e olhemos à Sua misericórdia e grandeza e à nossa baixeza,
e dê-nos Ele o que quiser, quer seja água, quer seja secura: Ele sabe melhor o que nos
convém. E com isto andaremos descansadas e o demónio
não terá tanta ocasião para nos enganar. – Entre estas coisas, a um tempo penosas e
saborosas, dá Nosso Senhor algumas vezes uns júbilos e oração estranha, que a alma
não sabe entender o que é. Para que, se vos fizer esta mercê, O louveis muito e saibais
que é coisa que pode dar-se, a deixo aqui. É, a meu parecer, uma grande união das potências,
mas deixa-as Nosso Senhor com liberdade para gozarem deste gozo, e os sentidos na mesma,
sem entenderem o que é que gozam e como o gozam. Parece isto uma algaravia, mas certo é passarem-se
assim as coisas, e é um gozo tão excessivo da alma, que ela não quereria gozá-lo a
sós, senão dizê-lo a todos, a fim de a ajudarem a louvar a Nosso Senhor, pois para
isto vai todo o ímpeto. Oh! que festas e que demonstrações faria se, pudesse, para
que todos entendessem o seu gozo! Parece que se achou a si mesma, e como o pai do filho
pródigo, quereria convidar a todos e fazer grandes festins, por ver a sua alma em estado
que não pode duvidar que está em segurança, ao menos por então. E tenho para mim que é com razão; porque
tanto gozo interior do mais íntimo da alma, e com tanta paz, e todo o seu contento que
só incita aos louvores de Deus, não é possível dar-lho o demónio. – E muito é, estando com este grande ímpeto
de alegria, que possa calar e dissimular, o que não é pouco penoso. Isto devia sentir
São Francisco, quando o encontraram os ladrões, pois andava pelo campo gritando e lhes disse
que era pregoeiro do grande Rei; e outros santos, que se vão para os desertos para
poder apregoar, como São Francisco, estes louvores de Deus. Eu conheci um, chamado Frei Pedro de Alcântara,
– pois creio que o é, segundo foi a sua vida, – o qual fazia isto mesmo, e o tinham por
louco os que alguma vez o ouviram.` Oh! que boa loucura, irmãs, se Deus no-la desse a
todas! E quanta mercê vos fez em vos ter num lugar onde, ainda mesmo que o Senhor vos
faça esta, e deis mostra disso, antes será para vos ajudar e não para murmuração,
como fora se estivésseis no mundo, onde se usa tão pouco este pregão, que não é de
admirar que dele murmurem. – Oh! desventurados tempos e miserável vida,
na qual agora vivemos, e ditosas aquelas a quem coube tão boa sorte, que estão fora
do mundo! Algumas vezes é para mim gozo particular, quando; estando juntas, vejo estas irmãs
tê-lo interiormente tão grande que, a que mais pode, mais louvores dá a Nosso Senhor
de se ver neste mosteiro; porque se vê muito claramente que saem aqueles louvores do interior
da alma. Muitas vezes quereria, irmãs, que fizéssemos isto, porque uma que começa,
desperta as demais. E, em que melhor se pode empregar a vossa
língua quando estais juntas, do que em louvores de Deus, pois temos tanto por que Lhos dar? – Praza a Sua Majestade dar-nos muitas vezes
esta oração, pois é tão segura e de tantos lucros. Adquiri-la, não poderemos, porque
é muito sobrenatural; e acontece durar um dia, e anda a alma como alguém que bebeu
muito, mas não a ponto de ficar alienado dos sentidos; ou como um melancólico, que
de todo não tenha perdido o siso, mas não sai duma coisa que se lhe pôs na imaginação,
nem há quem lha tire. Muito grosseiras comparações são estas
para coisa tão preciosa, mas não alcança outras o meu engenho, porque isto é assim:
pois este gozo traz a alma tão olvidada de si e de todas as coisas, que não adverte
nem acerta a falar, a não ser no que procede do seu gozo, que são louvores de Deus. Ajudemos
todas a esta alma, filhas minhas. Para que queremos ter mais siso? Que nos pode dar maior
contento? E ajudem-nos todas as criaturas, por todos os séculos dos séculos, amen,
amen, amen. CAPÍTULO, 7º. Trata de como é a pena que
sentem de seus pecados as almas a quem Deus faz as ditas mercês. Diz quão grande erro
é não se exercitar, por espiritual que se seja, em trazer presente a humanidade de Nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo, e sua sacratíssima paixão e vida, e a Sua gloriosa Mãe e os
santos. É muito proveitoso. – Parecer-vos-á, irmãs, que estas almas,
a quem o Senhor se comunica tão particularmente, (em especial não poderão pensar isto que
direi as que não tiverem chegado a estas mercês, porque se o tiverem gozado, e se
é de Deus, verão o que eu direi) estarão já tão seguras de que hão-de gozá-l’O
para sempre, que não terão que temer nem que chorar seus pecados; e será um engano
muito grande, porque a dor dos pecados cresce tanto mais quanto mais se recebe de nosso
Deus. E tenho para mim que esta pena não nos deixará, até que estejamos onde nenhuma
coisa no-la possa dar. – É verdade que umas vezes aperta mais que
outras, e também é de diferente maneira; porque não se lembra da pena que há-de ter
por eles, mas sim de como foi tão ingrata a Quem tanto deve, e a Quem tanto merece ser
servido; porque, nestas grandezas que se lhe comunicam, entende muito mais a de Deus. Espanta-se
de como foi tão atrevida; chora o seu pouco respeito; parece-lhe coisa tão desatinada
o seu desatino, que não acaba nunca de o lastimar, quando se lembra das coisas tão
baixas pelas quais deixava uma tão grande Majestade. Muito mais se lembra disto do que das mercês
recebidas, sendo elas tão grandes como as ditas e as que estão por dizer; parece que
as leva um rio caudaloso e as traz a seu tempo; mas isto dos pecados estão como lodo, pois
sempre parece que se avivam na memória e é bem grande cruz. – Sei de uma pessoa que, deixando de querer
morrer para ver a Deus, o desejava para não sentir tão habitualmente a pena de quão
desagradecida tinha sido a Quem tanto deveu sempre e havia de continuar a dever; e assim
lhe parecia não poder haver ninguém cujas maldades pudessem chegar às suas, porque
entendia que não haveria a quem Deus tanto tivesse sofrido e tantas mercês tivesse feito.
No que toca a medo do inferno, nenhum têm. O de poderem vir a perder a Deus, às vezes
aflige muito; mas é poucas vezes. Todo o seu temor é que não as deixe Deus
de Sua mão e O venham a ofender, e se vejam em estado tão miserável como se viram em
outros tempos, pois de sua própria pena ou glória não têm cuidado; e, se desejam não
estar muito tempo no purgatório, é mais para não estarem ausentes de Deus, enquanto
ali estiverem, do que pelas penas que hão-de passar. – Eu não teria por seguro, por favorecida
que uma alma esteja de Deus, que ela se esquecesse de que nalgum tempo se viu em miserável estado;
porque, embora seja coisa penosa, aproveita para muitas coisas. Talvez que, como eu tenho
sido tão ruim, me pareça isto, e esta é a causa de o trazer sempre na memória; as
que têm sido boas, não terão que sentir; embora sempre haja quebras enquanto vivemos
neste corpo mortal. Para esta pena não é alivio nenhum pensar
que Nosso Senhor já tem perdoados e esquecidos os pecados; antes acresce à pena ver tanta
bondade e fazerem-se mercês a quem não merecia senão o inferno. Penso que foi este um grande
martírio em São Pedro e na Madalena; porque, como tinham o amor tão acrescido e tinham
recebido tantas mercês e tinham entendida a grandeza e majestade de Deus, seria bem
duro de sofrer, e com muito terno sentimento. – Também vos parecerá que quem goza de coisas
tão sublimes, não terá meditação nos mistérios da sacratíssima Humanidade de
Nosso Senhor Jesus Cristo, porque já se exercitará toda em amor. Isto é uma coisa que escrevi
largamente em outra parte, e conquanto nisso me tenham con tradito e dito que não o entendo,
porque são caminhos por onde leva Nosso Senhor e quando as almas já passaram dos princípios,
é melhor tratar em coisas da Divindade e fugir das corpóreas, a mim não me farão
confessar que é bom caminho. Bem pode ser que me engane, e que digamos
todos a mesma coisa; mas eu vi que o demónio me queria enganar por aí, e assim estou tão
escarmentada, que penso, embora o tenha dito mais vezes, dizer-vo-lo outra vez aqui, para
que andeis nisto com muita advertência; e olhai que ouso dizer que não acrediteis a
quem vos disser outra coisa. E procurarei dar-me a entender melhor do que
o fiz em outra parte; porque, porventura, se alguém que o escrever, como ele o disse,
mais se alargasse em o declarar, dizia bem; mas dizê-lo assim por junto às que não
entendemos tanto, pode fazer muito mal. – Também lhes parecerá a algumas que não
podem pensar na Paixão; pois menos poderão pensar na Santíssima Virgem, nem na vida
dos Santos, que tão grande proveito e alento nos dá a sua memória. Eu não posso pensarem que pensam; porque,
apartados de tudo o que é corpóreo, é para espíritos angélicos o estar sempre abrasados
em amor, não para os que vivemos em corpo mortal, que é preciso tratar, pensar e se
acompanhar dos que, tendo corpo, fizeram tão grandes façanhas por Deus; quanto mais apartar-se
propositadamente de todo o nosso bem e remédio, que é a Sacratíssima Humanidade de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Eu não posso crer que o façam, mas não se entendem, e assim farão
dano a si e aos outros. Pelo menos eu lhes asseguro que não entram
nestas duas últimas moradas porque, se perdem o guia, que é o bom Jesus, não acertarão
com o caminho: muito já será, se ficam nas outras moradas com segurança. Porque o mesmo Senhor nos disse que é caminho
e também disse o Senhor que é luz, e que ninguém pode ir ao Pai senão por Ele; e
«quem Me vê a Mim, vê a Meu Pai». Dirão que se dá outro sentido a estas palavras.
Eu não sei esses outros sentidos; com este, que sempre a minha alma sente ser verdade,
me tem ido muito bem. – Há algumas almas – e são muitas as que
o têm tratado comigo – que, mal Nosso Senhor lhes chega a dar contemplação perfeita,
quereriam sempre ficar-se ali, e não pode ser; mas ficam, com esta mercê do Senhor
de tal maneira, que depois não podem, como antes, discorrer nos mistérios da Paixão
e da vida de Cristo. E não sei qual a causa, mas isto é muito frequente: o entendimento
fica mais inabilitado para a meditação. Creio que a causa deve ser esta: como na meditação
tudo é buscar a Deus, uma vez que O encontra e a alma se acostuma a torna-l’O a buscar
por obra de vontade, já não se quer cansar com o trabalho do entendimento. Também me
parece que, como a vontade já está encendida, não quer esta potência generosa aproveitar-se
daqueloutra, se puder; e não faz mal, mas será impossível, em especial até que chegue
a estas últimas moradas, e perderá tempo, porque muitas vezes precisa de ser ajudada
do entendimento para encender a vontade. – E notai, irmãs, este ponto, que é importante
e assim o quero declarar melhor. Está a alma desejando empregar-se toda em amar e não
quereria atender a outra coisa, mas não poderá ainda que queira; porque, ainda que a vontade
não esteja morta, está amortecido o fogo que a costuma fazer arder, e é preciso quem
o sopre para de si lançar calor. Seria bom que a alma se ficasse para ali com esta aridez,
esperando fogo do céu que queime este sacrifício que está fazendo de si a Deus, como fez Elias,
nosso Pai? Não, por certo; nem é bem esperar milagres.
O Senhor os faz, quando é servido, por amor desta alma, como fica dito e se dirá adiante;
mas Sua Majestade quer que nos tenhamos por tão ruins que pensemos não merecer que no-los
faça, mas que nos ajudemos a nós mesmos em tudo o que pudermos. E tenho para mim que,
até que morramos, por subida que seja a oração, isto é necessário. – Verdade é que, a quem o Senhor mete já
na sétima morada, é muito poucas vezes, ou quase nunca, as que precisa de fazer esta
diligência, pela razão que nela direi, se me lembrar; mas é muito contínuo o não
se apartar de andar com Cristo Nosso Senhor, por um modo admirável, em que divino e humano
juntamente é sempre sua companhia. Assim, pois, quando não se acendeu na vontade
o fogo que fica dito, nem se sente a presença de Deus, é preciso que a busquemos; que isto
quer Sua Majestade como o fazia a Esposa nos Cantares, e que perguntemos às criaturas
quem as fez, – como diz Santo Agostinho, creio que nas suas Meditações ou Confissões,
– e não nos fiquemos pasmados, perdendo tempo, a esperar o que uma vez nos deu porque nos
princípios poderá ser que não no-lo dê o Senhor em um ano, e até em muitos; Sua
Majestade sabe o porquê; nós não havemos de querer sabê-lo, nem há para quê. Visto que sabemos o caminho e como nele havemos
de contentar a Deus pelos mandamentos e conselhos, e em pensar na Sua vida e morte, e no muito
que Lhe devemos, andemos nisto muito diligentes; o demais, venha quando o Senhor quiser. – Aqui vem o responderem que não podem deter-se
nestas coisas; e, pelo que fica dito, talvez tenham razão em certo modo. Já sabeis que
discorrer com o entendimento é uma coisa, e representar a memória verdades ao entendimento,
é outra. Direis, talvez, que não me entendeis, e verdadeiramente poderá ser que não o entenda
eu para sabê-lo dizer; mas di-lo-ei como souber. Chamo eu meditação ao discorrer muito com
o entendimento desta maneira: começamos a pensar na mercê que Deus nos fez em nos dar
o Seu único Filho, e não paramos ali, mas vamos adiante aos mistérios de toda a Sua
gloriosa vida; ou começamos na oração do Horto, e não pára o entendimento até estar
pregado na Cruz; ou tomamos um passo da Paixão, digamos tal como a prisão, e andamos neste
mistério considerando, por miúdo, as coisas que há que pensar nele e que sentir, assim
da traição de Judas, como da fuga dos Apóstolos, e tudo o mais; e é admirável e muito meritória
oração. – Esta é a oração que eu digo que terá
razão para dizer que não a pode fazer quem chegou a ser levado por Deus a coisas sobrenaturais
e à perfeita contemplação; porque, – como disse, – não sei a causa, mas o mais normal
é não poder. Mas não a terá, digo razão, se diz que
não se detém nestes mistérios, nem os traz presentes muitas vezes, em especial quando
os celebra a Igreja Católica; nem é possível que perca assim a memória a alma que recebeu
tanto de Deus em mostras de amor tão preciosas, porque são vivas centelhas para a inflamar
mais no amor que tem a Nosso Senhor; senão que a alma se não entende com a meditação
porque já entende estes mistérios por um modo mais perfeito. É porque lhos representa o entendimento,
e gravam-se-lhe na memória de tal maneira, que só de ver o Senhor caído por terra com
aquele espantoso suor no Horto, lhe basta não só para uma hora, senão para muitos
dias, vendo numa simples vista de olhos quem Ele é, e quão ingratos temos sido a tão
grande pena. Mas logo acode a vontade, ainda que não seja
com ternura, desejar servir em alguma coisa tão grande mercê e a desejar padecer alguma
coisa por Quem tanto padeceu e a outras coisas semelhantes, em que ocupa a memória e o entendimento.
E creio que, por esta razão, não pode passar a discorrer mais largamente sobre a Paixão,
e isto lhe faz parecer que não pode pensar nela. – E se não faz isto, é bem que o procure
fazer, porque sei que não lho impedirá a muita subida oração, e não tenho por bem
que não se exercite nisto muitas vezes. Se daqui a suspender o Senhor, que seja muito
em boa hora, pois ainda que não queira, a fará deixar aquilo em que está. E tenho
por muito certo que não é estorvo esta maneira de proceder, senão grande ajuda para todo
o bem; o que seria estorvo é se trabalhasse muito no discorrer que disse ao princípio,
e tenho para mim que não poderá quem chegou a mais. Bem pode ser que sim, pois, por muitos caminhos
leva Deus as almas; mas não se condenem por isso as que não puderem ir por ele; nem as
julguem inabilitadas para gozar de tão grandes bens como estão encerrados nos mistérios
do nosso Bem, Jesus Cristo; nem ninguém me fará entender, seja tão espiritual quanto
quiser, que irá bem por aqui. – Há uns princípios, e até meios, que têm
algumas almas: logo que começam a chegar à oração de quietude e a gostar dos regalos
e gostos que dá o Senhor, parece-lhes que é muito grande coisa estarem ali sempre gostando.
Mas creiam-me, e não se embeveçam tanto – como já disse em outra parte – que a vida
é longa, há nela muitos trabalhos, termos necessidade de olhar e ver como o nosso modelo
Jesus Cristo os passou, e até Seus Apóstolos e Santos, para levarmos os nossos com perfeição. É muito boa companhia o bom Jesus para que
nos apartemos dela e de Sua Sacratíssima Mãe e gosta muito de que nos condoamos de
Suas penas, embora deixemos o nosso contentamento e gosto algumas vezes. Tanto mais, filhas, que não é tão frequente
o regalo na oração, que não haja tempo para tudo; e a que disser que está sempre
no mesmo ser, eu o teria por suspeitoso; digo, que nunca poderá fazer o que fica dito; e
assim, tendo-vos também por tal, e procurai sair desse engano, e desembevecei-vos com
todas as vossas forças; e, se não bastarem, digam-no à prioresa, para que vos dê um
ofício de tanto cuidado, que tire esse perigo; ao menos para o juízo e para a cabeça seria
bem grande se durasse muito tempo. – Creio que fica dado a entender quanto convém,
por espirituais que sejam, não fugir tanto de coisas corpóreas, que lhes pareça até
fazer dano a Humanidade sacratíssima. Alegam o que o Senhor disse a Seus discípulos, que
convinha que Ele se fosse. Eu não posso sofrer isto. Por certo que não o disse à Sua Mãe
Sacratíssima, porque Ela estava firme na fé, sabia que era Deus e homem; e embora
O amasse mais que eles, era com tanta perfeição, que isso antes A ajudava. Não deviam estar então os Apóstolos tão
firmes na fé como depois estiveram, e nós temos razão para estarmos agora. Eu vos digo, filhas, que o tenho por caminho
perigoso, e que o demónio poderia vir por aqui a fazer perder a devoção para com o
Santíssimo Sacramento. – O engano que me pareceu a mim que eu levava,
não chegou a tanto como isto, mas sim a não gostar de pensar tanto em Nosso Senhor Jesus
Cristo, e a ficar-me naquele embevecimento, aguardando aquele regalo. E vi claramente
que ia mal; porque, como não o podia ter sempre, andava o pensamento daqui para ali,
e a alma, me parece, como uma ave revoando, a qual não acha onde pousar, e perdendo muito
tempo, e não aproveitando nas virtudes nem medrando na oração. E não entendia a causa, nem a entenderia,
a meu parecer, porque me parecia que era aquilo muito acertado; até que, tratando da oração
que trazia com uma pessoa serva de Deus, ela me avisou. Depois vi claramente como ia errada,
e nunca se me acaba o pesar de ter havido algum tempo em que eu não entendesse que
mal se podia ganhar com tão grande perda; e, mesmo quando pudesse, nenhum bem quero,
senão adquirido por Quem nos vieram todos os bens. Seja Ele para sempre louvado, amen. CAPÍTULO, 8º. Trata de como se comunica
Deus a alma por visão intelectual e dá alguns avisos. Diz os efeitos que faz quando é verdadeira.
Recomenda o segredo destas mercês. – Para que vejais mais claramente, irmãs,
que é assim o que vos disse, e que quanto mais adiante vai uma alma mais acompanhada
é deste bom Jesus, será bem que tratemos de como, quando Sua Majestade o quer, não
podemos mais senão andar sempre com Ele, como se vê claramente pelas maneiras e modos
com que Sua Majestade se nos comunica, e nos mostra o amor que nos tem, por meio de algumas
aparições e visões tão admiráveis. E para que não fiqueis espantadas, se Ele
vos fizer algumas destas mercês, quero dizer-vos em suma – se o Senhor for servido que acerte
– alguma coisa destas, ainda que não no-las faça a nós, a fim de que O louvemos muito
por assim se querer comunicar a uma criatura, sendo Ele de tanta majestade e poder. – Acontece, estando a alma descuidada de que
se lhe haja de fazer esta mercê, nem ter jamais pensado merecê-la, que sente junto
a si Jesus Cristo Nosso Senhor, embora não O veja, nem com os olhos do corpo nem da alma.
Chamam a isto visão intelectual, não sei porquê. Vi esta pessoa, a quem Deus lhe fez esta mercê,
com outras que adiante direi, muito fatigada nos princípios, porque não podia entender
que coisa era aquela, pois não O via e entendia tão certo ser Jesus Cristo Nosso Senhor quem
se lhe mostrava daquela sorte, que não podia duvidar, digo, que estava ali aquela visão;
se era de Deus ou não, conquanto trouxesse consigo grandes efeitos para julgar que era,
todavia andava com medo, pois nunca tinha ouvido nada a respeito de visão intelectual,
nem pensou que a houvesse de tal sorte. Entendia, porém, muito claramente que era
o Senhor quem lhe falava muitas vezes da maneira que fica ditada porque, até que lhe fez esta
mercê que digo, nunca sabia quem lhe falava, embora entendesse as palavras. – Sei que, estando temerosa desta visão,
(porque não é como as imaginárias que passam depressa, antes dura muitos dias, e até mais
de um ano alguma vez) foi ter com o seu confessor muito aflita. Ele lhe disse que, se não via
nada, como sabia que era Nosso Senhor; que lhe dissesse que rosto tinha? Ela disse-lhe
que não sabia, nem via rosto, nem podia dizer mais do que tinha dito; o que sabia era, que
era Ele quem lhe falava, e que não era ilusão. E ainda que lhe punham grandes temores muitas
vezes no entanto, não podia duvidar, em especial quando lhe dizia: «Não tenhas medo, que
sou Eu». Tinham tanta força estas palavras, que não o podia duvidar por então, e ficava
muito esforçada e alegre com tão boa companhia. Via claramente ser-lhe isso de grande ajuda
para andar com uma habitual memória de Deus, e um grande cuidado de não fazer coisa que
Lhe desagradasse, porque lhe parecia que Ele a estava sempre olhando. E cada vez que queria
tratar com Sua Majestade na oração, e mesmo fora dela, parecia-lhe estar tão perto que
não O podia deixar de ouvir; quanto a entender as palavras, não era quando ela queria, mas
sim em qualquer altura, quando era mister. Sentia que Ele andava a seu lado direito,
mas não com esses sentidos com que podemos sentir que está junto de nós uma pessoa;
porque é por outra via mais delicada, que não se saberá dizer; mas é tão certo e
com tanta certeza e até muito mais, porque bem se nos poderia afigurar, mas nisto não,
vem com grandes lucros e efeitos interiores, e não os poderia haver se fosse melancolia,
nem tão-pouco o demónio faria tanto bem, nem a alma andaria com tanta paz e com tão
contínuos desejos de contentar a Deus, e com tanto desprezo de tudo o que não a chega
mais a Ele. E depois entendeu-se claramente não ser demónio,
porque mais e mais se ia dando a entender. – Contudo sei que, por momentos, andava muito
temerosa; outros com grandíssima confusão, pois não sabia por onde lhe tinha vindo tanto
bem. Éramos, ela e eu, de tal maneira uma só coisa, que não se passava coisa alguma
em sua alma que eu o ignorasse, e assim posso ser boa testemunha, e podeis crer ser verdade
tudo o que nisto disser. É mercê do Senhor, que traz consigo grandíssima
confusão e humildade. A ser do demónio, tudo seria ao contrário. E, como é coisa
que notavelmente se entende ser dada por Deus, e não bastaria indústria humana para assim
se poder sentir, de nenhum modo pode pensar quem isto tem, que este bem é seu, mas sim
dado pela mão de Deus. E embora, a meu parecer, sejam maiores mercês
algumas das que ficam ditas, esta traz consigo um particular conhecimento de Deus, e desta
companhia tão contínua nasce um amor terníssimo para com Sua Majestade, e uns desejos ainda
maiores que os que ficam ditos, de se entregar toda a Seu serviço, e uma limpeza de consciência;
porque em tudo faz advertir a presença que traz junto a si. Porque, ainda que já saibamos que Deus está
presente a tudo que fazemos, o nosso natural é tal, que se descuida de o pensar: o que
não se pode descuidar aqui, pois a desperta o Senhor, que está junto dela. E mesmo as mercês que ficam ditas, como a
alma anda quase de contínuo com amor actual Àquele a quem vê ou entende estar junto
a si, são muito mais frequentes. – Enfim, no ganho da alma vê-se que é grandíssima
mercê e muito, muito de apreciar e agradecer ao Senhor, que lha dá; sem ela a poder merecer,
e por nenhum tesouro nem deleite da terra a trocaria. E assim, quando o Senhor é servido tirar-lha,
fica em muita soledade; mas todas as diligências possíveis que fizesse para tornar a ter aquela
companhia, aproveitam pouco; que isto dá o Senhor quando quer, e não se pode adquirir.
Algumas vezes, é também a presença de algum santo, e é também de grande proveito. – Direis que, se não se vê, como se entende
que é Cristo, ou quando é a Sua Mãe gloriosíssima ou um santo? Isto não o saberá dizer a alma,
nem pode entender como o entende, senão que o sabe com uma grandíssima certeza. Ainda
quando o Senhor fala, mais fácil parece; mas conhecer ao santo que não fala, senão
que parece que o coloca ali o Senhor para ajuda daquela alma e para sua companhia, é
mais para maravilhar. Assim são outras coisas espirituais que não
se sabem dizer, mas entende-se por elas quão baixo é o nosso natural para entender as
imensas grandezas de Deus; pois estas mesmas não somos capazes de atingir, senão que
as receba com admiração e louvores a Sua Majestade a alma a quem Deus der. estas mercês.
E dê-Lhe assim particulares graças por elas, pois, já que não é mercê. que se faz a
todos, há-de-se estimar muito, e procurar fazer maiores serviços, pois por tantas maneiras
a ajuda Deus para isso. Daqui lhe vem não se ter por isso em maior
conta, e parecer-lhe-á que é a que menos serve a Deus de quantos há na terra; porque
lhe parece,que, está mais obrigada a isso do que ninguém, e qualquer falta que faz
lhe trespassa as entranhas e com grandíssima razão. – Estes efeitos, que ficam ditos e com que
anda a alma, qualquer de vós os poderá advertir para entender que não é engano nem tão-pouco
ilusão; porque – como disse, – não julgo possível durar tanto tempo sendo coisa do
demónio, fazendo tão notável proveito à alma e trazendo-a com tanta paz interior,
pois não é do seu costume, nem pode, ainda mesmo que queira, coisa tão má como é o
demónio fazer tanto bem; porque logo haveria uns fumos de própria estimação, e pensar
ser melhor de que os outros. Mas este andar sempre a alma tão unida a
Deus e com o pensamento tão ocupado n’Ele, daria tanta raiva ao demónio que, ainda que
o intentasse, não voltaria muitas vezes; e é Deus tão fiel, que não permitirá dar-lhe
tanta entrada numa alma que não pretende outra coisa senão agradar a Sua Majestade,
e dar a vida por Sua honra e glória, mas sim ordenará de modo a que seja logo desenganada. – No que eu teimo é e será que, se a alma
andar da maneira como aqui se disse que a deixam estas mercês de Deus, Sua Majestade
a fará sair com vantagem, se permitir alguma vez que o demónio se atreva a tentá-la enganar,
e este ficará corrido. Por isso, filhas, se alguma de vós for por este caminho – como
disse – não andeis assombradas. Bom é que haja temor e andemos com mais cuidado; nem
tão-pouco andeis confiadas em que, por serdes tão favorecidas, vos podeis descuidar mais,
pois isto será sinal de não ser de Deus, se não vos virdes com os efeitos que ficam
ditos. É bom que aos princípios o comuniqueis debaixo
de confissão com um muito bom letrado, que são os que nos hão-de esclarecer, ou, com
alguma pessoa muito espiritual, se a houver; se não o for, melhor é um muito letrado;
e se o houver, com um e com outro. E, se vos disserem que é ilusão, não se
vos dê nada disso: esta ilusão, pouco mal ou bem pode fazer à vossa alma; encomendai-vos
à Divina Majestade, para que não consinta que sejais enganadas. Se vos disserem que é o demónio, será maior
o trabalho; ainda que não o dirá se é bom letrado e houver os efeitos ditos; mas, quando
o disser, eu sei que o mesmo Senhor que anda convosco, vos consolará e assegurará, e
a ele lhe irá dando luz para que vo-la dê a vós. – Se é pessoa que, embora tenha oração,
não a tem levado o Senhor por esse caminho, logo se espantará e o condenará. Por isso
vos aconselho que seja muito letrado, e se se achar, também espiritual; e a prioresa
dê licença para isso, porque ainda que a alma vá segura por ver a sua boa vida, a
prioresa está obrigada a deixar que se comunique, para que ambas andem com segurança. E, tratando com estas pessoas, aquiete-se
e não ande mais a dar parte destas coisas; porque algumas vezes, sem haver de que temer,
põe o demónio uns temores tão excessivos, que forçam a alma a não se contentar por
uma vez; em especial se o confessor é de pouca experiência, e ela o vê medroso, e
ele mesmo a faz andar comunicando, vem-se a publicar o que de razão devia estar muito
secreto, e a alma a ser perseguida e atormentada. Porque, quando pensa que tudo está secreto,
o vê público; daqui sucedem muitas coisas trabalhosas para ela, e poderiam suceder para
a Ordem, segundo andam estes tempos. Assim, é preciso grande aviso nisto, e o
encomendo muito às prioresas. – E não pense que, por uma irmã ter coisas
semelhantes, é melhor dó que as outras: leva o Senhor a cada uma como vê ser mister.
Boa preparação é para vir a ser muito serva de Deus, se se ajuda; mas, às vezes, leva
Deus por este caminho às mais fracas. E, assim, não há nisto que aprovar nem condenar,
senão olhar às virtudes, e a quem serve a Nosso Senhor com mais mortificação e humildade
e limpeza de consciência; essa será a mais santa, ainda que, de certeza, pouco se pode
aqui saber, até que o verdadeiro juiz dê a cada um o que merece. Lá nos espantaremos de ver quão diferente
é o Seu juízo do que podemos aqui entender. Seja Ele para sempre louvado, amen. CAPÍTULO, 9º. Trata de como o Senhor se
comunica à alma por visão imaginária, e avisa muito que se guardem de desejar ir por
este caminho. Dá para isso razões. É muito proveitoso. – Venhamos agora às visões imaginárias,
que dizem ser aquelas em que o demónio se pode meter mais do que nas já ditas, e assim
deve ser; mas, quando são de Nosso Senhor, de algum modo me parecem mais proveitosas,
porque são mais conformes ao nosso natural; salvo das que o Senhor dá a entender na última
morada, que a estas nenhuma chega. – Pois vejamos agora, como vos disse no capítulo
anterior, como está presente este Senhor: é como se, num estojo de oiro, tivéssemos
uma pedra preciosa de grandíssimo valor e virtude. Sabemos de certeza que está ali, ainda que
nunca a tenhamos visto; mas a virtude da pedra não deixa de nos aproveitar, se a trazemos
connosco. E, conquanto nunca a víssemos, nem por isso
a deixamos de apreciar, porque, por experiência, temos visto que nos tem sarado de algumas
enfermidades para as quais é apropriada; mas não ousamos olhar para ela, nem abrir
o relicário, nem podemos; porque a maneira de o abrir só a sabe a pessoa de quem é
a jóia e, ainda que no-la tenha emprestado para que nos aproveitássemos dela, ficou-se
com a chave e, como coisa sua, a abrirá quando no-la quiser mostrar, e até a retomará,
quando lhe parecer, como faz por vezes. – Pois digamos agora que, algumas vezes a
quer abrir por instantes para fazer bem a quem a emprestou. Claro está que depois ser-lhe-á
de muito maior contentamento, quando se lembrar do admirável resplendor da pedra, e assim
ela lhe ficará mais esculpida na memória. Pois, assim acontece aqui: quando Nosso Senhor
é servido regalar mais a esta alma, mostra-lhe claramente a Sua Sacratíssima Humanidade
da maneira que Ele quer; ou como andava no mundo, ou depois de ressuscitado. E, embora seja com tanta presteza, que a poderíamos
comparar à de um relâmpago, fica tão esculpida na imaginação esta imagem gloriosíssima,
que tenho por impossível que se lhe tire até que a veja onde sempre a possa gozar. – Ainda que digo imagem, entende-se que não
parece pintada a quem a vê, mas sim verdadeiramente viva, e algumas vezes está falando com a
alma, e até mostrando-lhe grandes segredos. Mas haveis de entender que, embora nisto se
detenha algum espaço de tempo, não se pode estar olhando para ela mais do que se está
fitando o sol, e assim esta vista passa sempre muito depressa; e, não porque o seu resplendor,
como o do sol, faça sofrer a vista interior, que é a que vê tudo isto, (pois quando é
com a vista exterior, não saberei dizer coisa nenhuma sobre isso, porque esta pessoa que
digo, de quem tão particularmente posso falar, não tinha passado por isso; – e do que não
há experiência, mal se pode dar razão certa) que seu resplendor é como uma luz infusa,
e de um sol coberto de uma coisa tão transparente como um diamante, se se pudera lavrar; como
uma holanda parecem as vestes, e quase detodas as vezes que Deus faz esta mercê à alma,
fica-se em arroubamento, que não pode sua baixeza sofrer tão espantosa vista. – Digo espantosa, porque, com ser a mais formosa
e de maior deleite que uma pessoa possa imaginar, (embora vivesse mil anos e trabalhasse em
o pensar, porque vai muito além de quanto cabe em nossa imaginação e entendimento)
a sua presença é de tão grandíssima majestade que causa grande espanto à alma. A ousadas, não é preciso aqui perguntar
como a alma sabe quem é, sem que lho tenham dito, pois se dá bem a conhecer que é o
Senhor do céu e da terra; o que não se dá com os reis cá deste mundo que, por si mesmos,
em bem pouco serão tidos, se não vai junto deles o seu acompanhamento, ou se não dizem
quem são. – Oh! Senhor, como Vos desconhecemos os cristãos!
Que será aquele dia quando nos vierdes julgar? Pois vindo aqui, tão de amizade, a tratar
com Vossa esposa, infunde tanto temor o olhar para Vós!… Oh! filhas, que será quando,
com tão rigorosa voz, disser: «Ide, malditos de meu Pai?». – Fique-nos agora isto na memória, desta
mercê que Deus faz à alma, o que não será para nós pouco bem, pois São Jerónimo,
ainda que santo, não a apartava da sua memória e assim não nos parecerá nada quanto aqui
padecermos no rigor da religião que guardamos; pois mesmo quando durar muito, é um momento,
comparado com aquela eternidade. Eu vos digo de verdade que, com ser tão ruim
como sou, nunca tive tanto medo dos tormentos do inferno, que não fosse menos que nada
em comparação do que tinha quando me lembrava que os condenados haviam de ver irados estes
olhos tão formosos e mansos e benignos do Senhor, porque parece que não o podia sofrer
meu coração: isto tem sido toda a minha vida. Quanto mais o temerá a pessoa a quem assim
se tem representado, pois é tanto o sentimento, que a deixa sem sentir! Esta deve ser a causa
de ficarem suspensão; porque o Senhor ajuda à sua fraqueza para que se junte com Sua
grandeza nesta tão subida comunicação com Deus. – Quando a alma puder estar com muito vagar
olhando este Senhor, eu não creio que será visão, mas sim alguma veemente consideração,
alguma figura fabricada na imaginação; será como coisa morta em comparação com esta
outra. – Acontece a algumas pessoas (e sei que é
verdade, pois que o têm tratado comigo, e não três ou quatro, senão muitas) serem
de tão fraca imaginação, ou de entendimento tão eficaz, ou não sei o que é, que se
embevecem na imaginação de modo que tudo o que pensam, lhes parece claramente que o
vêem; se, porém, tivessem visto a verdadeira, entenderiam, sem lhes ficar dúvida alguma,
o engano; porque elas mesmas é que vão compondo o que vêem com a sua imaginação, e depois
não faz isso nenhum efeito, mas ficam frias, muito mais do que se vissem uma imagem devota. É coisa que bem se entende que não é para
fazer caso, e assim esquece-se muito mais do que uma coisa sonhada. – Na visão de que tratamos não é assim,
senão que, estando a alma muito longe de cuidar que há-de ver alguma coisa, nem lhe
passa pelo pensamento; de repente se lhe representa muito por junto, e revolve todas as potências
e sentidos com um grande temor e alvoroto, para os pôr logo naquela ditosa paz. Assim como, quando foi derrubado São Paulo,
veio aquela tempestade e alvoroto do céu, assim aqui, neste mundo interior, se faz também
grande movimento, e num instante – como já disse – fica tudo sossegado e esta alma tão
ensinada em umas verdades tão grandes, que não precisa de outro mestre. A verdadeira
Sabedoria, sem trabalho seu, tirou-lhe a ignorância, e durante algum tempo a alma fica com uma
certeza de que esta mercê é de Deus, que, por mais que lhe dissessem o contrário, nunca
lhe poderiam, por então, meter o temor de que ali possa haver engano. Depois, metendo-lho o confessor, deixa-a Deus,
para que ande vacilando se, por seus pecados, seria possível; mas não o acreditando – como
eu disse nestas outras coisas – senão à maneira de tentações em coisas de fé, nas
quais o demónio pode alvorotar, mas não pode fazer com que a alma deixe de estar firme;
antes, quanto mais a combate, mais ela fica com a certeza de que o demónio não a poderia
deixar com tantos bens, e assim é, pois não pode tanto no interior da alma; poderá, sim,
representar-lho, mas não com esta verdade e majestade e operações. – Como isto não pode ser visto pelos confessores,
nem, porventura, aqueles a quem Deus faz esta mercê lho saberão dizer, temem e com muita
razão. E assim é mister ir com cuidado, até aguardar o tempo do fruto que dão estas
aparições e ir, pouco a pouco, olhando à humildade em que deixam a alma, e à fortaleza
na virtude; que, se é demónio, depressa dará sinal e o apanharão em mil mentiras. Se o confessor tem experiência e passou por
estas coisas, pouco tempo precisa para o entender, pois logo verá na relação se é Deus ou
imaginação ou demónio; em especial, se Sua Majestade lhe deu o dom de conhecer os
espíritos, que, se o tem e se teta letras, embora não tenha experiência, o conhecerá
muito bem. – O que é muito preciso, irmãs, é que andeis
com grande lhaneza e verdade com o confessor; não digo já em dizer os pecados, que isso
claro está, senão em contar a vossa oração. Porque, se não há isto, não vos asseguro
que ides bem, nem que é Deus quem vos ensina; porque Ele é muito amigo de que, ao que está
em Seu lugar, se trate com a mesma verdade e claridade como a Ele mesmo, desejando que
o confessor entenda todos os nossos pensamentos, quanto mais as obras, por pequenas que sejam. E com isto não andeis depois perturbadas
nem inquietas, que, ainda mesmo que não fosse de Deus, se tendes humildade e boa consciência,
não vos danificará. Sua Majestade sabe tirar bens dos males e,
pelo caminho por onde o demónio vos queria fazer perder, ganhareis mais. Pensando que Deus vos faz tão grandes mercês,
esforçar-vos-eis em contentá-l’O melhor e andar sempre com a memória ocupada na Sua
imagem; porque, como dizia um grande letrado, o demónio é grande pintor, e se lhe mostrasse,
muito ao vivo, uma imagem do Senhor, que não lhe pesaria avivar com ela a sua devoção
e para fazer guerra ao demónio com suas mesmas maldades; porque, ainda que um pintor seja
muito mau, nem por isso se há-de deixar de reverenciar a imagem que ele faz, se essa
imagem é a de todo o nosso Bem. – Parecia-lhe muito mal o que alguns aconselham,
que façam figas quando assim virem alguma visão; porque dizia que, onde quer que vejamos
pintado o nosso Rei, O devemos reverenciar; e vejo que tinha razão, porque até mesmo
aqui se sentiria. Se uma pessoa que quer bem a outra, soubesse que ela lhe fazia semelhantes
vitupérios ao seu retrato, não gostaria disso. Quanta maior razão não é, pois,
que sempre se tenha respeito onde quer que vejamos um crucifixo, ou qualquer retrato
do nosso Imperador. Ainda que tenha escrito isto em outra parte,
folgo de o pôr aqui, porque vi uma pessoa andar aflita por lhe mandarem servir-se deste
remédio. Não sei quem o inventou para tanto atormentar a quem não pode fazer menos do
que obedecer, se o confessor lhe dá este conselho, parecendo-lhe que vai perdida se
o não faz. O meu conselho é que, embora vo-lo dê, lhe digais esta razão com humildade,
e não o aceiteis. Em extremo me quadraram muito as boas razões que me deu quem mo disse
neste caso. – Grande lucro tira a alma desta mercê do
Senhor, pois, quando pensa n’Ele ou em Sua Vida ou Paixão, recorda-se de seu mansíssimo
e formoso rosto, o que é grandíssimo consolo, tal como aqui no-lo daria maior o ter visto
uma pessoa que nos faz muito bem, do que se nunca a tivéssemos conhecido. Eu vos digo
que dá grande consolação e proveito tão saborosa memória. Outros muitos bens traz consigo, mas como
já tanto fica dito dos efeitos que fazem estas coisas, e se há-de dizer mais ainda,
não me quero cansar nem cansar-vos, mas só avisar-vos muito que, quando souberdes ou
ouvirdes que Deus faz estas mercês às almas, nunca Lhe supliqueis nem desejeis que vos
leve por este caminho; embora vos pareça muito bom, e se haja de ter em muito e reverenciar,
não convém fazê-lo, por algumas razões: a primeira, porque é falta de humildade querer
que se vos dê o que nunca haveis merecido, e assim creio que não terá muita quem o
desejar; porque, assim como um pequeno lavrador está longe de desejar ser rei, parecendo-lhe
impossível, porque não o merece, assim também o está o humilde de coisas semelhantes; e
creio eu que estas coisas nunca se darão, porque, primeiro que faça estas mercês,
dá o Senhor um grande conhecimento próprio. Pois, como entenderá, com verdade, que se
lhe faz uma muito grande mercê em não estar já no inferno, quem tem tais pensamentos?
A segunda, porque é muito certo ser enganado, ou estar muito em perigo de o ser; porque
o demónio não precisa mais do que ver uma pequena porta aberta para fazer mil trapalhices.
A terceira; é que a mesma imaginação, quando há um grande desejo, faz entender à própria
pessoa que ela vê e ouve aquilo que deseja, tal como os que andam com vontade de uma coisa
durante o dia e pensando muito nela, lhes acontece virem a sonhar com ela de noite. A quarta, é muito grande atrevimento querer
eu escolher caminho, não sabendo qual o melhor, mas sim deixar ao Senhor, que me conhece,
que me leve por aquele que me convém, para que em tudo faça a Sua vontade. A quinta,
pensais que são poucos os trabalhos que padecem aqueles a quem o Senhor faz estas mercês?
Não, são grandíssimos e de muitas maneiras. E sabeis vós se seríeis pessoas para os
sofrer? A sexta, porque talvez por aí mesmo por onde pensais ganhar, perdereis, como Saul,
por ser rei. – Enfim, irmãs, além destas há outras;
e crede-me que, o mais seguro, é não querer senão o que Deus quer, pois nos conhece e
ama mais do que nós mesmos. Ponhamo-nos em Suas mãos, para que seja feita a Sua vontade
em nós; e não poderemos errar se, com determinada vontade, nos ficamos sempre nisto. Deveis
advertir que, por se receberem muitas mercês destas, não se merece mais glória, porque
antes ficam esses mais obrigados a servir, pois recebem mais. Quanto ao merecer mais, não no-lo tira o
Senhor, pois está na nossa mão; e assim há muitas pessoas santas que nunca souberam
que coisa é receber uma destas mercês, e outras que as recebem, e não o são. E não
penseis que são contínuas; antes, por uma vez que o Senhor as faz, são muitos os trabalhos;
e assim a alma não se lembra de pensar se as há-de receber mais vezes, mas sim em como
servir por elas. – Verdade é que deve ser isto de grandíssima
ajuda para se ter virtudes em mais subida perfeição; más aquele que as tiver por
as ter ganho à custa do seu trabalho, muito mais merecerá. Eu sei de uma pessoa, a quem
o Senhor tinha feito algumas destas mercês, – e até de duas, e uma era homem, – que estavam
tão desejosas de servir a Sua Majestade, à sua custa, sem estes grandes regalos, e
tão ansiosas de padecer, que se queixavam a Nosso Senhor porque lhas dava, e se pudessem
não as receber, as escusariam. Digo regalos, não destas visões porque,
enfim, vêem seu grande lucro e que são muito de estimar senão dos que o Senhor dá na
contemplação. – Verdade é que estes desejos também são
sobrenaturais, a meu parecer, e de almas muito enamoradas, as quais quereriam que o Senhor
visse que não O servem a soldo; e assim, – como disse, – nunca se lembram de que hão-de
receber glória por qualquer coisa, para se esforçarem mais a servir por esse motivo,
mas sim para contentar o amor, cujo natural é operar sempre de mil maneiras. Se pudesse,
quereria buscar invenções para a alma se consumir n’Ele; e, se fosse preciso ficar
para sempre aniquilada para maior honra de Deus, fá-lo-ia de muito boa vontade. Seja Ele louvado ápara sempre, amen; que,
abaixando-Se a comunicar com tão miseráveis criaturas, quer mostrar Sua grandeza. CAPÍTULO, 10. Diz outras mercês que Deus
faz à alma por modo diferente das que ficam agora ditas, e do grande proveito que delas
fica. – De muitas maneiras se comunica o Senhor
à alma com estas aparições; algumas, quando está aflita; outras, quando lhe há-de vir
algum trabalho grande; outras, para Sua Majestade Se regalar com ela e a regalar a ela. Não há motivo para particularizar mais cada
coisa, pois meu intento não é senão dar a conhecer cada uma das diferenças que há
neste caminho, até onde eu as entender, para que entendais, irmãs, de que maneira são
e os efeitos que deixam; e também para que não se vos afigure que cada imaginação
é uma visão e para que, quando o for, entendendo que é possível, não andeis alvorotadas
e aflitas. Pois ganha muito o demónio, e goza à grande de ver uma alma aflita e inquieta,
porque vê que isso lhe é estorvo para se empregar toda em amar e louvar a Deus. Por outras maneiras se comunica Sua Majestade,
assaz mais subidas e menos perigosas; porque o demónio, creio, não as poderá contrafazer
e, assim, mal se podem dizer, por ser coisa muito oculta, porquanto as imaginárias melhor
se podem dar a entender. – Acontece, quando o Senhor é servido, estando
a alma em oração e muito em seus sentidos, vir-lhe de repente uma suspensão, na qual
o Senhor lhe dá a entender grandes segredos, que parece os vê no mesmo Deus. Estas, porém,
não são visões da sacratíssima Humanidade, e embora diga que vê, não vê nada, porque
não é visão imaginária, senão intelectual, na qual se lhe descobre como em Deus se vêem
todas as coisas, e Ele as tem todas em Si mesmo. E é de grande proveito, porque, ainda que
passa num momento, fica muito gravada, e causa grandíssima confusão; vê-se mais claramente
a maldade de quando ofendemos a Deus, porque no mesmo Deus – digo, estando dentro d’Ele
– fazemos grandes maldades. Quero fazer uma comparação, se acertar, para vo-lo dar a
entender, porque, embora isto seja assim e o ouçamos muitas vezes, ou não reparamos
nisso, ou não o queremos entender, pois não parece que seria possível sermos tão atrevidos,
se se entendesse tal como é. – Façamos agora de conta que Deus é como
uma morada ou palácio muito grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo
Deus. Pode porventura o pecador, para fazer suas maldades, apartar-se deste palácio?
Não, por certo; senão que, dentro do mesmo palácio, que é o mesmo Deus, passam-se as
abominações e desonestidades e maldades que fazemos nós os pecadores. Oh! coisa temerosa
e digna de grande consideração e muito proveitosa para os que sabemos pouco que não acabamos
de entender estas verdades e não seria possível ter atrevimento tão desatinado! Consideremos, irmãs, a grande misericórdia
e sofrimento de Deus em não nos aniquilar ali imediatamente; e demos-Lhe muitas graças,
e tenhamos vergonha de nos sentirmos por coisa que se faça ou diga contra nós; que a maior
maldade do mundo é ver que Deus Nosso Criador sofre tantas dentro de Si, mesmo às Suas
criaturas, e que nós sintamos alguma vez uma, única palavra que se diga em nossa ausência,
e talvez sem má intenção. – Oh! miséria humana! Quando, mas quando,
filhas, imitaremos em alguma coisa este grande Deus? Oh! e não se nos vá afigurar que já
fazemos algo em sofrer injúrias! Mas passemos, de muito boa vontade, por tudo e amemos a
quem no-las faz, pois este grande Deus não deixou de nos amar a nós, ainda que O tenhamos
ofendido muito, e assim Ele tem razão de sobejo em querer que todos perdoem, por mais
agravos que lhes façam. Eu vos digo, filhas, que embora passe depressa
esta visão, é uma grande mercê que faz Nosso Senhor a quem a faz, se se quiser aproveitar
dela, trazendo-a presente na memória muito de habitualmente. – Também acontece, assim muito de repente
e de maneira que nem se sabe dizer, mostrar Deus em Si mesmo uma verdade que parece deixa
obscurecidas todas as que há nas criaturas, e muito claramente dá a entender que só
Ele é a verdade que não pode mentir; e dá-se bem a entender o que diz David em um salmo,
que todo o homem é mentiroso; coisa que nunca jamais se entenderia assim, ainda que se ouvisse
muitas vezes, e é verdade que não pode falhar. Lembro-me de Pilatos, o muito que perguntava
a Nosso Senhor, quando em Sua Paixão Lhe disse: «O que é a verdade», e de quão
pouco aqui entendemos desta suma Verdade. – Eu quisera poder dar-me melhor a entender
neste caso, mas não se pode dizer. Tiremos daqui, irmãs, que, para nos conformarmos
com o nosso Deus e Esposo em alguma coisa, será bem que procuremos muito andar sempre
nesta verdade. Não digo só que não digamos mentiras, pois
nisso, glória a Deus, já vejo que tendes em grande conta nestas casas de não a dizer
por coisa nenhuma, mas que andemos em verdade diante de Deus e das gentes, de quantas maneiras
pudermos; em especial, não querendo que nos tenham por melhores do que somos e, em nossas
obras, dando a Deus o que é Seu e a nós o que é nosso, e procurando em tudo a verdade,
e assim termos em pouco este mundo que é todo mentira e falsidade e, como tal, não
é perdurável. – Uma vez estava eu considerando por que razão
era Nosso Senhor tão amigo desta virtude da humildade, e logo se me pôs diante – a
meu parecer sem eu considerar nisso, mas de repente – isto: é porque Deus é a suma Verdade,
e a humildade é andar na verdade. E é muito grande verdade não termos coisa boa de nós
mesmos, senão a miséria e sermos nada; e, quem isto não entende, anda em mentira. Quem
melhor o entende, mais agrada à suma Verdade, porque anda nela. Praza a Deus, irmãs, nos
faça mercê de não sairmos nunca deste próprio conhecimento, amen. – Nosso Senhor faz destas mercês à alma,
porque, como a verdadeira esposa, que já está determinada a fazerem tudo a Sua Vontade,
lhe quer dar alguma notícia daquilo em que a há-de fazer, e de Suas grandezas. Não
há para que tratar de mais coisas, e destas duas falei por me parecer de grande proveito;
pois, em coisas semelhantes não há que temer, senão louvar ao Senhor, porque as dá; porque
a meu parecer, nem o demónio, nem mesmo a imaginação própria, têm aqui grande cabida;
e assim a alma fica com grande satisfação. CAPÍTULO, 11º. Trata de uns desejos tão
grandes e impetuosos, que Deus dá à alma de O gozar, que a põem em perigo de perder
a vida, e do proveito que fica desta mercê que o Senhor faz. – Terão bastado todas estas mercês que o
Esposo tem feito à alma, para que a pombinha ou borboletazinha esteja satisfeita, (não
penseis que a tenho esquecida) e tome assento onde há-de morrer? Não, por certo; antes está muito pior. Ainda
mesmo que haja muitos anos que recebe estes favores, sempre geme e anda chorosa, porque
de cada um deles lhe fica maior dor. A causa é porque, como vai conhecendo mais e mais
as grandezas de Deus, e se vê estar tão ausente e apartada de O gozar, cresce muito
mais o desejo; porque também cresce o amor, quanto mais se lhe descobre o muito que merece
ser amado este grande Deus e Senhor; e nestes anos tem vindo crescendo, pouco a pouco, este
desejo, de maneira que a trazem tão grande pena, como agora direi. Disse anos, conformando-me com o que se passou
com a pessoa de que tenho falado aqui, que bem entendo que a Deus não há que pôr limites,
pois num momento pode fazer chegar uma alma ao mais subido quer aqui se diz. Poderoso
é Sua Majestade para tudo o que quiser fazer e desejoso de fazer muito por nós. – Pois há ocasiões em que estas ânsias
e lágrimas e suspiros e os grandes ímpetos que ficam ditos, (e tudo isto parece proceder
do nosso amor, com grande sentimento, mas tudo não é nada em comparação deste outro,
porque este parece um fogo que está fumegando, e pode sofrer-se, embora com pena) andando
assim esta alma abrasando-se em si mesma, acontece muitas vezes, por um pensamento muito
ligeiro, ou por uma palavra que ouve de que nos tarda o morrer, vir de outra parte – não
se entende donde nem como – um golpe, ou como se viesse uma seta de fogo? Não digo que é seta, mas, seja que coisa
for, vê-se claramente que não podia proceder do nosso natural. Também não é golpe, embora
diga golpe; mas fere agudamente. E não é, a meu parecer, onde se costumam sentir as
penas, senão no muito fundo e íntimo da alma, onde este raio que passa depressa, deixa
tudo quanto encontra, desta terra de nosso natural, feito em pó. E, pelo tempo que dura, é impossível ter
memória de coisa alguma do nosso ser; porque, num instante, ata as potências, de maneira
que ficam sem nenhuma liberdade para nada, senão para as que lhe hão-de fazer acrescer
esta dor. – Não quereria que isto parecesse encarecimento,
porque vou vendo verdadeiramente que fico aquém, porque não se pode dizer tudo. É
um arroubamento de sentidos e potências, para tudo o que não é, como disse, ajudar
a sentir esta aflição. Porque o entendimento está muito vivo para entender a razão que
há para sentir o estar aquela alma ausente de Deus; e ajuda Sua Majestade com tão viva
notícia de Si naquele tempo, de maneira que faz crescer a pena em tal grau, que, quem
a tem, começa a dar grandes gritos. Apesar de ser pessoa sofrida e habituada a
padecer grandes dores, não pode então fazer mais; porque este sentimento não é no corpo,
como fica dito, mas sim no interior da alma. Por isto compreendeu esta pessoa quanto mais
fortes são os sentimentos da alma que os do corpo, e se lhe representou ser desta maneira
os que se padecem no purgatório, pois, o não ter corpo, não impede de padecer muito
mais que todos os que padecem cá na terra, tendo-o. – Eu vi uma pessoa assim, e verdadeiramente
pensei que morria, e não era grande maravilha, porque, na verdade, é grande perigo de morte;
e assim, ainda que dure pouco, deixa o corpo muito desconjuntado, e naquele tempo tem os
pulsos tão abertos, como se já quisesse dar a alma a Deus, e não é para menos; porque
o calor natural falta, e o abrasa de maneira que, com mais um pouco, ter-lhe-ia Deus cumprido
seus desejos. Não porque sinta pouca ou muita dor no corpo;
(ainda que se desconjunta – como tenho dito – de maneira que fica durante uns dois ou
três dias sem ter forças sequer para poder escrever, e com grandes dores; e até me parece
que o corpo lhe fica sempre com menos força do que antes) o não sentir, deve ser porque
é muito maior o sentimento interior da alma, e não faz caso de nenhuma coisa do corpo;
é como se tivéssemos uma dor muito aguda em qualquer parte e, ainda que haja outras
muitas, sentimo-las pouco; isto tenho-o eu bem provado. Aqui, nisto, nem pouco nem muito, nem creio
sentiria se a fizessem em pedaços. – Dir-me-eis que é imperfeição; pois, porque
não se conforma com a vontade de Deus, se Lhe está tão rendida? Até aqui podia fazer
isso, e com isso suportava a vida. Agora não, porque sua razão está de tal sorte, que
não é senhora dela, nem de pensar mais que ria razão que tem para penar; pois, se está
ausente seu Bem, para que quer a vida? Sente uma soledade estranha, porque nenhuma criatura
de toda a terra lhe faz companhia, nem creio lhe fariam as do Céu, a não ser Aquele a
quem ama, antes tudo a atormenta. Vê-se como urna pessoa dependurada, que não
assenta em coisa da terra, nem pode subir ao Céu; abrasada com esta sede, e não pode
chegar à água. E não é sede que se possa sofrer, mas já em tal extremo, que nenhuma
água lha tiraria, nem quer que se lhe tire, a não ser com aquela que Nosso Senhor disse
à Samaritana, e essa não lha dão. – Oh! valha-me Deus, Senhor, como afligis
aos Vossos amadores! Mas tudo é pouco para o que lhes dais depois.
Bem é que o muito custe muito; quanto mais que, se é para purificar esta alma, a fim
de que entre na sétima morada, assim como os que hão-de entrar no Céu se limpam no
purgatório, é tão pouco este padecer, como seria uma gota de água no mar. Tanto mais que, com todo este tormento e aflição
que, segundo creio, não o pode haver maior entre todas as aflições que há na terra,
(e esta pessoa tinha passado muitas, assim corporais como espirituais, mas tudo lhe parece
nada em comparação com esta) a alma sente que é de tanto preço esta pena, que entende
muito bem não a poder merecer; todavia este sentimento não é de modo que a alivie em
coisa alguma, mas, no entanto, a sofre de muito boa vontade, e sofreria toda a sua vida,
se Deus nisso fosse servido; ainda que não seria morrer de uma vez, senão estar sempre
morrendo; verdadeiramente não é menos que isso. – Pois consideremos, irmãs, aqueles que estão
no inferno, que não estão com esta conformidade, nem com este contentamento e gosto que Deus
põe na alma, nem vêem lucro neste padecer, senão que padecem sempre mais e mais. Sendo os tormentos da alma muito mais custosos
que os do corpo, e os que eles aí padecem, maiores em comparação do que estes que temos
aqui dito, e ver que estes serão para sempre sem fim, qual não será o tormento destas
desventuradas almas? E que podemos fazer em vida tão curta, ou padecer, que não seja
menos que nada para nos livrar de tão terríveis e eternos tormentos? Eu vos digo que será impossível dar a entender
quão sensível coisa é o padecer da alma e como é diferente ao do corpo, se não se
passa por isso; e quer o mesmo Senhor que o entendamos, para que melhor conheçamos
o muito e muito que Lhe devemos em nos trazer a estado em que, por Sua misericórdia, temos
esperança de que nos há-de livrar e perdoar nossos pecados. – Pois, tornando ao que tratávamos, (que
deixamos esta alma em grande pena) este rigor pouco lhe dura; será, quando muito, três
ou quatro horas, a meu parecer, porque, se muito durasse, a não ser por milagre, seria
impossível sofrê-lo a fraqueza natural. Já tem acontecido não durar mais de um quarto
de hora e ficar feita em pedaços. Verdade é que desta vez perdeu de todo os
sentidos, tal o rigor com que veio, (e estando em conversação na Páscoa da Ressurreição,
no último dia, e tendo estado toda a Páscoa com tanta aridez, que quase não entendia
que o era) só de ouvir uma palavra de não ver acabar-se a vida. E pensar-se em poder
resistir! Nem mais que, se metida num fogo, quisesse fazer com que a chama não tivesse
calor para queimar. Não é sentimento que se possa passar com
dissimulação, sem que as pessoas que estão presentes entendam o grande perigo em que
está, embora do interior não possam ser testemunhas. É verdade que lhe são de alguma companhia,
mas como se fossem sombras apenas; e assim lhe parecem todas as coisas da terra. – E para que vejais que é possível, se alguma
vez vos virdes nisto, acudir aqui nossa fraqueza e natural, estando a alma como tendes visto,
que morre por morrer, acontece alguma vez, quando isto aperta tanto que já parece que
para sair do corpo não lhe falta quase nada, que teme verdadeiramente e quereria então
que afrouxasse a pena para não acabar de morrer. Bem se deixa entender que este temor é de
fraqueza natural, pois, por outra parte, não se tira o seu desejo, nem é possível haver
remédio para tirar esta pena, até que lha tire o mesmo Senhor, o que quase sempre se
dá com um arroubamento grande, ou com alguma visão, onde o verdadeiro Consolados a consola
e fortalece, para que queira viver, enquanto for de Sua divina vontade. – Coisa penosa é esta, mas fica a alma com
grandíssimos efeitos e perdido o medo aos trabalhos que lhe podem suceder; porque, em
comparação do sentimento tão penoso que sentiu sua alma, lhe parece que não são
nada. De tal maneira fica aproveitada, que gostaria de a padecer muitas vezes. Mas também
não pode fazê-lo de maneira alguma, nem há remédio nenhum para a tornar a ter, até
que o Senhor queira, assim como não o há para lhe resistir nem tira-la quando vem. Fica com maior desprezo do mundo do que antes,
porque vê que nenhuma coisa dele lhe valeu naquele tormento, e muito mais desapegada
das criaturas, porque já vê que só o Criador é Quem pode consolar e fartar sua alma, e
com maior temor e cuidado de não O ofender, porque vê que também pode atormentar, assim
como consolar. – Duas coisas há neste caminho espiritual
que me parece a mim serem perigo de morte: uma é esta, e verdadeiramente o é, e não
pequeno; a outra, de muito excessivo gozo e deleite, o qual é em tão grandíssimo
extremo, que verdadeiramente parece desfalecer a alma, de sorte que não lhe falta mesmo
nada para acabar de sair do corpo; e na verdade não seria pouca a sua dita. Aqui vereis, irmãs, se tive ou não razão
em dizer que é preciso ânimo, e que terá razão o Senhor, quando Lhe pedirdes estas
coisas, de vos dizer o que respondeu aos filhos de Zebedeu: se poderiam beber o cálice. – Creio, irmãs, que todas responderemos que
sim, e com muita razão; porque Sua Majestade dá esforço a quem vê que o necessita, e
em tudo defende estas almas, e responde por elas nas perseguições e murmurações, como
o fazia por Madalena, ainda que não seja por palavras, será por obras; e enfim, enfim,
antes que morram, lhes paga tudo por junto, como agora vereis. Seja para sempre bendito, e louvem-n’O todas
as criaturas, amen. SÉTIMAS MORADAS CAPÍTULO, 1º. Trata das grandes mercês
que Deus faz às almas que chegaram a entrar nas sétimas moradas. Diz como, a seu parecer,
há alguma diferença entre alma e espirito, ainda que tudo seja um. Há coisas dignas
de ter em conta. – Parecer-vos-á, irmãs, que já está dito
tanto deste caminho espiritual, que não é possível ficar nada por dizer. Grande desatino
seria pensar isto; pois, se a grandeza de Deus não tem limites, tão-pouco o terão
as Suas obras. Quem acabará de contar Suas misericórdias e grandezas? É impossível,
e assim não vos espanteís do que está dito e do que se disser, pois não é mais que
uma insignificância de quanto há para contar de Deus. Grande misericórdia nos faz em ter comunicado
estas coisas a pessoa de quem as podemos vir a saber, para que, quanto mais soubermos que
se comunica às criaturas, mais louvemos Sua grandeza, e nos esforcemos por não ter em
pouco almas com quem tanto se deleita o Senhor. Cada uma de nós tem alma; porém, como não
as prezamos como merece criatura feita à imagem de Deus, não entendemos os grandes
segredos que nelas estão contidos. Praza a Sua Majestade, se assim é servido,
mova minha pena e me dê a entender como dizer-vos algo do muito que há para dizer, e Deus dá
a entender a quem introduz nesta morada. Muito o tenho suplicado a Sua Majestade, pois sabe
que meu intento é que não fiquem ocultas as Suas misericórdias, para que seja mais
louvado e glorificado o Seu Nome. – Tenho esperança de que, não por mim, mas
por vós, irmãs, Ele me há-de fazer esta mercê, para que entendais o que vos importa
não ser por vossa culpa que vosso Esposo deixe de celebrar este matrimónio espiritual
com vossas almas, pois traz tantos bens consigo, como vereis. Ô grande Deus! Parece que treme uma criatura
tão miserável como eu, ao tratar de coisa tão alheia dó que mereço entender! E verdade
é que tenho estado em grande confusão, pensando se seria melhor acabarem poucas palavras esta
morada; porque me parece que hão-de pensar que eu sei isto por experiência, o que me
causa grandíssima vergonha, porque, conhecendo eu quem ¡sou, é terrível coisa, Por outra
parte, pareceu-me tentação e fraqueza, embora façais mais juízos como este. Seja Deus louvado e conhecido um nadinha mais,
e grite contra mim todo o mundo; tanto mais que talvez eu já esteja morta, quando isto
se vier a ler. Seja bendito Aquele que vive e viverá para sempre, amen. – Quando Nosso Senhor é servido ter piedade
do que padece e tem padecido por seu desejo esta alma, a quem espiritualmente já tomou
por Esposa, antes de se consumar o matrimónio espiritual, mete-a em Sua morada, que é esta
sétima; porque, assim como a tem no Céu, deve ter na alma uma mansão, digamos outro
céu, onde só mora Sua Majestade. Porque importa-nos muito, irmãs, que entendamos
que a alma não é alguma coisa escura; pois, como não a vemos, o mais frequente será
parecer que não há outra luz interior além desta que vemos, e que dentro da nossa alma
está alguma escuridão. Da que não está em graça, eu vo-lo confesso,
e não por falta do Sol de Justiça, que está nela dando-lhe o ser; mas sim, por ela não
estar capaz para receber a luz, como creio ter dito na primeira morada, que uma pessoa
tinha entendido que estas desventuradas almas estão assim como num cárcere escuro, atadas
de pés e mãos, sem poderem fazer nenhum bem que lhes aproveite para merecer, e cegas
e mudas. Com razão nos podemos compadecer delas e
olhar a que, nalgum tempo, nos vimos assim e que o Senhor pode também ter misericórdia
delas. – Tomemos, irmãs, particular cuidado de Lho
suplicar e de não nos descuidarmos, pois é grandíssima esmola rogar pelos que estão
em pecado mortal; muito maior do que seria se víssemos um cristão de mãos atadas atrás
das costas com uma forte cadeia, e amarrado a um poste, morrendo de fome, e não por falta
de comida, pois tem junto de si mui apurados manjares, mas sim porque não os pode tomar
para os levar à boca; mesmo está com grande fastio, e vê que vai já expirar, e não
com morte como a de cá; mas eterna. Não seria grande crueldade estar a olhar
para ele e não lhe chegar à boca qualquer coisa de comer? E se por vossas orações
lhe tirassem as cadeias? Já estais a ver. Por amor de Deus vos peço que tenhais sempre
nas vossas orações uma lembrança para semelhantes almas. – Não falamos agora com elas, mas sim com
as que, por misericórdia de Deus, já fizeram penitência de seus pecados, e estão em graça.
E podemos considerar a alma não uma coisa metida a um canto e limitada, mas sim um mundo
interior, onde cabem tantas e tão lindas moradas como tendes visto; e razão é que
assim seja, pois dentro desta alma há morada para Deus. Quando, pois, Sua Majestade é servido de
lhe fazer a dita mercê deste divino matrimónio, fá-la primeiro entrar em Sua morada, e quer
Sua Majestade que não seja como de outras vezes que a meteu nestes arroubamentos, nos
quais eu bem creio que a une então consigo, assim como na oração de união que fica
dita, ainda que à alma não pareça que é tão chamada para entrar em seu centro, como
aqui nesta morada, senão somente à parte superior. Nisto vai pouco; seja de uma maneira ou de
outra, o Senhor a une consigo, mas fazendo-a cega e muda, como ficou São Paulo em sua
conversão, e tirando-lhe o sentir como ou de que maneira é aquela mercê que goza;
porque o grande deleite que então sente a alma é de se ver junto de Deus. Mas, quando
a junta consigo, nenhuma coisa entende, pois se perdem todas as potências. – Aqui é de outra maneira. Quer já o nosso
bom Deus tirar-lhe as escamas dos olhos, e que veja e entenda alguma coisa da mercê
que lhe faz, embora seja por uma maneira estranha; e metida naquela morada por visão intelectual,
por certa maneira de representação da verdade, mostra-se-lhe a Santíssima Trindade, todas
as Três Pessoas, com uma inflamação que primeiro lhe vem ao espírito, à maneira
de tema nuvem de grandíssima claridade. E por uma notícia admirável, que se dá
à alma, entende com grandíssima verdade serem estas Pessoas distintas todas Três
uma substância e um poder e um saber e um só Deus. De maneira que, o que acreditamos
por fé, ali o entende a alma, podemos dizer, por vista, ainda que não é vista dos olhos
do corpo, porque não é visão imaginária. Aqui se lhe comunicam todas as Três Pessoas
e lhe falam, e lhe dão a entender aquelas palavras que diz o Evangelho que disse o Senhor:
que viria Ele e o Pai e o Espírito Santo a morar com a alma que O ama e guarda Seus
mandamentos. – Oh! valha-me Deus! Quão diferente coisa
é ouvir estas palavras e crer nelas, ou entender por este modo quão verdadeiras são! E cada
dia se espanta mais esta alma, porque lhe parece que nunca mais se apartam dela, antes
vê notoriamente, da maneira que fica dita, que estão no interior de sua alma, e no mais
interior, em uma coisa muito profunda, que não sabe dizer como é, porque não tem letras,
sente em si esta divina companhia: – Parecer-vos-á, segundo isto, que não andará
em si, mas tão embebida que não possa atender a nada. Atende, sim e muito mais que antes, a tudo
o que é serviço de Deus e, em lhe faltando as ocupações, fica-se com aquela agradável
companhia; e, se a alma não falta a Deus, jamais Ele lhe faltará, a meu parecer, em
lhe dar a conhecer tão conhecidamente a Sua presença; e ela tem grande confiança de
que Deus não a deixará, pois, se lhe fez esta mercê, não é para que a perca; e assim
se pode pensar, ainda que ela não deixe de andar com mais cuidado que nunca, para não
Lhe desagradar em nada. – O trazer em si esta presença entende-se
que não é tão inteiramente, digo, tão claramente, como se lhe manifesta na primeira
vez e algumas outras em que Deus lhe quer fazer este regalo; porque, se isto assim fosse,
era impossivel atender a outra coisa, nem mesmo viver entre gente; mas, ainda que não
é com esta luz tão clara, sempre adverte que se acha com esta companhia. Digamos agora que é como se uma pessoa estivesse
com outras num aposento muito claro, e fechassem as janelas e ficasse às escuras: não porque
lhe tiraram a luz para as ver e porque até voltar a luz não as vê, deixa de entender
que estão ali. É caso para perguntar se, quando volta a luz e ela as quer tornar a
ver, se poderá. Isto já não está em sua mão, mas só quando Nosso Senhor quer que
se abra a janela do entendimento; já bem grande misericórdia lhe faz em nunca se apartar
dela e de querer que ela o entenda tão claramente. – Parece-me que a Divina Majestade quer aqui
dispor a alma para mais com esta admirável companhia; porque está claro que será bem
ajudada para em tudo ir adiante na perfeição, e perder o temor que trazia algumas vezes,
das demais mercês que lhe fazia, como fica dito. E assim foi, que em tudo se achava melhorada,
e lhe parecia que, por mais trabalhos e negócios que tivesse, o essencial de sua alma jamais
se movia daquele aposento. De maneira que lhe parecia, de certo modo,
que havia divisão em sua alma, e andando com grandes trabalhos, que os teve pouco depois
de Deus lhe ter feito esta mercê, queixava-se dela, à maneira de Marta quando se queixou
de Maria, e algumas vezes dizia que ela se ficava sempre a gozar daquela quietude a seu
prazer, e a deixava a ela em tantos trabalhos e ocupações, que não Lhe podia fazer companhia. – Isto, filhas, parecer-vos-á desatino, mas
verdadeiramente passa-se assim; pois, ainda que se entende que a alma está toda junta,
não é fantasia o que disse, porque é coisa muito comum. Pelo que eu dizia que se vêem
coisas interiores, de maneira que é certo entender-se haver diferença, de certo modo,
e muito conhecida, entre a alma e o espírito, embora seja tudo um. Conhece-se entre eles
uma divisão tão delicada, que algumas vezes parece opera de diferente modo um do outro,
conforme o sabor que lhes quer dar o Senhor. Também me parece que a alma é coisa diferente
das potências, e que não é tudo uma mesma coisa. Há tantas e tão delicadas no interior,
que seria atrevimento pôr-me eu a declará-las. Lá o veremos, se o Senhor nos fizer mercê
de nos levar, por Sua misericórdia, aonde entendamos estes segredos. CAPÍTULO, 2º. Prossegue no mesmo. Diz a
diferença que há entre união espiritual e matrimónio espiritual. Declara-o com delicadas
comparações. – Pois, venhamos agora a tratar do divino
e espiritual matrimónio, ainda que esta grande mercê não se deve realizar com perfeição
enquanto vivermos, pois, se nos apartássemos de Deus, perder-se-ia este tão grande bem. A primeira vez que Deus faz esta mercê, quer
Sua Majestade mostrar-Se à alma por visão imaginária de Sua sacratíssima Humanidade,
para que o entenda bem e não esteja ignorante de que recebe tão soberano dom. A outras
pessoas será por outra forma; a esta de quem falamos, represen tou-se-lhe o Senhor, acabando
de comungar, em forma de grande resplendor e formosura e majestade, como depois de ressuscitado,
e lhe disse que já era tempo dela tomar as coisas d’Ele por suas, e Ele teria cuidado
das coisas dela, e outras palavras que são mais para se sentir do que para se dizer. – Parecer-vos-á que isto não era novidade,
pois já de outras vezes o Senhor tinha-se representado a esta alma desta maneira. Mas
foi tão diferente, que a deixou bem desatinada e espantada; primeiro, porque foi com grande
força esta visão; segundo, pelas palavras que lhe disse, e também porque no interior
da sua alma, onde esta visão se lhe representou, não tinha visto outras, a não ser a visão
passada. E emendei que há grandíssima diferença entre todas as visões passadas e as desta
morada, e tão. grande entre o desposório espiritual e o
matrimónio espiritual, como a que há entre dois desposados, e os que já não se podem
apartar. – Já disse que, embora se dêem estas comparações,
porque não há outras mais a propósito, entenda-se que aqui não há mais memória
de corpo de que se a alma já não estivesse nele, mas só de espírito; e no matrimónio
espiritual muito menos, porque esta secreta união passa-se no centro mais interior da
alma, que deve ser onde está o mesmo Deus, e, a meu parecer, não é preciso porta para
entrar. Digo que não é preciso porta, porque em
tudo o que se tem dito até aqui, parece que é por meio dos sentidos e potências e este
aparecimento da Humanidade do Senhor assim devia ser; mas o que se passa na união do
matrimónio espiritual é muito diferente. Aparece o Senhor neste centro da alma sem
visão imaginária, mas intelectual, ainda que mais delicada que as ditas, como apareceu
aos Apóstolos, sem entrar pela porta, quando lhes disse: “Pax vobis”. É um segredo tão grande e uma mercê tão
subida o que Deus ali comunica à alma num instante, e o grandíssimo deleite que a alma
sente, que eu não sei a que o comparar: mas o Senhor quer-lhe manifestar, por aquele momento,
a glória que há no Céu, por uma maneira mais subida que nenhuma outra visão e gosto
espiritual. Não se pode dizer mais senão que – tanto
quanto se pode entender – fica a alma, digo, o espírito desta alma, feito uma coisa com
Deus; pois, como Ele é também espírito, Sua Majestade quis mostrar o amor que nos
tem, dando a entender a algumas pessoas até onde chega, para que louvemos Sua grandeza,
porque de tal maneira se quis juntar com a criatura, que, assim como os que já se não
podem apartar, não se quer Ele apartar dela. – O desposório espiritual é diferente, pois
muitas vezes se apartam, e a união também o é; porque, embora união seja juntarem-se
duas coisas numa só, enfim, podem-se apartar e ficar cada coisa de per si, como vemos ordinariamente
que passa depressa esta mercê do Senhor, e depois fica a alma sem aquela companhia,
digo de modo que ela o entenda. Nesta outra mercê do Senhor, não; porque sempre fica
a alma com o seu Deus naquele centro. Digamos que a união é como se duas velas
de cera se juntassem em tal extremo, que toda a luz fosse uma, ou que o pavio, a luz e a
cera fosse tudo um; mas depois pode-se apartar muito bem uma vela da outra, e ficam duas
velas, e o pavio da cera. Aqui, é como se caísse água do céu num
rio ou numa fonte, onde fica tudo feito água e não se poderá já dividir nem apartar
o que é água do rio e a que caiu do céu; ou se um pequeno arroiozito entra no mar,
não haverá meio de os apartar; ou como, se num aposento houvesse duas janelas por
onde entrasse muita luz; ainda que entra dividida, se faz toda uma luz. – Talvez seja isto o que disse São Paulo:
«O que se arrima e chega a Deus, faz-se um espírito com Ele», tocante a este soberano
matrimónio, que pressupõe Sua Majestade já ter chegado a Si a alma por união. E
também disse: «Mihi vivere Christus est, mori lucrum»; assim me parece pode dizer
aqui a alma, porque é onde a borboletazinha que dissemos; morre, e com grandíssimo gozo,
porque a sua vida é já Cristo. – Isto entende-se melhor, com o andar do tempo,
pelos efeitos, porque se entende claramente, por umas secretas aspirações, ser Deus o
que dá vida à nossa alma, e muitas vezes tão vivas, que de maneira nenhuma se pode
duvidar, porque as sente muito bem a alma, ainda que não se sabem dizer, mas é tanto
este sentimento que produzem algumas vezes umas palavras regaladas; que parece que não
se pode deixar de dizer: «ó vida da minha vida, e sustento que me sustentas»! e coisas
deste género. Porque, daqueles peitos divinos, onde parece
Deus estar sempre sustentando a alma, saem uns veios de leite, que conforta toda a gente
do castelo; parece querer o Senhor que de algum modo gozem do muito que goza a alma,
e que daquele rio caudaloso, onde se absorve esta fontezita pequenina, saia algumas vezes
algum jacto daquela água para sustentar aqueles que no corporal hão-de servir a estes dois
desposados. E, assim como sentiria esta água uma pessoa
que está descuidada, se a banhassem de repente nela, e não podia deixar de o sentir, da
mesma maneira, e ainda com mais certeza, se entendem estas operações que digo. Porque,
assim como não nos poderia sobrevir um grande jacto de água, se não tivesse seu princípio
– como disse, – assim também se entende claramente que há no interior da alma Quem arroje estas
setas e dê vida a esta vida, e que há sol donde procede uma grande luz, enviada do interior
da alma às potências. Ela – como já disse – não se muda daquele
centro, nem perde a paz; porque o mesmo Senhor que a deu aos Apóstolos, quando estavam juntos,
lha pode dar a ela. – Tenho-me lembrado que esta saudação do
Senhor devia ser muito mais do que soa, assim como o dizer à gloriosa Madalena que fosse
em paz; porque, como as palavras do Senhor são em nós como obras feitas, tde tal modo
deviam operar naquelas almas já dispostas, que apartasse nelas tudo o que é corpóreo
na alma, e a deixasse como puro espírito, para que se pudesse juntar nessa união celestial
com o Espírito incriado, pois é muito certo que, em nos esvaziando de tudo o que é criatura,
e desapegando-nos dela por amor de Deus, o mesmo Senhor a há-de encher de Si mesmo. E assim, orando uma vez Jesus Cristo Nosso
Senhor por Seus Apóstolos – não sei onde é, – disse que fossem uma coisa com o Pai
e com Ele, como Jesus Cristo está no Pai e o Pai está n’Ele. Não sei que maior amor
pode haver do que este! E aqui não deixamos todos de entrar, pois assim o disse Sua Majestade:
«Não rogo só por eles, senão por todos aqueles que hão-de crer também em Mim»,
e diz ainda: «Eu estou neles». – Oh! valha-me Deus! que palavras tão verdadeiras,
e como as entende a alma, que nesta oração o vê por si mesma! E como o entenderíamos
todas, se não fosse por nossa culpa! Porque as palavras de Jesus Cristo, nosso Rei e Senhor,
não podem falhar!” Mas, como nós faltamos em nos dispor e desviar
de tudo o que pode embaraçar esta luz, não nos vemos neste espelho que contemplamos,
onde está esculpida a nossa imagem. – Voltando pois ao que dizíamos, em o Senhor
metendo á alma nesta Sua morada, que é o centro da mesma alma, assim como dizem que
o céu empíreo, onde está Nosso Senhor, não se move como os demais, assim parece
que, em entrando aqui, já não há nesta alma os movimentos que costuma haver nas potências
e imaginação, de modo que a prejudiquem e lhe tirem a paz. Parece que quero dizer que, chegando a alma
a ponto de Deus lhe fazer esta mercê, está segura da sua salvação e de não tornar
a cair. Não digo tal; e em quantas partes o tratar
desta maneira, dizendo que parece, estar, – a alma em – segurança, entenda-se que é
enquanto a Divina Majestade a tiver assim de Sua mão, e ela não O ofender. Pelo menos, sei de certeza que, embora se
veja neste estado e lhe tenha durado anos, não se tem por segura, mas sim que anda com
muito mais temor que antes em se guardar de qualquer pequena ofensa a Deus, e com tão
grandes desejos de O servir, como se dirá adiante, e habitualmente com pena e confusão
de ver o pouco, que pode fazer e o muito a que está obrigada, que não é pequena cruz,
senão bem grande penitência, porque, quanto a fazer penitência esta alma, quanto maior,
mais prazer lhe dá. A verdadeira penitência para ela é quando
Deus lhe tira a saúde e as forças para a poder fazer; pois, ainda que noutra parte
disse a grande pena que isto lhe dá, aqui é muito maior, e tudo lhe deve vir de onde
está plantada a raiz; pois, assim como a árvore que está junto das correntes das
águas tem mais frescor e dá mais fruto, por que maravilhar-nos dos desejos que tenha
esta alma, se o verdadeiro espírito dela está feito um com a água celestial, que
dissemos? – Pois, voltando ao que dizia, não se entenda
que as potências, sentidos e paixões estão sempre nesta paz; a alma sim. Mas nestas moradas
não deixa de haver tempos de guerra, de trabalhos e de fadigas; mas são de maneira que não
sai da sua paz nem do seu posto: isto é o normal? Este centro da nossa alma, ou este espírito,
é coisa tão dificultosa de dizer, e até mesmo de crer, que, por não me saber dar
a entender, penso vos dê, irmãs, alguma tentação de não crer o que digo; porque
dizer que há trabalhos e penas, e que a alma está em paz, é coisa dificultosa de acreditar.
Quero dar-vos uma comparação ou duas: praza a Deus que, sejam tais que diga alguma coisa
com elas; mas, se assim não for, eu sei que sou verdadeira no que digo. – Está o Rei no seu palácio, e há muitas
guerras em seu reino, e muitas coisas penosas, mas nem por isso deixa de estar em seu posto;
assim também aqui, embora nessas outras moradas ande muita barafunda e haja feras peçonhentas,
e se oiça o ruído, ninguém entra naquela morada que a faça sair dali; nem as coisas
que ouve, ainda que lhe dêem alguma pena, não é de modo a que alvorocem e lhe tirem
a paz, porque as paixões estão já vencidas, de sorte que têm medo de entrar ali, porque
sairão mais rendidas. Dói-nos todo o corpo; mas, se a cabeça está
sã, porque nos dói o corpo, não doerá a cabeça. Estou-me a rir destas comparações,
que não me contentam, mas não sei outras. Pensai, – o. que quiserdes; mas é verdade
o que disse. CAPÍTULO, 3º. Trata dos grandes efeitos
que causa esta dita oração. É preciso prestar atenção, e lembrar-se dos efeitos que faz,
porque é coisa admirável a diferença que há entre estes e. os anteriores. – Agora, pois, dizemos que esta pequena borboleta
já morreu, com grandíssima alegria de ter encontrado repouso, e que nela vive Cristo.
Vejamos que vida faz, ou que diferença há de quando ela vivia; porque nos efeitos veremos
se é verdadeiro o que ficou dito. Ao que eu posso entender, são os que direi. – Primeiro, um esquecimento de si, que verdadeiramente
parece que já não existe, como fica dito; porque está toda ela de tal maneira, que
não se conhece nem se lembra que para ela há-de haver céu, nem vida, nem honra, porque
está toda empregada em procurar a de Deus; parece que as palavras que Sua Majestade lhe
disse fizeram efeito de obra, e foi que olhasse pelas coisas d’Ele, que Ele olharia pelas
suas? E assim, de tudo quanto pode suceder, não
tem cuidado, mas sim um estranho esquecimento, pois, – como digo, – parece que já não é,
nem quereria ser nada de nada, a não ser quando entende que pode haver, da sua parte,
alguma coisa com que acrescente um ponto à glória e honra de Deus, porquanto ela daria
por isto, de muito boa vontade, a sua vida. – Não entendais por isto, filhas, que deixe
de ter conta com dormir e comer, o que não lhe é pequeno tormento, e de fazer tudo a
que está obrigada conforme a seu estado; falamos em coisas interiores, que de obras
exteriores pouco há a dizer; antes esta é a sua pena: ver que é nada o que podem as
suas forças. Em tudo que pode e entende que é serviço de Nosso Senhor, não o deixaria
de fazer por nenhuma coisa da terra. – O segundo é um grande desejo de padecer,
mas não de modo a inquietá-la, como costumava; porque é em tanto extremo o desejo que fica
nestas almas de que se faça nelas a vontade de Deus, que tudo ò que Sua Majestade faz,
têm por bom. Se quiser que padeça, seja muito em boa hora; se não, não se mata por
isso como costumava. – Têm também estas almas um grande gozo
interior quando são perseguidas, com muito mais paz do que ficou dito, e sem nenhuma
inimizade para com aqueles que lhes fazem mal ou desejam fazer; antes; lhes cobram particular
amor, de maneira que, se os vêem em algum trabalho, sentem-no ternamente, e tomariam
qualquer trabalho sobre si para os livrar dele, e encomendam-nos a Deus de muito boa
vontade, e das mercês que lhes faz Sua Majestade folgariam perder, para que as fizesse a eles,
a fim de que não ofendam a Nosso Senhor. – O que mais me espanta de tudo isto, é que
já tendes visto os trabalhos e aflições que tiveram estas almas desejando morrer para
gozar de Nosso Senhor; agora é tão grande o desejo que têm de O servir, e que por elas
seja louvado, e de fazer aproveitar alguma alma, se puderem, que não só não desejam
morrer, mas sim viver muitos anos padecendo grandíssimos trabalhos, para que, se pudessem,
o Senhor fosse louvado por elas, embora fosse em coisa muito pouca. E se soubessem de certeza que, em saindo a
alma do corpo, haviam de gozar de Deus, isso não lhes faz ao caso, nem o pensar na glória
que têm os Santos; não desejam, por então, de se verem nela. A sua glória, têm-na posta
em poder ajudar alguma coisa ao Crucificado, em especial quando vêem que é tão ofendido,
e os poucos que há que olhem deveras por Sua honra, desprendidos de tudo o mais. – É verdade que, algumas vezes que se esquece
disto, voltam com ternura os desejos de gozar de Deus e desejar sair deste desterro, em
especial vendo que O serve tão pouco; mas logo torna a si e vê que O tem de contínuo
consigo, e com isto se contenta, e oferece a Sua Majestade o querer viver, como uma oferenda,
a mais custosa que ela Lhe pode dar. Temor nenhum tem da morte, não mais do que
teria de um suave arroubamento. O caso é que, Quem lhe dava aqueles desejos com tormento
tão excessivo, lhe dá agora estes. Seja para sempre bendito e louvado. – Enfim, os desejos destas almas já não
são de regalos nem de gostos, pois têm consigo o mesmo Senhor, e Sua Majestade é Quem agora
vive. Claro está que Sua vida não foi senão um contínuo tormento, e assim faz com que
o seja a nossa, ao menos em desejos, pois nos leva como a fracos no resto, ainda que
muito nos caiba de Sua fortaleza quando vê que dela têm necessidade. Há um desapego grande de tudo, e um grande
desejo de estar sempre a sós ou ocupados em coisa que seja de proveito para alguma
alma. Nem aridez, nem trabalhos interiores, mas sim uma memória e ternura com Nosso Senhor,
que não quereria estar senão dando-Lhe louvores; e quando nisto se descuida, o mesmo Senhor
a desperta da maneira que fica dita, em que se vê clarissimamente que aquele impulso,
ou não sei como lhe chame, procede do interior da alma, como se disse dos ímpetos. Aqui, é com grande suavidade, mas nem procede
do pensamento, nem da memória, nem de coisa que se possa entender que a alma tenha feito
de sua parte. Isto é tão habitual e tantas vezes – que se pode ver bem, com advertência,
– porque, assim como um fogo, por maior que o queiram acender, não deita a chama para
baixo mas para cima, assim também se entende aqui que este movimento interior procede do
centro da alma e desperta as potências. – Por certo que, quando não houvesse outro
ganho neste caminho de oração, senão entender o particular cuidado que Deus tem de se comunicar
connosco e de nos andar rogando – que não parece isto outra coisa – para que estejamos
com Ele, bem empregados me parecem todos os trabalhos que se passam para gozar destes
toques do Seu amor, tão suaves e penetrantes. Isto, irmãs, tereis experimentado; porque
penso que, em se chegando a ter oração de união, anda o Senhor com este cuidado, se
nós não nos descuidamos de guardar Seus mandamentos. Quando isto vos acontecer, lembrai-vos que
é desta morada interior, onde está Deus em nossa alma, que vêm estes toques, e louvai-O
muito; porque certamente é Seu aquele recado ou bilhete escrito com tanto amor, e de maneira
que só quer que vós entendais aquela letra e o que por ela vos pede. E de maneira nenhuma deixeis de responder
a Sua Majestade, ainda que estejais ocupadas exteriormente e em conversação com algumas
pessoas; porque acontecerá muitas vezes querer-vos Nosso Senhor fazer esta secreta mercê em
Público, e – como a resposta há-de ser interior, – é muito fácil fazer o que digo, fazendo
um acto de amor, ou dizer o que disse São Paulo: «que quereis Senhor que eu faça?” De muitas maneiras vos ensinará aliem que
Lhe agradar, e é tempo aceitável; porque parece que se entende que Ele nos ouve, e
quase sempre este toque tão delicado dispõe a alma para poder fazer o que fica dito, com
vontade determinada. – A diferença que há aqui nesta morada,
é o que já se disse; que quase nunca há aridez nem alvorotos interiores, como havia
em todas as outras, de tempos a tempos, senão que a alma está quase sempre em quietude;
o não temer que esta mercê tão subida possa ser contrafeita pelo demónio, mas estar em
um ser com a certeza de que é Deus; porque – como fica dito – nada têm que ver aqui
os sentidos nem as potências; pois se descobriu Sua Majestade à alma, e a meteu consigo onde,
a meu parecer, não ousará entrar o demónio, nem o Senhor o deixará; e todas as mercês que Deus faz aqui à alma,
são – como já disse – sem nenhuma ajuda da mesma alma, a não ser a que ela já fez
de se entregar toda a Deus. – Passa-se com tanta quietude e tão sem ruído
tudo quanto o Senhor aqui faz e ensina para aproveitamento da alma, que me parece a mim
que é como na edificação do templo de Salomão, onde não se havia de ouvir nenhum ruído;
assim neste templo de Deus, nesta Sua morada, só Ele e a alma se gozam com grandíssimo
silêncio. Não tem que bulir nem buscar nada o entendimento; o Senhor que o criou, o quer
sossegar aqui, e que por uma pequena fresta veja o que se passa. Embora de tempos a tempos se perca esta vista
e o não deixe olhar, é pouquíssimo o intervalo; porque, a meu parecer, aqui não se perdem
as potências,` mas não operam e estão como espantadas. – Eu também o estou ao ver que, em chegando
aqui a alma, tiram-se-lhe todos os arroubamentos, a não ser uma ou outra vez, e esta não com
aqueles arrebatamentos e voo de espírito. E são muito raras vezes e essas quase sempre
não em público como antes, o que era muito habitual, nem lhe fazem ao caso as grandes
ocasiões de devoção que tem, como antes lhe acontecia; porque, se via uma imagem devota
ou ouvia um sermão, ou música, era quase o mesmo como se não ouvisse; e como a pobre
borboleta andava tão ansiosa, tudo a espantava e a fazia voar. Agora, ou porque encontrou seu repouso, ou
porque a alma tem visto tanto nesta morada, ou ainda porque não se acha com aquela soledade
que costumava sentir, não se espanta de nada, pois goza de tal companhia. Enfim, irmãs,
eu não sei qual seja a causa, mas, em começando o Senhor a mostrar o que há nesta morada,
e em metendo ali a alma, tira-se-lhe esta grande fraqueza, que lhe dava não pouco trabalho,
da qual antes ela se não libertara. Talvez seja que o Senhor a tenha fortalecido,
dilatado e habilitado; ou pode ser que quisesse dar a entender em público o que fazia com
estas almas em segredo, por alguns fins que Sua Majestade sabe; Seus juízos estão acima
de tudo quanto aqui podemos imaginar. – Estes efeitos, assim como todos os demais
que temos dito serem bons nos graus de oração que ficam ditos, dá-os Deus quando achega
a Si a alma, com este ósculo que pedia a Esposa, pois eu entendo que se cumpre aqui
esta petição. Aqui se dão as águas em abundância a esta corça que vai ferida.
Aqui se deleita no tabernáculo de Deus. Aqui acha a pombinha, que Noé enviou a ver se
era acabada a tempestade, a oliveira, em sinal de que achou terra firme no meio das águas
e tempestade deste mundo. Oh! Jesus! Quem soubesse as muitas coisas da Escritura
que deve haver para dar a entender esta paz de alma! Deus meu! pois vedes quanto importa,
fazei que os cristãos a queiram buscar, e àqueles a quem a tendes dado, não lha tireis,
por Vossa misericórdia; que, enfim, até que lhe deis a verdadeira e a leveis aonde
ela se não pode acabar, sempre se há-de viver com este temor. Digo a verdadeira paz,
não porque entenda que esta não o é, mas porque se poderia voltar à guerra primeira,
se nos apartássemos de Deus. – Mas, que sentirão estas almas ao ver que
poderiam carecer de tão grande bem? Isto as faz andar mais cuidadosas, e procurar tirar
forças de sua fraqueza, para não deixarem, por sua culpa, de fazer coisa que se lhes
possa oferecer, para mais agradar a Deus. Quanto mais favorecidas de Sua Majestade,
tanto mais acobardadas e temerosas andam de si mesmas. E; como nestas grandezas divinas, mais têm
conhecido suas próprias misérias, e se lhe tornam reais graves os seus pecados, andam
muitas vezes de modo que não ousam alçar os olhos, como o Publicano; outras, com desejos
de acabar a vida para se verem em segurança, ainda que voltam logo, com o amor que Lhe
têm, a querer viver para O servir – como fica dito – e confiam, tudo quanto lhes toca,
da Sua misericórdia. Algumas vezes as muitas mercês as fazem andar
mais aniquiladas, pois temem que, como uma nau que vai com demasiada carga se vai ao
fundo, lhe aconteça o mesmo. – Digo-vos, irmãs, que não lhes falta cruz,
salvo que não as inquieta nem lhes faz perder a paz; mas passam depressa, como uma onda,
algumas tempestades, e torna a bonança; porque a presença do Senhor que trazem consigo,
faz com que logo lhes esqueça tudo. Seja Ele para sempre bendito e louvado por todas
as Suas criaturas, amen. CAPÍTULO, 4º. Com o qual acaba, dando a
entender o que lhe parece que pretende Nosso Senhor em fazer tão grandes mercês à alma,
e como é necessário que andem juntas Marta e Maria. É muito proveitoso. – Não haveis de entender, irmãs, que estes
efeitos que tenho dito, estão sempre em um mesmo ser nestas almas e por isso, quando
me lembro, digo habitualmente; porque, algumas vezes, as deixa Nosso Senhor em seu natural,
e não parece senão que se juntam então todas as coisas peçonhentas do arrabalde
e das outras moradas deste castelo, para se vingarem delas do tempo em que não as podem
haver às mãos. – É verdade que isto dura pouco; um dia quando
muito, ou pouco mais. E neste grande alvoroto, que procede normalmente de alguma ocasião,
vê-se o que ganha a alma nesta boa companhia que tem; porque lhe dá o Senhor uma grande
inteireza, para não torcer nada em coisa que seja do Seu serviço e boas determinações;
mas antes parece que lhe crescem, e nem por um primeiro movimento muito pequeno se desviam
desta determinação. Como digo, isto é poucas vezes, mas quer
Nosso Senhor que ela não perca a memória de seu ser, para que sempre esteja humilde,
e também para que entenda melhor o que deve a Sua Majestade, e a grandeza da mercê que
recebe, e O louve. – Tão-pouco vos passe pelo pensamento que,
por estas almas terem grandes desejos e determinação de não fazer uma imperfeição por coisa
alguma cá da terra, deixem de fazer muitas, e até pecados. Com advertência não, pois que, a estas almas,
o Senhor deve dar certamente ajuda muito particular para isto. Digo pecados veniais, que dos mortais,
quanto elas entendem, estão livres, ainda que não seguras; pois terão alguns que não
entendem, o que não lhes será pequeno tormento. Também lho dão as almas que elas vêem que
se perdem; e embora tenham, de certo modo, grande esperança de não serem dessas, quando
se recordam de alguns daqueles de que diz a Sagrada Escritura que pareciam ser favorecidos
do Senhor, como por exemplo um Salomão que tanto comunicou com. Sua divina Majestade, não podem deixar de
temer, como tenho dito; e aquela de vós que se vir com mais segurança de si mesma, tema
mais; porque «bem-aventurado o varão que teme a Deus», diz David. Sua Majestade nos
ampare sempre; suplicar-Lhe isto para que não O ofendamos, é a maior segurança que
podemos ter. Seja para sempre louvado, amen. – Será bom dizer-vos, irmãs, qual o fim
para que o Senhor fez tantas mercês neste mundo. Ainda que nos efeitos delas já o tereis
entendido, se advertistes nisso, eu vo-lo quero tornar a dizer aqui, para que não pense
alguma que é só para regalar essas almas, o que seria grande erro; porque Sua Majestade
não no-lo pode fazer maior que em dar-nos vida que seja imitando a que viveu Seu Filho
tão amado; e assim tenho por certo serem estas mercês para fortalecer a nossa fraqueza
– como aqui já tenho dito alguma vez para podê-Lo imitar no muito padecer. – Sempre temos visto que aqueles que mais
de perto acompanhavam a Cristo Nosso Senhor, foram os que tiveram maiores trabalhos. Vejamos
os que passou Sua gloriosa Mãe, e os gloriosos Apóstolos, Como pensais que poderia São
Paulo sofrer trabalhos tão grandes? Por ele podemos ver que efeitos fazem as verdadeiras
visões e a contemplação, quando são de Nosso Senhor, e não imaginação ou engano
do demónio. Porventura escondeu-se com tais mercês para
gozar daqueles regalos, e não atender a outra coisa? Já vedes que não teve dia de descanso,
ao que podemos entender; e tão-pouco o devia ter tido de noite, pois nela ganhava o que
havia de comer. Gosto muito de São Pedro, quando ia fugindo do cárcere e lhe apareceu
Nosso Senhor e lhe disse que ia a Roma para ser crucificado outra vez. Nunca rezamos desta
festa, onde isto se lê, que não me dê particular consolo. Como ficou São Pedro com esta mercê do Senhor,
ou que fez? Ir logo para a morte; e não é pequena misericórdia do Senhor encontrar
quem lha dê. – Oh! irmãs minhas, que esquecido deve ter
o seu descanso, e que pouco se lhe deve dar da honra, e que longe deve andar de querer
ser tida em algo a alma onde o Senhor está tão particularmente! Porque, se ela está muito com Ele, como é
de razão, pouco se deve lembrar de si; toda a memória se lhe vai em contentá-l’O mais,
e em quê ou como Lhe mostrará o amor que Lhe tem. Para isto é a oração, filhas minhas;
para isto serve este matrimónio espiritual: que nasçam sempre obras, obras. – Esta é a verdadeira prova de ser coisa
e mercê feita por Deus, – como já vos disse, – porque pouco me aproveita ficar-me ali a
sós muito recolhida, fazendo actos com Nosso Senhor, propondo e prometendo fazer maravilhas
por Seu serviço, se, em saindo dali, e se oferece ocasião, faço tudo ao revés. Digo mal, que aproveitará pouco, pois tudo
o que se faz se se está com Deus, aproveita muito; e estas determinações, embora depois
sejamos fracos em as cumprir, alguma vez nos dará Sua Majestade com que o façamos; e
talvez, até mesmo, embora nos pese, como acontece muitas vezes; pois como vê uma alma
muito cobarde, dá-lhe um trabalho muito grande, bem contra vontade dela, e fá-la sair com
lucro; e, depois, como a alma entende isto, fica mais perdido o medo para mais se oferecer
a Ele. Quis dizer que é pouco, em comparação do
muito mais que é conformar as obras com os actos e palavras, e quem não o puder por
junto, seja a pouco e pouco. Vá dobrando a sua vontade, se quer que lhe
aproveite a oração; dentro destes recantos em que viveis, não faltarão muitas ocasiões
em que o possais fazer. – Olhai que isto importa muito mais do que
eu vos saberei encarecer. Ponde os olhos no Crucificado e tudo se vos fará pouco. Se Sua Majestade nos mostrou o Seu amor com
tão espantosas obras e tormentos, como quereis contentá-l’O só com palavras? Sabeis o que é ser espiritual deveras? É
fazer-se escravos de Deus, para que, marcados com o Seu ferrete que é a cruz, pois já
Lhe deram a sua liberdade, os possa vender por escravos de todo o mundo, como Ele o foi;
e não lhes faz nenhum agravo nem pequena mercê. E se a isto se não determinam, não
haja medo que aproveitem muito, porque de todo este edifício – como já disse – é
seu fundamento a humildade; e se não há esta muito deveras, até para vosso bem não
quererá o Senhor subi-lo muito alto, para não dar com tudo em terra. Assim, irmãs, para que leve bons alicerces,
procurai ser a menor de todas e sua escrava, vendo como ou em quê as podeis servir e dar-lhes
prazer; pois, o que fizerdes neste caso, o fazeis mais para vós do que para elas, pondo
pedras tão firmes, que não vos caia o castelo. –
Volto a dizer que, para isto é necessário não assentar vossos alicerces só em rezar
e contemplar; porque, se não procurais virtudes e o exercício delas, sempre ficareis anãs;
e praza a Deus que não seja só no crescer, porque já sabeis que, quem não cresce, decresce;
porque tenho por impossível que o amor, onde o há, se contente de ficar em um ser. – Parecer-vos-á que falo com os que começam,
e que depois já podem descansar. Já vos disse que o sossego que estas almas têm no
interior, é para muito menos o terem, nem o querem ter, no exterior. Para que pensais
que são aquelas inspirações que disse, ou para melhor dizer, aspirações; e aqueles
recados que a alma envia do centro interior à gente de cima do castelo e às moradas
que estão fora daquela onde ela está? É para que se deitem a dormir? Não, não, e não; pois dali mais guerra
lhes faz, para que não estejam ociosas as potências e os sentidos e todo o corporal,
do que fazia quando andava com eles padecendo; porque então não entendia ó lucro tão
grande que há nos trabalhos, que foram porventura meios de que Deus se serviu para a trazer
até ali, e como lhe dá forças muito maiores que nunca a companhia que tem em si. Porque, se até cá David nos diz que com
os santos seremos santos, não há que duvidar de que estando feita uma coisa com o Forte,
por união tão soberana de espírito com espírito, se lhe há-de apegar fortaleza
à alma, e assim vemos a que tiveram os Santos para padecer e morrer. – É muito certo que, ainda com aquela fortaleza
que ali se lhe pega, acode a todos os que estão no castelo, e até ao mesmo corpo,
embora pareça muitas vezes que não se sente; mas, encorajado com o esforço que tem a alma,
bebendo do vinho desta adega, onde a trouxe seu Esposo e não a deixa sair, redunda no
corpo fraco, tal como o manjar recebido no estômago dá força à cabeça e a todo o
corpo. E assim esta alma tem muito má ventura enquanto vive; porque, por muito que faça,
é muito maior à força interior e a guerra que se lhe dá, pois tudo lhe parece um nada. Daqui deviam vir as grandes penitências que
fizeram muitos Santos, em especial a gloriosa Madalena, criada sempre em tanto regalo, e
aquela fome que teve o nosso Pai Elias da honra do seu Deus; e a que teve São Domingos
e São Francisco de ajuntar almas para que o Senhor fosse louvado; e eu vos digo que
não deviam passar pouco trabalho, esquecidos de si mesmos. – Isto quero eu, irmãs minhas, que procuremos
alcançar, e não para gozar, mas sim para ter estas forças para servir; desejemos e
ocupemo-nos na oração; não queiramos ir por caminhos não andados, pois nos perderemos
na melhor altura; e seria caminho bem novo pensar ter estas mercês de Deus por outro
sem ser aquele por onde Ele foi e têm ido todos os Seus Santos. Não vos passe isto
pelo pensamento; crede-me que Marta e Maria hão-de andar juntas para hospedar ao Senhor,
e tê-Lo sempre consigo, e não Lhe dar má hospedagem, não Lhe dando de comer. Como Lha daria Maria, sentada sempre a Seus
pés, se sua irmã não a ajudasse? Seu manjar é que, de todas as maneiras que pudermos;
ganhemos almas para que se salvem e sempre O louvem. – Dir-me-eis duas coisas: uma, é que o Senhor
disse que Maria tinha escolhido a melhor parte. É que já tinha feito o oficio de Marta,
regalando ao Senhor em Lhe lavar os pés e enxugando-os com seus cabelos. E acaso pensais que lhe seria de pouca mortificação,
uma senhora como ela era, ir por essas ruas, e porventura só, porque no fervor que levava
não entendia a como ia, e entrar aonde nunca tinha entrado, e sofrer depois as murmurações
do fariseu, e outras muitíssimas que devia ter sofrido? Porque, não se vê no povo uma mulher, e
como ela, fazer tal mudança, entre gente tão má como sabemos, que bastava verem que
tinha amizade com o Senhor, a Quem eles tinham em tanto, aborrecimento, para trazerem à
memória a vida que ela tinha levado e que se queria agora fazer santa, porque, claro
está, logo mudaria de vestidos e tudo o mais. Pois, se agora se diz o mesmo das pessoas
que não são tão nomeadas, que seria então? Eu vos digo, irmãs, que essa «melhor parte»
vinha já depois de muitos trabalhos e mortificações, pois, ainda que não fosse senão ver a seu
Mestre tido em tanto aborrecimento, isso era para ela trabalho intolerável. E então os
muitos que depois passou na morte do Senhor! Tenho cá para mim que, o não ter, – recebido
martírio, foi por tê-lo passado em ver morrer o Senhor, e nos anos que ainda viveu, que
seriam de terrível tormento, em se ver ausente d’Ele. Pelo que se vê que não estava sempre com
regalo de contemplação aos pés, do Senhor. – A outra, é que não podeis, nem sabeis
como levar almas a Deus; que o faríeis de muito boa vontade, sim; mas, não tendo de
ensinar nem de pregar como faziam os Apóstolos, não sabeis como. A isto já respondi por
escrito algumas vezes, e até não sei se neste Castelo; mas, porque é coisa que creio
vos passa pelo pensamento, com os desejos que vos dá o Senhor, não deixarei de o dizer
aqui: Já vos disse noutra parte, que algumas vezes
o demónio nos dá grandes desejos, para que não lancemos mão do que temos à mão, para
servir a Nosso Senhor em coisas possíveis, e fiquemos contentes com ter desejado ás
impossíveis. Deixando de parte que na oração ajudareis muito, não queirais aproveitar
a todo o mundo, mas sim às que estão em vossa companhia, e assim será maior a obra,
porque a elas estais mais obrigadas. Pensais que é de pouco lucro, que a vossa
humildade seja tão grande, e a mortificação, e o servir a todas, e uma grande caridade
para com elas, e um amor do Senhor, que esse fogo as incendeie a todas, e com as demais
virtudes as andeis sempre despertando? Não será senão serviço muito e muito agradável
ao Senhor, e, com isto que pondes por obra, e que podeis, entenderá Sua Majestade que
faríeis muito mais; e assim vos dará prémio, como se Lhe ganhásseis muitas almas. – Direis que isto não é converter, porque
todas são boas: E, quem vos manda meter nisto? Quanto melhor forem, mais agradáveis serão
ao Senhor seus louvores, e mais aproveitará sua oração aos próximos. Enfim, irmãs minhas, aquilo com que quero
concluir é que não façamos torres sem fundamentos, porque o Senhor não olha tanto à grandeza
das obras como ao amor com que se fazem; e, desde que façamos o que pudermos, Sua Majestade
fará com que vamos podendo cada dia mais é mais, conquanto não nos cansemos logo,
mas; no pouco que dura esta vida, e porventura
será ainda menos do que cada uma pensa, ofereçamos interior e exteriormente ao Senhor o sacrifício
que pudermos, pois que Sua Majestade o juntará com o sacrifício que Ele ofereceu por nós
na Cruz a Seu Pai, para que tenha o valor que o nosso amor tiver merecido, embora sejam
pequenas as obras. – Praza a Sua Majestade, irmãs e filhas minhas,
que nos vejamos todas onde sempre O louvemos, e me dê graça para que eu faça alguma coisa
do que digo, pelos méritos de Seu Filho, que vive e reina por todo o sempre, amen;
que eu vos digo que é grande confusão minha, e assim vos peço, pelo mesmo Senhor, que
não esqueçais em vossas orações esta pobre miserável. EPÍLOGO – Ainda que, quando comecei a escrever isto
que aqui vai, foi com a contradição que digo ao princípio, depois de acabado, me
tem dado muito contento, e dou por bem empregado o trabalho, embora confesso que foi bem pouco.
Considerando o muito encerramento e as poucas coisas de divertimento que tendes, irmãs
minhas, e sem casas tão suficientes como convém em alguns dos vossos mosteiros, parece-me
que vos será de consolação deleitar-vos neste Castelo Interior pois, sem licença
dos su periores, podeis entrar e passear nele a qualquer hora. – É verdade que nem em todas as moradas podeis
entrar só por vossas forças, embora vos pareça que as tendes grandes, se aí vos
não mete o mesmo Senhor do Castelo. Por isso vos aviso que não façais nenhuma força,
se encontrardes qualquer resistência; porque O desgostareis de modo que nunca vos deixe
entrar nelas. É muito amigo da humildade. Tendo-vos por tais que nem sequer penseis
merecer entrar nas terceiras, ganhar-Lhe-eís mais depressa a vontade para chegar às quintas;
e de tal maneira ali O podeis servir, continuando a ir a elas muitas vezes, que vos meta na
mesma morada que Ele tem para Si, donde não saiais mais, a não ser chamadas pela prioresa,
cuja vontade quer tanto este Senhor que cumprais, como a Sua mesma. E ainda que estejais muito
tempo fora por seu mandado, sempre, quando voltardes, vos terá a porta aberta. Uma vez habituadas a gozar deste Castelo,
em todas as coisas achareis descanso, embora sejam de muito trabalho, com a esperança
de voltar a ele, que ninguém vo-la pode tirar. – Ainda que não se trata senão de sete moradas,
em cada uma destas há muitas: por baixo, por cima, dos lados, com lindos jardins e
fontes, e coisas tão deleitosas, que desejareis desfazer-vos em louvores do grande Deus, que
o criou à Sua imagem e semelhança? Se alguma coisa achardes bem na ordem seguida
em vos dar notícia d’Ele, crede verdadeiramente que foi Sua Majestade que o disse para vos
dar contento; e, o mau que achardes, é dito por mim. – Pelo grande desejo que tenho em ser parte
para vos ajudar a servir a este meu Deus e Senhor, vos peço que, em meu nome, cada vez
que lerdes aqui, louveis muito a Sua Majestade, e Lhe peçais o aumento da Sua Igreja, e luz
para os luteranos; e, para mim, que me perdoe meus pecados, e me tire do purgatório; que
talvez lá esteja, por misericórdia de Deus, quando isto se vos der a ler, se estiver de
modo que se veja, depois de visto por letrados. E se alguma coisa estiver em erro, é por
mais não entender; e em tudo me sujeito ao que ensina a Santa Igreja Católica Romana,
que nisto vivo e protesto e prometo viver e morrer. Seja Deus Nosso Senhor para sempre
louvado e bendito, amen, amen. – Acabou-se isto de escrever no mosteiro de
São José de Ávila, no ano de mil quinhentos e setenta e sete, véspera de Santo André,
para glória de Deus, que vive e reina para sempre sem fim, amen.


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